segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Memórias da Freguesia do Rego:
Profissões, costumes, tradições, indústrias e remédios caseiros

  A.                      Profissões

Conheci várias profissões na freguesia do Rego: carpinteiros, ferreiros, azeiteiros, alfaiates, barbeiros, colmadores, croçeiros, guardasoleiros, sapateiros, funileiros, ferradores, mineiros, sardinheiras, tamanqueiros, costureiras, tecedeiras, bordadeiras, oveira e bicheiras.
Estas são algumas das profissões que me lembro.

Outras profissões não existiam na freguesia e, por isso, os artífices vinham de outras freguesias fazer os trabalhos em que eram especializados, ou como pedreiro e capador, ou vendedores de bens de consumo, como o caso do azeiteiro que vinha de longe para ali fazer o seu negócio.

1.     Pedreiro
Os pedreiros, conhecidos pelos lobos de Montim, por morarem naquela localidade, trabalhavam com qualquer tipo de pedra, alvenaria, propianho de palmo e torno e propianho de palmo e meio, assim como lavravam a pedra e gravavam.

Grandes artistas! Faziam os engenhos em pedra, para abrirem e taparem os poços de água, durante os meses de inverno.

Vi eles fazerem o muro de suporte da poça da lebandeira, foi feito quando era presidente da Junta de freguesia, o pai do Abel Pimenta, de Bolada, que também veio a ser presidente da Junta, no anterior regime.
Gravaram a data numa pedra, o ano de 1939.
Foi um grande melhoramento para a freguesia do Rego e até para outras freguesias, porque era o principal caminho que ligava Borba da Montanha e Carvalho e por ali passavam quando iam para a feira da Lameira.
Eram aqueles pedreiros que construíam as casas e muros. Foram eles que construíram os jazigos antigos de pedra do cemitério do Rego.

2.     Capador
O capador vinha nos dias da feira da Lameira e Carvalho, percorria os lugares à procura dos clientes, marcava a sua presença com o toque duma gaita, com uma melodia já bem conhecida dos caseiros e lavradores. 

3.     Azeiteiro
O azeiteiro vinha de longe e trazia mercadoria muito variada, como: azeite, petróleo, sabão, álcool, vinagre, azeitonas, entre outros.
A mercadoria era transportada em mulas, com uma albarda em madeira, que tinha de cada lado uns buracos para enfiar os cântaros que tinham os líquidos e uma mala para o sabão e outras mercadorias.


Cada vasilha tinha no fundo uma torneira para tirar os líquidos, que eram medidos desde o quarteirão até à canada.
Aquelas medidas: quarteirão, meio quartilho, um quartilho, meia canada ou dois quartilhos e uma canada ou quatro quartilhos, vinham penduradas nos ganchos da albarda.

Era do tempo em que na bolsa dos pobres só existiam moedas de meio tostão, tostão, dois tostões e cinco tostões, também conhecidos por uma “croua”[1] e dez tostões ou um escudo, ou mil reis, que na bolsa dos pobres eram muito poucas.

Estas correspondiam à jorna paga aos jornaleiros quando conseguiam trabalho. O homem ganhava duas “crouas” e a mulher uma “croua”, só mais tarde é que a jorna passou para três “crouas” para o homem e duas “crouas” para a mulher.

As outras moedas (de prata) 2$50, 5$00 e 10$00, também chamadas de dois mil e quinhentos reis, cinco mil reis e dez mil reis, eram raras na mão do pobre.

Ouvi muitas vezes a minha mãe a regatear o preço, conforme a mercadoria, oferecia sete e meio (tostão e meio), um cruzado (quatro tostões) e um quartinho (doze tostões), porque a mercadoria para a libra (nove “crouas”) já eram negócios dos grossistas.
As pessoas idosas ainda falavam em reais quando vendiam ou compravam as mercadorias!

O azeiteiro fazia concorrência ao Zé/dalém, pois vendia mais barato, e fiava a mercadoria. Os fregueses pagavam um mês e ficavam a dever o outro. 



Artífices da freguesia do Rego:
Algumas profissões passaram de pais para filhos, durante gerações.

    1.     Alfaiate 
O alfaiate, cujo nome não me recordo, era de Pedroso. Morava junto à casa do Sr. Casemirinho da Venda, e tinha um defeito na cara, por isso, era conhecido pela alcunha de “Cara torta”, peço desculpa aos familiares, por não mencionar o seu nome, mas era assim que era conhecido e, como tal, o seu nome próprio não era tão divulgado.

Quando fui servir para a casa do Albino do Alves, na Lameira, no fim do ano recebi a soldada que o meu pai ajustou com o patrão, o preço de 50$00 no ano e os deveres.
O meu pai foi comigo àquele alfaiate e mandou fazer umas calças e um “jaleque” de cotim para eu vestir ao domingo quando fosse à missa ou a alguma festa.

