sábado, 9 de janeiro de 2010

A festa do Padroeiro São Bartolomeu do Rêgo

A lavoira dos cães que eu vi, desde os preparativos até ao fim.

Naquele ano os mordomos da Festa de São Bartolomeu, foram o Sr. Joaquim dos Pocinhos e o irmão António dos Pocinhos.

Fizeram parte da Comissão de Festas o Sr. Manuel Nunes, o Sr. João Tendeiro, o Sr. José do Bento e o irmão Abílio do Bento que morava no lugar da Seixosas.

Além daqueles lavradores, colaboraram na lavoira dos cães o Sr. José Bagarinho e o Naifa
(que era casado com uma filha do Sousa, que morava no lugar do Reboredo), bem como outras pessoas que eu não me lembro.

O Sr. Joaquim dos Pocinhos era muito amigo dos meus pais. Eram compadres. Quando a esposa Sr.ª Maria Emília teve a Glória, a minha mãe, dois meses antes, tinha parido o meu irmão Arlindo.

Como a menina Glória mamava pouco leite, eu ia todos os dias a casa dos pocinhos levar o meu irmão Arlindo para ele mamar as sobras que ficavam nas mamas da senhora Maria Emília. Eu tratava-os por padrinhos, mas eles não eram meus padrinhos.

Naquele ano como o Sr. Joaquim dos Pocinhos era o Mordomo da Festa, veio a casa dos meus pais pedir para o meu pai ir representar a figura do “Diabo”.

A minha mãe disse – Ò compadre, depois da festa, quando o meu “home” for dar a volta para guiar a loiça e os “gardassois”, vão começar a chamar-lhe Diabo.

- Comadre, o mundo está cheio de Diabos que vagueiam por esse mundo fora para a perdição das almas. Para o próximo ano o Diabo já é outro. O compadre vai ser uma figura muito importante da festa. Os romeiros que vêm de fora ver a festa, não vêm cá pela procissão… Nas suas terras têm também bonitas procissões. Os forasteiros vêm para ver a nossa lavoira dos cães e cabras, e para ver o Diabo à solta!

- O teu papel de Diabo vai ser importante e sei que não me vais deixar ficar mal. Eu quero que a lavoira dos cães represente a nossa sementeira do linho, porque essa tradição já vem do tempo dos meus bisavôs, e quero fazer uma festa muito bonita, tanto a festa religiosa, como a nossa lavoira da sementeira do linho.

- O padre Gomes até já nos está a criar problemas! Já me chamou e disse-me que não autoriza deturpar a imagem do santo, nem quer figuras vestidas de padre a fazer fantochadas de benzeduras! Não quer que a lavoura dos cães seja feita no campo santo! Diz que o terreno já foi benzido para um dia construir o cemitério! Que é considerado terreno sagrado e que andar lá a fazer palhaçadas é profanar a igreja! Mandou-me ir fazer aquelas fantochadas para o campo das macieiras!

- Eu disse ao senhor Abade que a lavoira dos cães não é nenhuma fantochada. É uma imitação da lavoira do linho na freguesia do Rêgo, que é uma tradição que já vem de muitas gerações.

- Olha compadre, o nosso padre está velho e cada vez mais embirra com a lavoura dos cães. Mas o Sr. Abade não manda no campo santo! O campo é da freguesia! Ele só manda no passal! Todos os anos a lavoira dos cães é feita no campo santo!

- Eu até fui falar com presidente da Junta, Manuel Pimenta, e com o Regedor António Carvalho. Deram-me carta-branca. Disseram que o Sr. Abade, só manda no passal!

- O Custódio disse-me que o padre anda a ser aguilhado pelo Russo. Mas o juiz de paz só manda em coisas do tribunal! Só eu é que posso proibir! Ele não é regedor!

- Mas eu vou fazer uma surpresa ao Sr. Abade… Vou escolher para representar o nosso padroeiro São Bartolomeu, o beato que passa mais tempo dentro da igreja, mais até do que o padre José Gomes, que anda sempre atrás do sarilho a ver se ele lhe cuida bem a lavoira.

A minha mãe levantou-se logo do preguiceiro e com os olhos muito arregalados perguntou ao meu “padrinho”- Compadre quem é o beato-? Ó! Não arranje nenhum estafermo. Escolha pessoa escorreita, que não faça pouco do meu “home”!

- Compadres, há três figurantes que só no dia da festa se vai saber quem são: o padre, o padroeiro e o Diabo. É uma surpresa…

- Pode dizer, que nós não dizemos a ninguém.

- Compadres, não temos correio, não temos jornais, não temos telefone nem rádio, a nossa comunicação é feita de boca em boca. Mas se dermos um peido aqui em Vila Boa, hoje ao final da tarde, o cheiro já alastrou pela freguesia toda!

- Compadre não fique assustado… Eu vou conseguir levar a cruz ao calvário!

Fiquei curioso. Estava morto que chegasse aquele dia para ver o meu pai a fazer de Diabo. Sempre que o “padrinho” dos pocinhos vinha para os campos eu não o largava.

