sábado, 4 de abril de 2009

O amanho do linho por processos primitivos

A cultura do linho por processos primitivos

No lugar de Vila Boa, várias casas de lavoura semeavam linho, cito apenas os Lavradores, que faziam espadadas, onde se juntavam as criadas, jornaleiras, as filhas dos lavradores, vizinhos e lavradeiras, para espadar todo o linho num só dia, ou numa só noite. 

A maior parte das vezes, aquela tarefa era feita durante a noite.

Casas de lavoura, do Catalão, dos Pocinhos, da Tomada, dos Nunes de Baixo e de cima, dos Cunhas e  casa de lavoura da Claudina Pereira. 

A minha mãe, espadou e fiou linho e também carpiou e fiou lã, para as lavradeiras daquelas casas que citei.

A sementeira do linho era feita num campo de regadio e muito soalheiro.

Aquela planta para se desenvolver em condições naturais, precisava de muita humidade na raiz e muito sol no caule. O linho era semeado no mês de Abril.

A terra era amanhada, nos mesmos moldes da sementeira do milho. A estrumação da terra é que era diferente. Para a cultura do linho, era usado um esterco bem curtido e miudinho para se desfazer na terra. Quando era possível, estrumavam com estrume das cortes das ovelhas, gado cavalar e dos porcos.

Depois da terra pronta, faziam pequenas margens, separadas por regos, semeavam a linhaça, esgadanhavam a terra com um engaço de dentes de ferro, para a semente ficar coberta.

De seguida regavam a terra, com um pequeno pilheiro de água, de forma a entrar na margem em leque e não arrastar a terra, só molhá-la e o lavrador com a sachola de crista, batia os sítios mais altos, para ficar tudo plano.

O linho nasce e é regado três vezes por semana. Na rega, não se cava a terra, para abrir ou tapar os pilheiros da água, usavam vassouras de giesta ou bucheiros, que iam mudando de rêgo para rêgo e desta maneira aproveitam-se as sementes que nasceram nas bordas do rego, no qual semeavam o milho, chamado restivo, que só se desenvolvia depois de ser arrancado o linho.

Antes do linho florir, procedia-se á monda de todas as ervas daninhas, de forma a ficar só o linho.

Pela acção do Sol e a terra sempre húmida, o linho desenvolvia-se rapidamente e ficava todo florido com uma flor lilás.


Com a devida vénia do Autor


Nesta foto, deste campo de linho,, está o meu afilhado Ambrósio, filho do meu irmão Manuel, que muito gentilmente me cedeu a citada foto.

Quando a flor caía, no seu lugar apareciam pequenas bolinhas, onde se criava a linhaça, que além de semente, era usada como cura de doenças, dores de barriga, constipações, gripes, etc...


Depois das plantas ficarem maduras, o linho era arrancado com muito jeito, para não partir e deixado ás gabelas em cima da margem.

No fim da arrancada, a raiz era sacudida até largar a terra que ainda mantinha na raiz.

Depois, o linho era enfaixado em molhos, de maneira que a raiz ficasse toda para o mesmo lado.

A seguir, era transportado para a eira, onde era ripado numa alfaia de dentes de ferro, chamada ripador ou ripanço.




    Com a devida vénia do Autor
Este ripador, também chamado cedeiro, é pertença da casa de lavoura do Sr. Casimirinho da Venda, onde também cultivavam a sementeira do linho.
Casa de lavoura do Sr. Casimirinho da Venda

Depois de separada a baganha, era espalhada no ladrilho da eira, para secar e assim ser extraída a linhaça, para a futura semente e para fazer remédios e outras aplicações.

O linho era amarrado aos molhos e levado para o rio ou poços, onde ficava mergulhado debaixo da água corredia, com umas tábuas e pedras em cima, para se manter debaixo da água, durante dez a doze dias, até ficar curtido e largar todas as impurezas.

Ao fim daqueles dias, era retirado da água e estendido ao Sol até ficar completamente seco. Durante a secagem era virado várias vezes ao dia, com jeito para não partir as fibras.

Quando estava bem seco, era amarrado em molhos e transportado para a eira, para ser malhado ou maçado com um maço de madeira, até ficar em fibra.