Aquele alfaiate, ao domingo, quando ia à missa levava a roupa para a igreja (fatos, calça e outras peças) para tirar a prova aos clientes ou para entregar aos fregueses, os que já estavam feitos.  

Actualmente, ainda existe na freguesia do Rego a profissão de alfaiate, que é exercida pelo meu parente e antigo companheiro de escola João Batista Lopes Vaz, pessoa a quem mandei fazer alguns fatos depois do 25 de Abril e visito-o quando vou à aldeia.

Recentemente veio-me ao conhecimento (09/12/13) que o alfaiate, o meu amigo João Baptista está bastante doente e com uma doença muito grave.





O mestre alfaiate, João Baptista Lopes Vaz, na oficina onde confecciona os fatos e os trabalhos de costura.

  



   2.   Barbeiro
Na freguesia do Rego existiam vários barbeiros e que prestavam os seus serviços ao domicílio.

Ao sábado iam ao encontro dos fregueses, se estes não estavam em casa, iam procura-los ao campo, ao monte, à sorte, à bouça, ao lameiro, etc.
Ali se improvisava a barbearia e cortavam o cabelo e a barba.

No centro do lugar, cada barbeiro tinha a “sua” barbearia para atender os clientes que não andavam nas lidas da lavoura, ou que quisessem ser atendidos na barbearia, que eram e ainda são preciosas relíquias.

Os barbeiros eram pagos ao ano e por maquia.
Lavradores e caseiros ajustavam com o barbeiro as medidas de milho a pagar no São Miguel, que iam de quarto à rasa, conforme o número de pessoas de cada casa, em que os criados de servir eram incluídos.

Esta foi uma das artes que foi passando de pais para filhos.

Ainda há bem pouco tempo existia uma barbearia no lugar de Vila Boa, na entrada da casa do Maioto e que só encerrou quando morreu o último filho do Maioto, que granjeava as terras e habitava aquela casa. Os pais dele eram caseiros do Marialves e alguns filhos do Maioto continuaram como caseiros.

Assim desapareceu a barbearia velhinha de antigamente, onde os meus conterrâneos iam cortar o cabelo e desfazer a barba, mesmo os pequenos industriais, como se pode ver o industrial, meu amigo António Nunes, sentado na cadeira a receber os serviços daquele barbeiro.
O mestre barbeiro, Sr. António Dias é surdo-mudo, mas entendia muito bem os clientes na preferência do corte do cabelo.
O corte de cabelo era todo feito à tesoura e pente.

Um artista muito perfeito, como se pode ver no filme em anexo.

Quando ia passar férias à aldeia, usava os serviços daquela barbearia tradicional, tanto para mim como para os meus filhos.









   3.   Carpinteiros
Conheci o Sr. Narciso, do lugar de Vila Boa e o Sr. Joaquim Rija que morava no lugar da Ponte, mas havia outros.

Aqueles carpinteiros faziam todo o tipo de utensílios: rurais, arado, cambão, carros, grades, engaços, malhos, caniças, jugos completos, cangas, zorras, etc.
Também faziam todos os móveis para as casas, preguiceiro, camas, mesas, cadeiras, bancos, masseira, escudela, pá de levar as broas ao forno, as coberturas de trabejamento de madeira para as habitações, cortes, moinhos, espigueiros, portas, janelas e cancelas. Tanto faziam novo como concertavam o velho.

Eram artistas muito completos e moldados à medida daqueles que precisavam dos seus serviços e dos tempos difíceis em que viveram.

Todas as madeiras eram preparadas por eles, fossem de carvalho, castanho ou outras. Os carpinteiros abatiam as árvores, serravam e talhavam ali mesmo no local: as tábuas, os barrotes, as traves e os cumes, em conformidade com a necessidade dos trabalhos que iam executar.

Todo aquele trabalho era feito à mão. Não havia máquinas. Por vezes trabalhavam ao dia, de sol a sol, na casa dos lavradores. Levavam as ferramentas dentro duma grande ceira e ainda uma maleta de madeira, onde ia o trado, os formões, o mascoto, a enchó, a plaina e outras ferramentas necessárias.
Lá caminhavam ao amanhecer ou em plena noite, por aqueles canelhos e caminhos horríveis, sujeitos a caírem dos precipícios que os rodeavam.
A vida era dura…
Era o tempo de escravidão. Aqueles mestres foram uns heróis!