Um dia os “padrinhos” apareceram lá em casa com a vestimenta que o meu pai ia usar a fazer de Diabo. A vestimenta para o meu pai foi costurada em tecido de chita pela senhora Maria Emília dos Pocinhos e veio tirar a prova ao meu pai

O chambre ainda vinha aberto a meio e as mangas separadas. O marido deu as ordens no sentido de as mangas fecharem no sítio das mãos, em feitio de luva e deixar os dedos compridos e no fim aguçados de forma a parecerem garras.

Na cinta tinha dois laços que formavam duas argolas onde o São Bartolomeu ia meter a corrente para prender o Diabo.

Tinha uma parte que enfiava na cabeça e já estava pronta. Dois buracos para os olhos e uma abertura, onde saia a boca e o nariz. Na testa tinha dois chavelhos já cosidos de vez e que se mantinham rígidos, porque tinham por dentro um carolo em cada um.

No fim da prova, o marido perguntou ao meu pai, se quando ia dar a volta para guiar a loiça e os gardassois, viu em alguma casa de lavoura, usar o odre ou cabaças de duas canadas.

O meu pai disse que os odres em uso eram raros, viu na casa do Virgilinho em Montim, e nas mãos da mãe do Benancinho do Ferreira de Quintela.

- E o compadre para que quer os odres e as cabaças tamanhas?

- É para levar o vinho para a merenda da lavoira dos cães.

- Porra! O vinho vai de qualquer jeito. Não se ande a incomodar.

- Compadre, quero naquilo que seja possível, manter os costumes dos nossos antepassados.

- A Claudina Pereira tem um odre, mas andei com eles em demanda no tribunal por causa do poço da água de rega, que está dentro do meu quinteiro. Ali não vou pedir. Tenho de me servir por outro lado.

A festa estava próxima. Naquela semana a comissão fez o segundo peditório.

A festa religiosa ficava cara. As esmolas eram dadas em dinheiro e milho. Mas o pagamento ao fogueteiro, à banda da musica, aos tramboleiros, a missa cantada por três padres, as ornamentações dos andores e dos anjinhos que iam na procissão, etc. Era tudo pago a dinheiro. Por isso foi feito o segundo peditório.

A despesa do enfeite dos altares e coro da igreja ficou a cargo da Casa das Caetanas, quatro beatas solteironas, Emilinha, Joaquininha, Miquinhas e Carolininha.

Mas, quem cuidava regularmente do atavio dos altares eram as filhas do Rendeiro. Lembro-me da mulher do Bagarinho, da Lucília que era a mais nova….Quando ia pedir esmola para Alijó, parava naquelas duas casas, (únicas naquele caminho) só para ver as flores.


A festa religiosa


Finalmente chegou o dia que eu tanto ansiava. Era sábado, as filhas dos lavradores, dos caseiros, as mulheres da aldeia do Rêgo, surgiam de todos os carreiros e caminhos aos magotes, sobraçando flores. Caminhavam a passos ligeiros em direcção ao adro da igreja.

Algumas levavam as sacholas ao ombro. As campas eram todas de terra e tinham de ser arranjadas e enfeitadas como se os defuntos tivessem sido enterrados na véspera.

Sabiam que no dia seguinte iam passar por ali muitas pessoas estranhas. Queriam que os forasteiros notassem que lá por ainda continuarem sem cemitério para enterrar os seus mortos, não os esqueciam ali enterrados ao redor da igreja.

A noite foi animada com o fogo. Apareceram muitos jovens e algumas mocetonas com os namoros, mas acompanhadas pelos pais, não fosse o Diabo tece-las… A luz era fornecida por alguns gasómetros e velas.

No domingo de manhã, antes da missa cantada e a comunhão solene, os tramboleiros andaram pelos lugares anunciar a festa. A banda da música também veio tocar junto das casas dos mordomos, Srs. Joaquim dos Pocinhos e António dos Pocinhos

Ao meio dia, o Sr. Joaquim dos pocinhos apareceu na nossa casa com um alguidar cheio de arroz e carne, uma enfusa de vinho e meia broa de pão. - Compadres, vós também sois filhos de Deus! Hoje são as nossas festas!

- Logo que a procissão recolha, vens ter a minha casa para eu te vestir, pintar e dizer-te qual é o teu trabalho…

A procissão

De tarde saiu a procissão. Os homens que iam pegar aos andores, de opas vestidas, uns de azul outros de vermelho, começaram a retirar os andores de dentro da igreja para o adro.

Dentro do adro só ficaram os lavradores vestidos com as opas, três para levarem a cruz e os outros para levarem o pálio, onde se iam abrigar os três padres. O padre José Gomes Júnior era quem ia no meio a segurar a Custódia onde ia exposta a santa hóstia.

O pequeno adro fazia de cemitério, estava ocupado pelos mortos.

Os anjinhos formavam filas no caminho em frente à igreja. Em cada fila seguiam também as filhas dos lavradores, bem oiradas e vestidas a preceito com grandes pelicanas nas orelhas, cordões ao pescoço, medalhões, libras, crucifixos, dedos cheios de anéis, lenço chinês, corpete de linho, saias e blusas de fina pelúcia, saiote de castorina, e calçavam a fina chinela.