                                                                                                         Com a devida vénia do Autor

Nalgumas freguesias, o linho era tratado para ficar pronto a fiar; num engenho, movido a água ou  movido por gado, onde o gado andava á roda num reduto, nos mesmos moldes, da nora de tirar a água para regar os campos.

No lugar de Vila Boa, era tudo feito á mão, desde a sementeira do linho, até se transformar em tecido. Mas alguns lavradores iam fazer esse trabalho ao engenho.

De seguida fazia-se a espadada, que normalmente era feita durante a noite.

                                   Com a devida vénia do Autor- cortiço, espadela e ripanço.

As mulheres espadavam o linho de pé. Cada mulher a dias, que ia espadar o linho, para as casas de lavoura, levava o seu cortiço e a sua espadela.  Á beira de cada mulher, era colocado um molho de linho, de onde tirava uma mão cheia de cada vez e a segurava na boca do cortiço, estendida na vertical, batia várias vezes com a espadela na paiha, até separar a casca e ficar apenas a fibra do linho, pronta para pôr na roca e fiar.

Quando a mão-cheia estava espadada, era passada no sedeiro, um instrumento de madeira, com dentes de ferro afiados, num lado, os dentes estavam mais juntos, no outro lado, estavam mais espaçosos. Na parte onde estão mais juntos, ao sedar, sai a estopa, na outra parte sai o linho.

A manada que fica pronta no sedeiro, chama-se estriga, era dado um nó a meio, metiam-nas em grandes sacos, dali iam para a roca, para serem fiadas.

A sedagem era para separar as fibras mais compridas das mais curtas. Todas as fibras eram linho, mas a estopa dá um tecido mais grosso. As fibras mais compridas, dão um tecido mais fino, chamado bragal.

A fibra que caía no chão, que saía da espadagem, chama-se tomentos e dá um tecido muito grosso, chamado burel, é muito difícil de fiar, devido aos restos da casca, que ainda contém e desse tecido grosso, faziam  camisas, lençóis, as capas de burel etc....

                          Com a devida vénia do Autor.          Capas de burel, usadas por mães e filhas

A fiação do linho, era feita á noite a seguir á ceia. Ali se juntavam as filhas, a criada e a patroa. Quando não havia filhas, o serão era feito pela ama e criada. A criada não podia ir para a cama, sem ter fiado pelo menos seis maçarocas.


Os serões ás vezes iam até altas horas da noite, e os moços solteiros, aproveitavam a noitada e vinham falar ás moças, como acontecia com as minhas vizinhas, filhas da Sra. Albininha do Catalão, Elvira e Arminda.

Os tomentos, estopa e algum linho, eram dados a fiar a fiandeiras, mulheres muito pobres, que aceitavam fiar doze meadas por meio quarto de milho. Cada meada levava doze maçarocas.

                                                             Com a devida vénia do Autor.

   Esta fiandeira está a fiar linho.                              

           

                                         Com  a devida vénia do Autor.

A medida da grossura de cada meada, era a meada preencher o espaço entre o dedo anelar e o polegar, dentro da mão fechada.

A minha mãe para conseguir acabar a empreitada mais depressa, ensinou as três filhas a fiar, a Maria, a Alzira e a Emília.

A minha irmã, Emília era a mais nova, com apenas seis anos, foi a que aprendeu mais rápido, tanto a fiar lã, como o linho.

Como era muito pequenina, e o chão da casa era de terra, a minha mãe fez um buraco no chão, enfiou lá o fuso para ele não fugir da mão, pegou-lhe na mão e ensinou-a, a torcer o fio e andar com o fuso á roda. As crianças também colaboravam na tarefa da fiação do linho e lã.

Como eu era rapaz, não fiava, tinha de enrolar as maçarocas no sarilho, para fazer as meadas. Quando acabava de enrolar a massaroca, a minha mãe vinha fazer a emenda do fio. Tinha de ser dado um nó de tecedeira. Aquele nó era especial. Se não fosse feito nó de tecedeira, o tecido ia ficar com defeito, e o futuro tecido, ficava com defeito e podia romper naquela emenda, com o nó de tecedeira, nem sequer se notava onde o fio foi emendado.

Acabada a empreitada da fiação do linho, a minha mãe entregava as meadas ás lavradeiras, e recebia os quartos de milho correspondentes ao trabalho.

De seguida as meadas eram lavadas com sabão, bem esfregadas e batidas na pedra do tanque. 