4.   Sapateiro
Naquele tempo conheci o Sr. António sapateiro que morava no caminho que ia para os lugares do Rego e Alijó e partia da antiga escola e era a primeira casa do lado esquerdo, logo á entrada.
O Sr. António fazia sapatos, botas, chuzes e chinelos, para todas as medidas e feitios, cosidos com o melhor que havia naquela altura, e ainda juntava ao fio de sediela cedas do lombo dos porcos. 
Aquelas confecções de calçado novo eram feitas a partir da pele que ele comprava para a confeção.
A maior parte do trabalho eram concertos, porque fazer novos era algo só para os fidalgos.
Naqueles trabalhos fazer de novo e consertar velho, ensinou o filho Álvaro, que seguiu a profissão do pai e ainda hoje a exerce na casa onde mora, no lugar da Costinha. 


   5.    Funileiro
Era o Senhor António Rija, pois pertencia à família dos Rijas, morava à entrada do caminho que ia para o lugar do Roboredo, que hoje está desabitado e, por isso, foi riscado do mapa da freguesia. 
Aquele funileiro era um grande artista, pois fazia todas as medidas de líquidos, desde a medida mais pequena, o quarteirão, até ao cântaro, e grandes bacias para se tomar banho.
Fazia cocos, lampiões, tigelas, candeias, almontarias, regadores, funis e outros utensílios que podem confirmar na foto em anexo.
Todos aqueles artigos eram confecionados em folha zincada e soldados com solda de estanho. Naquela época ainda não havia o alumínio e o plástico, aqueles novos materiais quando apareceram, vieram revolucionar tudo, puseram fim à velha profissão dos funileiros.

 O funileiro em plena actividade


   6.    Colmador
No lugar de Vila Boa existiam três colmadores, o Sr. Casimiro Cabanelas, o Sr. Joaquim Pereira e o Sr. Abílio Pinga de Alijó. Também havia um no lugar de Pedroso.  
Quando aqueles colmadores morreram, era o marido da minha saudosa amiga, Cândida do Nunes, que vinha colmar a casa dos meus pais e outras colmaças que ainda existiam. Ele percebia bem da arte, mas também era amigo de ajudar os pobres, como foi no caso dos meus pais, que os ajudou muita vez.


   7.   Ferreiro
Existia um ferreiro em Alijó que fazia quase todas as ferramentas para a lavoura: as gadanhas, as foicinhas, os gadanhos, os chavelhões, as baretas para os jugos, as correntes para os cambões, as chapas e as tarraxas para os carros de bois, as abecas para os arados, as ferrelhas, usadas no forno, fazia os pregos para pregar as ferragens dos carros de bois e para as dobradiças de determinados portais, ferraduras, ferros do monte, foices roçadoiras, ponteiros e cinzeis para cortar e lavrar a pedra, sacholas, enxadas, picaretas, machados, alviões, etc.

Tudo feito em ferro e moldado com o ferro a ferver, saído do fogo!
Trabalho muito árduo!

E naquele tempo não havia máquinas! 

As ferramentas para a lavoura e para outras profissões eram feitas pelas próprias mãos do ferreiro.
Posteriormente apareceu um outro ferreiro que era o Sr. José ferreiro, marido da Sra. Laura Rendeira.

A oficina do ferreiro.
A casa onde o mestre ferreiro passava o maior tempo da sua vida.

No Inverno, o calor até fazia jeito, mas no pino do Verão, o ferreiro trabalhava quase em coirato.
As faúlhas que saiam da forja, por vezes, furavam-lhe a pele.
Quando batia com o malho na bigorna, para moldar o ferro, saíam lascas de ferro e cravavam-se-lhe no peito, fazendo dele um cristo.

Os nossos jovens de hoje, não fazem uma pequena ideia dos sacrifícios por que passaram os seus antepassados, para construir as ferramentas usadas pelo povo naquela época.

Ainda hoje existem ferreiros a fazer uso desta profissão, mas com outras condições de trabalho. E ainda bem!




[1] Quando se usa aqui a palavra “croua” é a palavra correta que naquela época o povo utilizava.

14 comentários:

  1. Caros amigos, visitantes e seguidores do blog "Memorias da freguesia do Rego". Estou de novo a publicar as memorias da freguesia do Rego, que vos prometi.Agradeço que deixem os vossos comentários.

    São importantes as vossa opiniões.A freguesia do Rego é conhecida por várias partes do mundo através das suas memórias, já tem mais de 29 mil visitas,por pessoas de vários países, América,Canadá, Brasil, Alemanha,França, Luxemburgo, Itália, Bélgica etc.Obrigado a todos pela vossa colaboração.
    As minhas Cordiais Saudações.
    Ambrósio Lopes Vaz

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  2. Caro amigo Ambrósio!
    Obrigada pela partilha de tão precioso documento histórico-social. Num presente tão árido, é sempre saudável trazer à memória o património cultural e artístico de um povo que sofreu as amarguras da ditadura, mas, incansável, conquistou, ainda assim, a liberdade. Um exemplo para os mais jovens, além do mais.
    Os meus sinceros parabéns!
    Adorei!!!
    Abraço fraterno

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  3. Cara amiga Doutora Ana Maria Cameselle, estou muito grato pelo seu comentário.