Cada lavrador porfiava em apresentar as suas filhas a trajar pomposamente nos dias de festa. Era quase como uma competição.

Era nas festas que elas podiam ser vistas e admiradas pelos seus conquistadores. Só em dias de festa, é que as roupas novas saiam da caixa e o oiro do escaninho.

No meio dos anjinhos, seguiam também vários balsões transportados pelas pessoas ligadas a casas ricas e à igreja.

A banda da música e o grupo dos tramboleiros já estavam no caminho, no sítio certo onde iam incorporar a procissão.

O campo santo (onde hoje é cemitério) estava apinhado de gente que ia acompanhar a procissão.

Antes de os andores saírem do adro, o padre Gomes veio vistoriar o andor do São Bartolomeu. Não queria que se repetisse aquilo que todos os anos acontecia, meter um cigarro na boca do Diabo e durante a procissão acenderem o cigarro para o Diabo fumar.

A procissão saiu do caminho em frente à igreja e foi até à escola, e junto à casa dos pais do carpinteiro chamado Narciso, virou à esquerda, seguiu pelo caminho abaixo, deu a volta ao cruzeiro e recolheu novamente à igreja.

Quando chegou a meio do percurso, alguém se encarregou de meter um cigarro na boca do Diabo e pô-lo a fumar…

Estava dado o primeiro sinal da Lavoira dos cães…


A lavoira dos cães

Quando a procissão recolheu, o meu pai desapareceu, não o vi mais.

Eu fiquei com a minha mãe, os meus irmãos e a mãezinha de Vila Boa, junto ao Passal. A minha mãe sentou-se com o menino ao colo e os outros meus irmãos na borda do campo santo.

A mãezinha disse que lhe doía a cabeça e queria ir para casa. A minha mãe mandou-me acompanhá-la para ela não ir sozinha e disse-me para eu voltar ali quando a mãezinha entrasse em casa.

Como eu queria ver a onde estava o meu pai, mal cheguei ao cancelo da porta, esgueirei-me logo.

Fui direitinho a casa dos pocinhos a ver se encontrava o meu pai. Abri as portas fronhas que só estavam com o taramelo, mas as outras portas estavam fechadas. No quinteiro só estavam as galinhas.

Em vez de ir ter com a minha mãe, segui pelo caminho que ia pelo meio do lugar sair à escola. Logo que passei a casa da senhora Felismina Cunha e a casa da Arrocha, vi no meio do caminho, em frente à casa do Sr. Narciso que era carpinteiro, uma carroça mal amanhada e tinha atrelada a jumenta do Naifa. Estava a segurar no cabresto um rapazinho, filho do Naifa.

Mais à frente estavam dois cães com um pequeno jugo em cima do pescoço, tipo canga, com um cordel amarrado que fazia de soga e estava a segurar nela o criado dos Pocinhos, com uma croça vestida.


Vestimentas

Dentro do quinteiro do Sr. Narciso, estavam os figurantes e o “padrinho” dos Pocinhos a passar a revista a ver se estavam vestidos a rigor para desempenhar o papel que ele queria.

Os lavradores estavam vestidos de croças de capa e polainas encaixadas nos socos rebelos, feitas duma planta chamada junco, pelo Sr.António Tecedeira, conhecido por “Caramona”

A confecção daquelas croças era considerada de luxo (falarei disso quando narrar as profissões).

Os criados estavam vestidos com a croça normal, feita de junco tal como saìa das junqueiras. Quem confeccionava aquelas croças era a minha tia Pimenta, mulher do tio Domingos “Vacaria”.

O padre estava vestido com um burel que se estendia até às botas, um chapéu de abas largas e tinha nas mãos um livro preto.

O sacristão estava vestido com uma opa de serapilheira e tinha na mão uma lata cheia de água, e uma pequena vassoura de giesta. Quem representou a figura de Sacristão foi o Naifa.

O São Bartolomeu estava vestido com uma túnica igual à do Santo, mas a espada era bastante diferente. Tinha uma enorme espadela na mão, afazer de espada, feita pelo carpinteiro Narciso, de acordo com a vontade do Mordomo Sr. Joaquim dos Pocinhos.

Os guardas estavam fardados a rigor com os uniformes da tropa, que tinham trazido para casa, quando passaram à disponibilidade, e com os respectivos bacamartes ao ombro.

Os irmãos Sr.José do Bento que morava em Vila Boa e o Sr. Abílio do Bento que morava no Lugar da Seixosas, representaram a figura de guardas.

Eu fiquei aflito por não ver ali o meu pai e perguntei ao “padrinho” onde é que estava o meu pai.

Ele ficou muito zangado comigo. - Desaparece daqui! Se não levas um mosquete!

E começou a pôr dentro da carroça os engaços de dentes de pau, as sacholas de crista, uma cesta cheia de baganha, os cambões, a grade e o arado.