As meadas de tomentos e algumas de estopa, seguiam para o coradouro, onde coravam, e voltavam a serem lavadas.

Aquelas meadas, não iam á barrela, destinavam-se a fazer o chamado linho de pano-cru. Eram dobadas na dobadoura, e passadas para novelos, que ficavam prontos para a urdidura.

A barrela


As outras meadas, eram metidas num grande cortiço, tipo dorna, furado no fundo, chamado barreleiro, por cima de cada camada de meadas, era peneirada cinza, a ultima camada de meadas era coberta com um pano tipo filtro, por cima era peneirada cinza até ficar todo coberto.


                                                  Com a devida vénia do Autor

Durante três dias, votavam em cima do pano, potes de agua a ferver, que depois de atravessar as meadas, saia lentamente pelo fundo do barreleiro.

Eu era curioso e perguntava á Senhora Rosinha do Catalão, porque votava ali a água quente e cinza; – Ela dizia que era para curtir as meadas.

Acabada a barrela, as meadas eram novamente lavadas e postas no coradouro a corar, depois de coradas, eram colocadas na dobadoura e passadas para novelos.

As lavradeiras guardavam em sacos todo o linho em novelos, bragal, estopa e tomentos. Cada qualidade era pesada. O linho era vendido nas feiras, também em novelos e estrigas, a quem quisesse mandar fazer os seus enxovais directamente á tecedeira. 


Com a devida vénia do Autor

Só os grandes lavradores é que semeavam o linho, os pequenos lavradores e caseiros compravam o linho já em tecido, porque lhes ficava mais barato.



Nesta casa de lavoura do Sr. António Pereira no lugar de Vilaboa também se cultivava o linho e se espadava e se davam empreitadas as fiandeiras para fiar o linho



 tecido

Haviam no lugar de Vilaboa várias tecedeiras, entre outras, a esposa do Sr. António "Caramona" que era uma excelente tecedeira e fiandeiras de linho e lã. A minha mãe, era uma dessas fiandeiras, fiava linho e lã e fazia meias  e luvas de lã. Ainda tenho vários pares de meias, feitas pela minha mãe.

                  A minha mãe, Albertina Alves Teixeira, á porta da única entrada do nosso casebre.
                                                          

                                                                  Com a devida vénia do Autor.
Uma fiandeira a fiar lã.

Os sacos cheios de novelos de linho, eram entregues á tecedeira, para ela tecer a obra que se pretendia, de pano de estopa, linho ou tomentos, que como atrás descrevi, podia ser em pano-cru ou pano curado.

                                            Com a devida vénia do autor

A tecedeira preparava a urdidura e a teia, usando uma grande dobadoura, na qual passavam vários fios pela espadilha, da qual saíam os tomos da cruz do tear da parte de cima, e em baixo os tomos da cruz dos cadilhos. Trabalho Manual e muito cansativo.



                                                         Com a devida vénia do autor

As tecedeiras de teares manuais, faziam todo o tipo de tecido, liso, riscos ou quadrados, etc... Na freguesia do Rego, havia várias tecedeiras, que teciam o linho e lã. Havia pelo menos uma no rego, que tecia vários tipos de mantas e passadeiras, feitas de farrapo velho. O tear que tecia aquela obra, era diferente daquele que tecia o linho ou lã. Aquelas tecedeiras, também teciam pano para fazer cobertores e colchas de lã.


                                                               Com a devida vénia do Autor

Ao descrever estas memórias da freguesia do Rego, estou a utilizar as palavras que ainda me lembro, e que eram usadas pelas mulheres que espadavam o linho e que hoje saíram de uso, exemplo, espadar, espadada etc...

Na freguesia do Rego, também se faziam outras culturas, batata, painço, relva, centeio e trigo etc...O trigo e o centeio, eram semeados nas terras secas e não se faziam sachas, porque aquelas culturas não admitem tal processo, assim como na cultura do linho, relva e painço, apenas se faziam várias mondas, das ervas daninhas. 

Os trabalhos mais árduos, eram os das cegadas do trigo e centeio.

Narrei ao promenor,como se faziam as sementeiras do linho e do milho, na freguesia do Rego, por serem as mais trabalhosas e para que a memória não se apague e os jovens de hoje e os de amanha conheçam os trabalhos dos seus antepassados, na cultura do pão e sua vestimenta proveniente do linho.