    A Senhora Doutora foi a primeira a comentar esta minha publicação e dá-me muita força para continuar a escrever e publicar as memorias da freguesia do Rego.

    Desejo-lhe muita saúde e felicidades.no desempenho da sua nobre profissão.Retribuo a meu fraternal abraço.

    Ambrósio Lopes Vaz

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  4. Caro amigo Ambrósio

    Grata pela partilha deste riquíssimo documento sócio-cultural. digno de ser lido por pessoas de todas as gerações. As memórias do passado não devem perder-se. São património de todos nós e ajudam-nos a perceber quem fomos e quem somos. Acredite que fiquei muito sensibilizada e mais enriquecida. Belo trabalho, sem dúvida!
    Parabéns, pois, pelo texto e pelas imagens!!!

    Beijinho

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  5. Mais uma vez agradeço a visita da Senhora Doutora Ana Maria Cameselle ás "Memorias da freguesia do Rego"

    Sinto.me muito feliz por as "memorias do Rego" serem visitadas e comentadas por uma prestigiada professora do ensino secundário, que é muito querida e estimada nas suas turmas de alunos e alunas, que lecciona á vários anos no distrito de Braga.
    Muito obrigado pelo estimulo e carinho que me dá para continuar a escrever as memórias do Rego.
    Um forte abraço e um beijinho.

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  6. Sr. Ambrósio esta de parabéns pelo seu blog. gostei muito. espero por novas publicações

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  7. Amigo Anónimo, obrigado pela sua visita, brevemente vão sair novas publicações.
    Cordiais saudações.

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  8. Manuel Narciso Ferreira Goncalves1 de fevereiro de 2014 às 22:05

    Caro Sr. Ambrósio,
    É louvável seu trabalho incansável de contar e registrar as memórias deste tempo e deste lugar que tanto representou para o senhor, para meus antepassados, e com certeza para as novas gerações como a minha. Fiquei emocionado em ler seus comentários sobre o meu avo Narciso e sobre a casa dos Maioto, que conheci em 1992, quando ainda ali vivia meu tio Domingos. Hoje no Brasil ainda estão vivos minha mãe Maria Alice, meu tio João Batista, da parte do avo Narciso, e meu tio Clemente da parte do avo Manuel. Mostrarei a eles seu bonito trabalho. Parabéns e um grande abraço, Manuel

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  9. Caro Sr. Ambrósio e querido primo Manuel Narciso
    Gostei muito de recordar as lembranças de minha infância em Portugal ainda vivas em meu peito. Meu avô Sr. Narciso Alves Ferreira e meu pai Sr. Manuel Antônio Alves Ferreira eram carpinteiros e meu pai aos finais de semana também exercia o ofício de barbeiro exatamente com comentou o Sr. Ambrósio.
    Parabéns por esta iniciativa! Com certeza muitos conterrâneos vão ter a mesma satisfação que eu tive.

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  10. Caro Sr. Ambrósio e querido primo Manuel Narciso,
    Fiquei muito feliz em recordar as memórias de minha infância vividas em Portugal ainda latentes em meu peito através de seu Bolg. Meu avô Sr. Narciso Alves Ferreira e meu pai Manuel Antônio Alves Ferreira eram carpinteiros do lugar de Vila Boa e meu pai aos finais de semana exercia a função de barbeiro da forma exata com que foi descrito acima.
    Parabéns por esta iniciativa virtual que une conterrâneos ainda que com moradas em longas distâncias mas unidos pelo amor à pátria e ao seu povo.

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    1. Amiga Maria de Sousa Ferreira Alves, obrigado pelos seus comentários e peço desculpa por só agora responder.

      Eu conheci muito bem a família do Sr. Narciso. Andei com a Maria Alice na escola e os irmãos eram meus amigos.
      Gente honesta e honrada.


      As minhas Cordiais Saudações.

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  11. Olá, Sr. Ambrósio! Gostei muito do seu blog. Espero que continue a escrever sobre a nossa terra. Parabéns!

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  12. Olá Sr. Ambrósio! Parabéns pelo seu blogue! Espero que continue a escrever sobre a nossa terra.

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  13. Cara conterrânea Maria Celeste Dias, obrigado pelo seu comentário.Tenho várias memórias para publicar, Cordiais Saúdações.
    Ambrósio Lopes Vaz

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