A seguir, o Sr. Joaquim dos Pocinhos equipou-se de lavrador, croça de capa, polainas, socos rabelos, lenço à tabaqueira e chapéu. Foi ele que fez de semeador do linho naquela lavoira dos cães.

O cortejo partiu dali, já devidamente organizado. À frente iam os guardas com os bacamartes ao ombro, depois o padre com um livro preto na mão e o sacristão com a lata da água benta e uma pequena vassoura de giesta. A seguir o São Bartolomeu, com uma grande espadela na mão e uma corrente enrolada em volta e por último os lavradores, os criados e a carroça com as apeirias.

Quando o cortejo chegou em frente à escola, parou. O caminho estava cheio de gente.

A borda da mouta do Nunes estava apinhada de gente, desde o caminho que ia para o Rêgo, até ao outro caminho que saìa do largo do D’Além e circundava a mouta até se cruzar com o outro.

Os guardas tiveram que proteger o cortejo para manterem o povo afastado, a fim de poderem dar inicio à lavoura e abrir caminho para o cortejo.

O povo ficou atónito. Perguntava: “ Então este ano não há cabras? Só há cães? E não tem Diabo à solta? “

Uma lavoura daquela grandiosidade também tinha que criar o seu suspense.

O Sr. Joaquim dos Pocinhos, era um homem de imaginação. Pensou tudo ao pormenor. Mandou cangar as cabras dentro do quinteiro da casa do Sr. Serafim Galego e ficarem lá escondidas.

Em dado momento abriu-se o cancelo, o criado já com a croça vestida, apareceu com as cabras e veio para trás dos cães, para engatar o cambão á grade.

O “padrinho” dos Pocinhos disse: “O cortejo da Lavoira dos Cães está completo”. Não falou no Diabo. O São Bartolomeu estava sozinho e não se mostrava preocupado em saber onde estava o Diabo.

Eu fiquei cada vez mais desassossegado. Pensei que o meu pai estava preso. Estavam ali, os mascarados que iam fazer de padre, São Bartolomeu, sacristão e guardas e o meu pai que ia fazer de Diabo não estava.


O arranjo do caminho

Tal e qual, como faziam os lavradores quando semeavam o linho nos prados, antes davam um jeito ao caminho para não ser tão custoso para as vacas que iam levar os carros de estrume ao prado.

Assim começou a Lavoura do linho, antes de começar o arranjo do caminho, o Sr.
José Bagarinho que fazia figura de padre benzeu os animais, lavradores, criados e a multidão que assistia aos preparativos da Lavoira dos Cães.

Pegou na vassoura de giesta que o Naifa, que fazia de sacristão levava dentro da lata de água benta, e espargiu as pessoas que conseguiu atingir á sua volta. Disse umas palavras que não me lembro e ficou quedo.

Os lavradores pegaram nos engaços de dentes de pau e sacholas de crista, que iam dentro da carripana puxada pela jumenta do Naifa, e começaram a fingir que Arranjavam o caminho. Aquele por acaso estava bom. Era o caminho principal da freguesia.

Duns tantos e tantos metros o cortejo parava, para o Sr. Abade fazer mais uma benzedura. Os forasteiros deliravam e faziam grande galhofa. O povo da freguesia sentia-se feliz por ver a festa cheia de gente.

O Sr.
João Tendeiro que fazia figura do São Bartolomeu, impávido e sereno vigiava a multidão, porque era o dia 24 de Agosto, tinha dado liberdade ao Diabo para andar à vontade, mas a qualquer momento podia vir estragar aquele trabalho.

Ao chegar perto da casa do Sr. Alfredo do correio, o Diabo saiu do meio da sebe, da borda do campo da penouta, e como um corisco enfiou-se no meio da multidão.

Eu não queria acreditar que aquele desgraçadinho, era o meu pai. Com umas alpercatas nos pés e as pernas ao léu negras como carvões. Na cara só se viam os olhos e os dentes a reluzir. Era todo negro.

Metia medo a qualquer cristão. Era arrepiante olhar para aquela sinistra figura.

Era um Diabo igualzinho aquele que o São Bartolomeu tem no altar junto ao Santíssimo.


Quando o Diabo entrou no meio do povo, foi uma explosão. Ele começou a passar as manápulas por cima dos ombros das raparigas. Elas assustadas gritavam: “Arrenego-te Diabo!”

Com uma rapidez medonha, o Diabo movimentava-se de lado para lado. As suas diabruras deliciavam a multidão. Nalguns casos criava-se a confusão. Gritaria e correrias. O Diabo fazia arremetidas, para importunar os Lavradores e criados.

Do largo do D’alem até ao portão principal do adro, que naquela altura, se situava em frente à torre do sino, lado Nascente, o Diabo com aqueles atractivos, proporcionou à multidão um inédito espectáculo, único em Portugal. Só possível ver, na freguesia do Rêgo.

Desde que o Diabo entrou no recinto, o São Bartolomeu, não arredava os olhos dele. Vigiava todos os seus movimentos.

Não admitia, que o Diabo arrebatasse qualquer alma penada que por ventura, andasse a vaguear no meio da multidão.