                                                                 Com a devida vénia do Autor.

Ambrósio Lopes Vaz

quarta-feira, 4 de março de 2009

A sementeira do milho, na Aldeia do Rêgo

A sementeira do milho, na Aldeia do Rêgo

O processo da cultura do milho era arcaico. 

Quando o pão chegava à mesa, deixava atrás de si, um ror de trabalhos, canseiras, suores e despesas.
 As lavouras eram as que causavam maiores “dores de cabeça” aos lavradores e caseiros.

. Vou descrever o cultivo do milho, até se transformar em pão, porque foi um costume que se perdeu no tempo e que deve perdurar para que não se apague a memória.

 Primeiro, arrancava-se o esterco das cortes e era levado aos cestos para o carro de bois, devidamente apeirado com as caniças, depois de cheio seguia o caminho dos campos, veiga, prado, currais, penouta, mangarela, arregontim, devesas, reboredo, macieiras, seixosas, etc... , conforme o campo que lhe era destinado. 

  Os caminhos eram dolorosos, nalguns sítios eram precisas, duas juntas de vacas para puxarem os carros, quando estavam carregados. 

  Havia quelhas que o condutor do carro não conseguia ir á soga das vacas, pois em certos sítios empossavam grande altura de água, lama e pedras como acontecia nos caminhos para os campos das veigas e mangarela.

 O lavrador ia por um carreiro por cima dos campos e daí conduzia as vacas com a aguilhada, até chegar a caminho enxuto para retomar o comando pela soga. 

No campo, o estrume era descarregado aos montes, distanciados uns dos outros e em carreiras, em que as distâncias eram medidas a passo.

De seguida o esterco era estendido na terra, usando o engaço de dentes de ferro e a forquilha. 

  Era um trabalho muito ruim, porque o esterco vinha às postas e não se desligava, tinha que se desfazer e estendê-lo até ao extremo da carreira. 

Este serviço rebentava com os braços às pessoas, normalmente era destinado aos jornaleiros e criados, quando existiam. 

Depois de espalhar o estrume, fazia-se o cadabulho junto às bordas, em redor do campo que se ia lavrar.
                                                                        Com a devida vénia do autor. 

Cavava-se a terra em todos os cantos do campo e abria-se o primeiro rego, para o arado e o gado poderem começar a lavoura. 

Apeiravam-se pelo menos duas juntas de vacas, (nos campos grandes três) com os jugos, compostos de arcos, varetas, latos, tamoeiro e cambão para fazer o engate no primitivo arado, que só lavrava, segurado e guiado, por um homem. Ainda não existia charrua na Aldeia do Rego, só existia o arado premitivo, o que levava o dobro de tempo a lavrar.
                                                                               Com a devida vénia do Autor 
 Este campo, confrontava com o novo estradão, que ligava o lugar da Lameira até ao Zé D/Além.

                                               
   Com a devida vénia do Autor.

Começava a lavoura, era um trabalho muito cansativo, para quem chamava as vacas no rego, para o homem do arado e até para as vacas.

 
                                                      Com a devida vénia do Autor.

Conforme o arado ia virando a terra, a ceita (a) era picada à sachola, por várias pessoas que se encontravam distribuídas pelo terreno onde caía a ceita.
                                                                                     Com a devida vénia do Autor.

Este processo de cortar a ceita e deixa-la aos torrões, só era usado nas sementeiras de milho, semeado a lanço, pelo homem , porque nas sementeiras, onde o milho era semiado pela maquina, era com a grade que se preparava o terreno para a sementeira.

 Nas freguesias rurais da cidade do Porto, e Vila de Matosinhos, onde trabalhei, as alfaias eram modernas. Havia charrua, semeador e sachador, não era preciso picar a leiva. 

Usavam a grade para fazer aquele trabalho. 

Havia máquinas para tudo. Mas, ainda não havia tractores e as debulhadeiras trabalhavam movidas por  motores a petróleo. 

Depois de lavrado a terra e picada toda a ceita, o lavrador distribuía vários sacos de semente pelo terreno, dali enchia a cesta, e lançava as sementes à terra. 



Nos campos grandes, chegavam , andar dois e três semeadores a semear a lanço. 

Quando estava tudo semeado, o terreno era todo gradado, com a grade virada com os dentes para a terra, para desfazer os torrões e cobrir o milho, essa manobra era feita mais de que uma vez. 