Junto à entrada do portão principal do adro, à sombra dos ramos das árvores que saiam do adro, estava montada uma barraca de doçaria, onde várias pessoas compravam doces.

O Diabo agarrou uma rapariga pelas costas, entrou no portão e tentou descer as caleiras e levá-la para o adro. A moça começou aos gritos, mas não largava o molho de rosquilhos que tinha na mão.

O São Bartolomeu retira a corrente da espada, e num gesto impressionante, com a espada fez uma cruz no ar, na direcção do portão principal do adro.

Como fulminado por um raio, o Diabo larga a moçoila e vem muito mansinho encostar-se aos pés do São Bartolomeu, que imediatamente o prendeu com a corrente que tinha na mão.

A partir daquele momento, o São Bartolomeu manteve o Diabo preso, até ao fim da Lavoura dos Cães.

O Sr. João Tendeiro usava umas barbas muito grandes. Era muito beato. Para fazer de padroeiro, não precisou de barbas postiças.

Como ia todos os dias à missa, os lavradores pagavam-lhe dois tostões por cada padre-nosso e uma ave-maria, que ele rezasse dentro da igreja pela alma dos seus mortos.

Ele fazia aquelas rezas, antes de começar a missa ou o terço. Passava pela frente dos altares e citava em voz alta, o nome dos mortos por quem ia rezar, e rezava em voz alta.

O mordomo Joaquim Lopes de Carvalho, escolheu para representar o Padroeiro, o homem mais beato da freguesia. E foi feliz na escolha, porque ele portou-se como um santo.

Entretanto, os lavradores chegaram ao campo santo, mas antes de iniciar a Lavoura dos cães, o padre benzeu o campo e toda a multidão que o rodeava. Mergulhou a vassoura dentro da lata da água e espargiu a água benta por cima do campo e da multidão.

Os guardas devidamente aprumados, bateram o tacão com a antiga bota cardada, e tomaram posição para evitar que a multidão entrasse no campo e prejudicasse os trabalhos da vessada.

Começou a lavoura. A parelha de cães puxava o pequeno arado, com um lavrador agarrado à rabiça, e outros lavradores, seguiam atrás, com as sacholas de crista a simular que picavam a ceita.

O semeador com uma cesta cheia de baganha enfiada no braço, lançava a semente à terra, mas estendia o lanço de forma a que a semente voasse por cima da multidão.

Atrás seguia a junta de cabras a puxar a grade, com um lavrador a segurar o gancho que estava encaixado na grade e servia para ele manobrar a grade para onde quisesse de forma a cobrir as sementes.

Por fim, seguiam os lavradores com os engaços de dentes de pau, para dar o último arranjo à terra.

Depois de os criados percorrerem o campo ao comprido e ao través nas cabeceiras, com os cães a puxar o arado, as cabras a puxar a grade e os lavradores a comporem a terra, deram por terminada a sementeira.

O Abade leu um responso no missal que trazia e a seguir fez a última bênção. Mas daquela vez abusou da benzedura.

Depois de benzer a sementeira do linho, enfiou a vassoura várias vezes dentro da caldeira e outra tantas vezes, sacudiu a vassoura por cima da aglomeração de pessoas que rodeavam o campo.

Retiraram os jugos e cambões aos cães e cabras, carregaram todas as apeirias para a carroça do Naifa, que se encontrava ali com a jumenta e a mulher do Naifa a segurar o cabresto da jumenta.


A merenda

De seguida o mordomo Joaquim dos Pocinhos convidou todos os figurantes para a merenda, seguiram caminho abaixo, direitos ao largo do cruzeiro onde a merenda ia ser servida.

Aquele largo ficou superlotado. O campo em frente à residência do padre Gomes e casa do Sr.Albino do Bento, estava apinhado de gente. O povo queria saborear a Lavoira dos Cães até ao fim.

Os figurantes encostaram as costas à borda do campo e virados para a casa do padre José Gomes ficaram à espera da merenda.

Junto ao cruzeiro estavam duas lavradeiras, com dois açafates cobertos com toalhas de estopa, e dirigiram-se para junto dos figurantes.

Dentro dos açafates vinham cabaças e odres com vinho, cartuchos de tremoços e penicos para servirem o vinho.

Até a merenda era simulada. Nunca em tempo algum, foi servida tal merenda nas lavoiras reais. Aquela merenda, só podia ser uma merenda para a Lavoira dos Cães.

Foram servidos os tremoços e a seguir o vinho em penicos.

Alguns figurantes, só molhavam a goela, porque os penicos quando passavam pelas mãos dos figurantes, Manuel Nunes, Abílio do Bento e João Tendeiro, confundiam penicos com canecas e despejavam o vinho dos penicos duma só golada.

Tratava-se de três bebedores bem encascados, clientes assíduos da taberna do D’Além.

Como tinham bens ao luar, tinham crédito, metiam-se em bródios, comiam e bebiam sem relego, mandavam pôr no livro, como não “votavam tento á vida”, o calote aumentava cada vez mais.

Quando as dívidas atingiam desmesurados montantes, os devedores eram chamados para liquidar as contas de imediato.