Quando estivesse tudo desfeito, a grade era virada de dentes para cima e corria o campo todo, até a terra ficar toda plana. 

Nas terras mais húmidas era colocada uma grande pedra para fazer peso e assim a terra ficar mais assapada.

 Feita a sementeira do milho nos campos de regadio, eram abertas tornas, separadas por regos, para as futuras regas. Nos campos sequeiros não abriam tornas.A rega era do "Céu"

Durante os trabalhos da lavoura, se o campo era longe de casa, o jantar era servido no campo. 

A patroa e a criada levavam o jantar ao campo, em grandes cestos, com potes e almofias próprias para transportes da comida, grandes cabaças de vinho, louças e toalhas. 

Todos bebiam pela mesma malga ou infusa. 

Por vezes, improvisava-se uma mesa, que era o carro de bois, as pessoas acomodavam-se como podiam, uns comiam sentados nas bordas, outros arranjavam umas pedras para fazerem de banco.

.O que interessava era encher o bandulho.
                                                                           Com a devida vénia do autor 

Aquele presigo era convidativo, um tipo de cozido à portuguesa, acompanhado por broa e vinho. 

Tudo muito bem cozinhado. 


                                                      
Com a devida vénia do Autor.

Depois, uma tigela de caldo que exalava um cheirinho agradável, misturado com o cheiro do estrume; das ervas e de variadas árvores que rodeavam o campo, completava um jantar inesquecível. Quando ia chamar as vacas nas lavoiras, tirava a minha barriga de misérias.

 Durante o jantar, o gado era preso a árvores e também comia ali o seu penso, que era uma erva fresquinha do lameiro ou o azevém misturado com erva ferrã, e como sobremesa, uma gabela de feno ou molhos de palha milha. 

A meio da tarde, a dona da casa aparecia no campo com a merenda para toda a gente.

 Trazia um grande açafate à cabeça e ainda uma cesta na mão. 

Era servido arroz, postas de bacalhau frito, polvilhado com açúcar, broa e vinho à descrição.
 O dia da vessada era um dia especial. 

A comida era feita a rigor com todos os condimentos daquela época.

 De regresso para a ceia, as mulheres, as moçoilas e até os homens, cantavam em uníssono, as canções da igreja: o Avé, a Miraculosa e outras canções da época. 

Os seus cânticos entoavam pelos caminhos e ouviam-se á distância. 

Ao chegar ao povoado, o povo abria os janelos, para ver passar aquela  improvisada "tuna".

  Quando o milho começava a nascer, era altura de completar a sementeira, nos bocados que estavam em branco. semeavam o feijão e os calondros. 

Semeavam feijão moleiro, branco manteigueiro, canarinho, ou mistura e, por vezes, o chamado feijão de sete semanas.

 
                                                                      Com a devida vénia do Autor.

Aquele trabalho era feito pelas mulheres mais idosas e muito pobres, faziam aquele trabalho para ganhar a malga de caldo..., munidas por um grande chuço de madeira, aguçado na ponta, tiravam o feijão da abada e as pevides da algibeira, e deixavam-no cair onde queriam que a semente nascesse. 

Faziam um buraco e empurravam as sementes para o buraco e tapavam os buracos com terra, empurrada com o chuço. Como o feijão era caro, só era semeado o necessário. 

Eram feitas três mondas. 
 A primeira era feita antes da primeira sacha, chamada decrua, que consistia em retirar as ervas e a terra da beira da raiz do milho e deixar a raiz ao sol.
A segunda monda era feita antes da segunda sacha, chamada arrendar. 
Nesta sacha, arrancam-se as ervas e aconchega-se a terra à raiz do milho. 

                                                                     Com a devida vénia do Autor.



A última monda, consistia em retirar os milheiros machos que não dão espiga, e outros que estavam a prejudicar a boa maturação. 

  Depois da segunda sacha, o milho de regadio começava a receber as primeiras regas. O outro milho, só recebia as regas do céu.

                                                               Com a devida vénia do Autor.


                                                                         Com a devida vénia do Autor.


 Quando a barba das espigas ficava preta, cortavam-se as crochas ou o pendão. Em fins de Agosto colhia-se o milho das terras secas. 

No fim de setembro cortava-se o milho dos prados e o das veigas.