Como não tinham dinheiro, pagavam com as casas, moutas, ou campos, quando os gados já não cobriam os valores.

O Sr. Manuel Nunes vendeu a mouta situada em frente à escola.

O Sr. Abílio do Bento, ficou sem a casa e campos da Seixosas.

O Sr. João Tendeiro ficou sem o Lameiro e o moinho do arregontim (primeiro a seguir à ponte).

Os meus pais a quem dediquei estas memórias, Diziam: “Quem ganha três e gasta quatro, não precisa de bolsa nem saco”.

Com aquela merenda, assim terminou aquela Lavoira dos Cães.

Devido à minha curiosidade de criança, aquela festa tão linda, ficou gravada para sempre na minha memória e por isso a narrei aqui, embora, com esquecimento de algumas cenas que já não me lembro, porque já passaram mais de 71 anos.

A freguesia do Rêgo tem belezas raras que a distingue das outras 21 freguesias.Infelizmente os poderosos meios de comunicação Social desconhecem aqueles tesouros.

A RTP1 vai a Celorico de Basto fazer a Praça da Alegria na festa anual, mas os seus repórteres só visitam os centros e ignoram verdadeiras relíquias de Portugal, que só existem na freguesia do Rêgo.

Ambrósio Lopes Vaz

Porque é digno de lhe dar o devido destaque junto deste meu trabalho, As festas da Aldeia do Rêgo, Reproduzo este magnífico poema na íntegra, do amigo conterrâneo Luís Mário, (apenas corrigi os erros ortográficos), já publicado no Post Trabalho Comunitário.

“Gostaria de mandar um dos meus poemas da minha
autoria escrito há 32 anos quando andava na Força
Aérea em Tancos

REGO MINHA TERRA
O ambiente de eterna saudade
e a beleza das paisagens.
Das fruteiras em flor.
A presença constante e amiga
de um sol bronzeador.
A atmosfera do perfume das suas figueiras,
cerejeiras, pessegueiros e outras.
O seu saboroso vinho americano e suas ramadas.
As elevações que criam magnificam paisagens naturais.
Sucedem-se a horizontes planos.
A amenidade do seu clima.
As belezas das paisagens.
Vestígios de onde viveram Lusitanos
e outros povos que contam uma longa historia.
A expressão de um povo apaixonado pela sua terra.
O pitoresco das tradições das suas festas ligadas à agricultura.
O sol sempre presente nas colinas solitárias e selvagens.
A transparência do cristal do sol azul.
Águas tépidas do rio.
Paisagens onde a luz se transformam em cor.
As excepcionais condições de toda a paisagem minhota.
Os passeios pelos campos.
Os divertimentos.
A caça e a pesca.
A alegria dos festejos populares e as danças
em que os rapazes e raparigas rodopiam velozes
nos passos do vira e foclor.
O carnaval e suas romarias em festa.
A lavoira dos cães, única realizada em Portugal
ao seu padroeiro S.Bartolomeu.
O S. João e S. Pedro.
A ceia de Natal, tascas e bares.
A gastronomia de pratos típicos e saborosos.
O silêncio da frescura das árvores.
A alegria de toda esta gente que vive feliz
vivendo das suas tradições.
Rego minha terra.
Onde esteja sempre te recordarei os tempos de juventude.
Recordarei o teu povo.
As tuas tradições.
Os teus vales e montes cheios de neve.
O sol de Agosto sempre presente na tua paisagem.
O luar de Agosto que ilumina os teus montes.
As desfolhadas e tuas festas.
Os piqueniques da Senhora do Viso.
As noitadas de S.Bartolomeu.
A tua lavoira dos cães.
REGO que para sempre serás minha terra.

Um abraço deste amigo LUIS MÁRIO”

sábado, 2 de janeiro de 2010

As Festas da Aldeia do Rêgo


Dedico este modesto trabalho à memória dos meus pais, aqui na foto, com a minha esposa e os meus irmãos mais novos, Ilídio e Manuel.

* * * * *

O meu amigo Armindo Gonçalves, seguidor das Memórias do Rêgo, pediu-me para fazer um Post dedicado à Lavoira dos Cães da festa do São Bartolomeu do Rêgo, que se fazia na minha infância.

Aceitei. Mas entendo que não devo melindrar os outros santos que também têm as suas capelinhas em São Bartolomeu do Rêgo e nem todos os santos têm direito a festa.

Para mim, todos os santos merecem o mesmo respeito, sejam de madeira, barro ou outros materiais.

Por isso, os lembro aqui, para eles saberem que o Ambrósio não os esqueceu.

Lembro também a Senhora do Viso, que, embora não pertença à freguesia do Rêgo, porque a capela está situada na linha de divisão de Caçarilhe e Rêgo, o povo do Rêgo ao longo dos tempos vem considerando a Festa da Senhora do Viso, como sendo pertença da freguesia do Rêgo.

Na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, naquele tempo, além da igreja conheci três capelinhas, São Pedro no lugar de Arbonça, Senhora da Saúde no lugar da Lameira e São Bento no lugar de Quintela.

Cada santo tinha a veneração dos seus devotos, conforme as necessidades espirituais e credibilidade dos seus admiradores.

O São Bento que protegia as pessoas dos bichos peçonhentos e as livrava dos maus vizinhos do pé da porta, nunca lhe fizeram festa e até a capela estava abandonada.

O Apostolo São Pedro, segundo as crenças e lendas antigas que através dos séculos vêm sendo transmitidas de geração para geração, é o responsável das chaves para abrir as portas do céu às almas.

Apesar de ter uma missão das mais importantes, era a festa menos concorrida e quase passava despercebida, não fosse o povo de Arbonça nunca deixar andar os seus créditos por mãos alheias.

No dia da festa havia missa na capela e de tarde, rezava-se o terço e faziam novenas.

A noitada era festejada pelos Moços Novos. (Falarei disso nos costumes)

A casa do Simão de Arbonça, era responsável por zelar a capela e nunca deixou que o dia de São Pedro caísse no esquecimento.

A lavradeira, Arminda do Catalão que casou com o Simão de Arbonça foi durante anos, uma das responsáveis pela manutenção da capela.

Morreu no hospital de São João no Porto, e dois dias antes da morte, pediu-me para dizer à família que determinada quantia de dinheiro guardada em tal sítio (...) era proveniente de esmolas e promessas e pertencia ao São Pedro.

Transmiti aquela última vontade da Arminda do Catalão à sua mãe Albininha do Catalão.


Curiosidade

O verdadeiro nome do apóstolo era Simão, mas como havia outro apóstolo com o mesmo nome, os outros apóstolos chamavam-lhe Pedro e ficou para sempre conhecido por Pedro, e quis o destino que na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, a Casa Simão de Arbonça não deixasse cair no esquecimento o Apostolo Simão, que foi considerado o príncipe dos apóstolos.


Festa e Feira anual da Senhora da Saúde

A Senhora da saúde como era a protectora da nossa saúde, era a todo o instante lembrada pelo povo. Era aquela santa, que nas horas de aflição o povo se apegava.

Quando as doenças eram mais graves, os familiares prometiam à Senhora da Saúde, promessas bastante complicadas para cumprir.

Uma delas, era no dia da festa deslocarem-se a pé das suas casas, até ao recinto da capela sem fala. Durante o percurso não podiam falar para ninguém.

Vinha gente de muito longe, chegavam andar 60 quilómetros sem fala, para cumprir as promessas. Os que podiam falar, cantavam canções religiosas, “Queremos Deus”, “Miraculosa Rainha dos Céus” e outras.

As pessoas que iam a cumprir a promessa sem fala, levavam uma flor na boca, para não se esquecerem da promessa e dar sinal às pessoas que se cruzassem no caminho, que iam a cumprir a promessa sem fala.

A festa era muito concorrida. Com uma pomposa procissão, organizada com todos os requisitos, saía da capela e seguia o trajecto até ao estradão que ia para Pedroso, e depois regressava à capela. Durante o percurso a estrada nacional era cortada ao trânsito e originava longas filas de carros, porque era a única estrada que existia.

Os forasteiros vinham de vários concelhos. Alguns vinham em grandes ranchos com as suas tunas características das regiões donde moravam. Traziam harmónicas, ferrinhos, realejos, tambores, gaitas e violas.

Uns vinham para cumprirem promessas. Outros para fazerem os seus negócios.

O dia da festa era também dia de feira anual, onde se vendia e comprava todo o tipo de gado, bovino, caprino, ovino, galináceos, etc…Vendiam também alfaias para a lavoura, crivos, peneiras roupas, calçado etc.

O dia em que conheci a festa e a feira anual, foi muito feliz para mim. Nunca mais o esqueci.

Na véspera da festa, a senhora Albininha do Catalão, pediu à minha mãe se deixava eu ir “chamar” uma junta de vacas, das cortes situadas na mouta da mangarela, até à feira da Lameira.

A minha mãe autorizou. A senhora Albininha disse à minha mãe para eu ir ter a casa dela e que jantava lá e quando vendesse as vacas que me vinha trazer a casa.

A casa onde morava o Sr. António Catalão e Sr.ª Albininha e onde nasceram as filhas Elvira e Arminda, ficava junto à casa da tomada ao fundo do caminho que vinha do poço da fonte sair aos currais, e que ainda hoje existe. Embora intransitável.

Todo acanhado, lá apareci e fiquei à porta como de costume quando ia pedir a esmola. A Senhora Albininha logo que me viu, mandou-me entrar e sentar à mesa.

Era uma mulher destemida e muito somítica, mas naquele dia tratou-me como família. Comi comida igual à deles. Foi um fartote. Tirei a minha barriga de misérias.

Vim mais tarde a conviver com a feira mensal, a festa e feira anual, quando fui servir para a Lameira, na casa do Albino do Alves, (conhecido por “penico”) casado com a senhora Maria do Joana.

Esta casa era muito conhecida porque tinha um boi barrosão de cobrição e os agricultores iam lá levar as vacas ao boi.