 Ás vezes, o milho só era cortado, em meados de Outubro, conforme o ano corresse mais seco ou chuvoso. 

Depois era carregado e levado para o desfolhadouro, que podia ser junto à eira ou no próprio campo. As melhores espigas eram apartadas para a semente das próximas sementeiras. 

                                                                             Com a devida vénia do Autor.


 Ali faziam-se as desfolhadas, quase sempre à noite, onde apareciam os rapazes solteiros para falarem ás moças.

 A faladura era feita à distância, com um funil na boca, para disfarçar a voz e não serem reconhecidos.

 Apareciam embrulhados num lençol, ou outros disfarces, e cara tapada. 

Os moços que falavam ao serão, também se chamavam tunantes.

 Quando se desfolhava uma espiga de milho rei, havia direito a beijos e abraços.

 A palha era atada aos molhos e posta em medas, junto aos campos da casa e as espigas eram colocadas nos espigueiros, alpendres ou eiras. 



                                                                          Com a devida vénia do Autor.

Secas as espigas do milho, procedia-se à malha que, normalmente, era feita dentro do alpendre.



Neste alpendre junto a eira, ao lado do espigueiro, da casa de lavoura do Sr. Manuel e Rosinha do Catalão, assisti a diversas malhas de vários ceriais, dentro do alpendre e na eira,a Sra. Rosinha do Catalão também escrivava milho a mão, junto ao rego de água.
 

                                                                             Com a devida vénia do Autor.

Seis ou oito malhos, divididos a meio, de frente uns, para os outros, malhavam alternadamente. 

Quando uns malham nas espigas, os outros estavam no ar, e assim sucessivamente. 
Faziam um barulho característico quando malhavam certos. 

Acabada a malha, com engaços de dentes de pau, separaram-se os carolos do milho e, de seguida, escriba-se (b) o milho num escribador de madeira, que era movido por uma roldana, manobrada manualmente por uma pessoa. 

Este engenho era munido de vários crivos. (b) - Na aldeia, as pessoas trocavam o "v" pelo "b".

 Só os grandes lavradores, tinham escribador. Os  pequenos lavradores e caseiros, pediam o empréstimo do escribador,aos lavradores abastados. 

 Nalgumas casas, o milho era todo escribado á mão. Este trabalho era feito por várias mulheres, só  quando havia corrente de vento, para ajudar a expulsar a munha. Este costume também desapareceu. 

Hoje é tudo feito com a debulhadeira, que debulha e escriba o milho.Houve grande evolução. Desapareceram os processos antigos.

Seguia-se a secagem do milho, que era feita na eira e por vezes, sobre um grande tolde, que era colocado em toda a área da eira.  


                                                                   Com a devida vénia do Autor.
Durante vários dias, de hora a hora, o milho era mexido com os pés, ou com um engaço de dentes de pau. para secar todo ao mesmo tempo. De noite ou quando chovia era guardado dentro do alpendre.

 Depois de seco, era medido e metido na tulha. No caso dos caseiros, entregavam duas partes ao senhorio e ficavam com uma parte. Na cidade do Porto e Vila de Matosinhos onde trabalhei, como moço de servir, os lavradores faziam um contrato de arrendamento diferente daquele da aldeia. 




Os lavradores, conhedores daquilo que os seus campos produziam em anos normais, celebravam um contrato baseado em duas partes para o senhorio e uma parte para o caseiro, mas,nas seguintes condições; No São Miguel (mês de Setembro) pagar ao senhorio; X rasas de milho, X rasas de batatas, X rasas de feijão etc... Era exigido ao caseiro, um fiador, que constava no respectivo contrato.Os contratos já vêm de muito longe, vejam este recibo, que suponho ser de um pároco, a dar quitação ao caseiro, daquilo que recebeu e ficou a dever, no ano de 1847.


Caso o ano corresse mal, por questões climatéricas ou outras e que as colheitas ficassem reduzidas a metade ou menos; o senhorio recebia o contratado e o caseiro ficava reduzido á miséria, porque não ficava com nenhuma parte da produção, para sustentar a familia e ainda ficava em débito ao senhorio.
Os leitores de " Memórias do Rego":- Dirão. Mas que tem haver o concelho do Porto ou o concelho de Matosinhos, com os costumes da freguesia do Rego? 