O patrão, nos dias de feira, ia para lá e só vinha embora quando a feira acabava, mas por vezes era obrigado a vir mais cedo. Ele fazia de intermediário na venda e compra do gado para receber a sua comissão. Durante a tarde, como gostava da pinguinha, juntava-se aos feirantes que iam para as tascas petiscar e beber umas canecas. Ao fim da tarde estavam todos enfrascados.

Como todos se faziam acompanhar da racha de lódo, por dá cá aquela palha, começavam a zaragata. Era rara a feira que não houvesse barulho e alguns saiam de lá com uma grande polinheira.

O meu amo em vez de receber a paga do seu trabalho era mimado com umas landreiradas e aparecia em casa mais cedo com a cabeça partida, e o canastro todo empenado. Era muito fraquinho no jogo do pau. Nunca aprendeu o contra-jogo.


Festa da Senhora do Viso

A capela da Senhora do Viso está construída na demarcação das freguesias de Caçarilhe e Rêgo.

A sua localização é magnífica. Do seu recinto observam-se em todo o seu redor, belas paisagens de Celorico de basto e doutros concelhos.

A mãezinha de Bolada era muito beata e contou-me que a senhora do viso tinha oito irmãs, nasceram nove dum ventre, e como foram todas santas, foi combinado construir as capelinhas onde ficassem a ver umas às outras e na altura falou no nome delas, senhora da graça, senhora da saúde, senhora das neves etc.

Segundo a lenda que vem sendo contada, de geração em geração, a Senhora do Viso é responsável pelo nosso juízo.

Ouvi muitas vezes as pessoas idosas e a minha mãe dizerem: Deixa-te de toléria. Pede à Senhora do Viso que te dê juízo.

Foi sempre uma festa muito frequentada por gente de todas as idades, das freguesias de Celorico de Basto e dos concelhos vizinhos. Os romeiros vinham ali satisfazer variadas promessas. Dar a volta ao redor da capela de joelhos, novenas, que era dar nove voltas ao redor da capela.

Havia também a promessa do morto, que era meter a pessoa viva, dentro dum caixão, tal e qual como se estivesse morto e dar as voltas prometidas com o “morto” dentro do caixão ao redor da capela.

Os caixões eram alugados ali no recinto pela Comissão de Festas, aquelas pessoas que tinham de cumprir aquele tipo de promessas.

Aparecia naquela festa o primeiro vinho doce. Era transportado para o recinto em pipas colocadas em carros de vacas, onde era vendido em tigelas e canecas.

Alguns romeiros levavam cabaças e odres para comprar vinho doce para trazer para casa.

Naquela época e naquele dia eram ali vendidas melancias, melões e outras frutas e também vários doces, cavacas, rosquilhos, rebuçados de mel etc. Além das tasquinhas de comes e bebes cobertas por toldes instaladas no recinto.

A ordem era assegurada pela Guarda Nacional Republicana, que tinha grandes dificuldades em manter o recinto da festa sossegado.

A certa altura perdia mesmo o controle e limitava-se a proteger a capelinha de qualquer profanação ou estragos.

Naquela data era na festa da Senhora do Viso, que o povo de São Bartolomeu fazia os ajustes de contas, que se iam acumulando durante o ano. Roubo da namorada, tornas de água, negócios, falta de cumprimento da palavra, e outras pulhices.

No acto da infracção, o lesado lançava a ameaça. No Viso pagas.

Todos os homens e moços novos que iam à festa, iam munidos cada um com a sua racha. Pelo caminho para a festa, aqueles que iam já com intenções de saldar contas, por vezes cruzavam-se com os “devedores” e seguiam todos juntos na grande galhofa fingindo serem todos amigos.

No recinto iam gozando a festa e saboreando os petiscos acompanhados por uns bons cartilhos de vinho.

Depois de bem bebidos ao fim da tarde começavam as provocações. Os provocadores de tigela na mão cheia de vinho dirigiam-se aqueles que pretendiam aquecer o lombo e ofereciam-lhe o vinho. Como eles não aceitavam, os desordeiros esbarravam-lhe com a tigela cheia de vinho nas bentas. Outras vezes ao passar davam-lhe um empurrão.

As rachas começavam a trabalhar e o povo fugia para não ser atingido.

A guarda como não conseguia pôr termo à desordem sacudia-os para fora da festa.

Mas o jogo do pau continuava pelos caminhos abaixo, e quando algum tropeçava nas pedras, perdia o equilíbrio do jogo e era-lhe fatal, levava umas boas estadulhadas até ficar desacordado.

Encostavam-no a uma borda e ele ficava a ali a sonhar com coisas bonitas, até desacordar ou aparecer algum caminhante que o socorresse.

Porém, se o ferido não acordasse mais e ficasse a dormir eternamente, para o lembrar era colocada naquele sitio uma cruz ou umas alminhas.

Na Senhora do Viso, não dizia a letra com a careta, porque quando começavam a bater, malhavam sem dó nem piedade. Tinham pouco juízo.

Ambrósio Lopes Vaz