Caros ledores, havia uma grande diferença entre os caseiros-rendeiros da freguesia do Rego e caseiros-rendeiros do Porto e Matosinhos. Os caseiros da aldeia do Rego, tinham sempre garantida uma parte da produção, os senhorios do Porto e Matosinhos tinham sempre duas partes da produção garantidas e os caseiros só tinham uma parte da produção garantida se as colheitas fossem normais, o que nem sempre acontecia. Por isso citei esta grande diferença. Embora houvessem algumas excepções.

Os lavradores e caseiros, eram obrigados a manifestar a quantidade de todas as colheitas de ceriais, num impresso próprio e entregavam-no ao Regedor, que depois de o conferir e assinar, era entregue ao presidente da Câmara Municipal da Comarca.

Durante as culturas, a Camara Municipal, mandava os fiscais, fiscalizar os campos que estavam cultivados e fazer a devida anotação no livro destinado para aquele efeito.  Como se pode ver na foto em baixo, o fiscal no meio do milho a fazer anotações.


                                                                          Com a devida vénia do Autor. 


O fiscal da camara Municipal a tomar apontamentos no meio do milho. Os municipios mandavam fiscalizar todos os campos de cultivo de milho, para ver se estavam em conformidade com os manifestos que os produtores entregavam ao fim de cada colheita, ao regedor de cada freguesia, os regedores depois de conferirem os manifestos,entregavam os mesmos nas camaras municipais.



A fornada (cozer o pão)

O milho ia em sacos para o moinho, depois de moído, a farinha, era metida em foles, e transportada ás costas até casa (isto quando se tratava de moinho próprio ou comunitário).

A patroa fervia um grande pote de água, suficiente para amassar alqueire e meio de farinha, nos grandes fornos. Ás vezes a fornada era de dois alqueires, quando haviam vessadas ou outros trabalhos, que juntavam muita gente.

 
                                                     Com a devida vénia do Autor

E o pão era cozido para durar até três semanas.
Deitava-se dentro da maceira, a quantidade de farinha que se pretendia cozer. 

  Desfazia-se o fermento e misturava-se com aquela farinha. Nalgumas casas, juntavam uma porção de farinha de centeio.

 De seguida, lançava-se a água na farinha e amassava-se tudo bem amassado, até ficar uma massa uniforme. 

Depois deitava-se farinha seca por cima, alisava-se a massa e fazia-se uma cruz por cima. 

Passadas umas horas, a massa abria umas gretas a meio, estava levedada. 

Daquela massa era retirado o fermento para a próxima fornada. 

Acendia-se o forno e rezava-se por todas as almas que estivessem a sofrer no purgatório.


                                                                      

                                                                Com a devida vénia do Autor. 

Se a Sardinheira já tivesse passado, compravam-se sardinhas para assar em cima do bolo, e ia servir de presigo, para o jantar ou merenda.

                                                              Com a devida vénia do Autor.

Quando as paredes estivessem vermelhas, estava em condições para cozer a fornada. 

Retiravam-se as brasas e vassourava-se o forno.

 Deitava-se dentro da escudela no fundo, farinha seca para a massa não se agarrar, depois a porção para a broa que queria fazer, com a escudela moldava-se a broa, punha-se na pá e deitava-se no forno, por cima duma folha de couve. 

                                                             Com a devida vénia do Autor.


Quando estivessem todas as broas dentro do forno, colocava-se a porta e barrava-se em toda a sua extensão, com bosta das vacas. Passadas umas horas o pão estava cozido. 



                                                              Com a devida vénia do Autor
                                                     

Narrei estes costumes, para que os nossos jovens de hoje, conheçam os trabalhos que os seus antepassados. avós e bisavós passaram até poderem comer o pão.

 Com a devida vénia do Autor.




                                                        Com a devida vénia do Autor


Curiosidades

As medidas usadas para medir os ceriais, naquela época eram: o carro, quintal, um alqueire, meio alqueire, um quarto de alqueire e quartinho de alqueire. 
Que correspondem a rasa, meia rasa, quarto , meio quarto e quartinho.



                                  Duas medidas de ceriais, rasa e meia rasa, que hoje servem  para enfeitar.                                           Fazem de vasos para flores.




a) Na cidade do Porto e concelho de Matosinhos, nas casas de lavoura,onde trabalhei, como moço de lavoura, não se chamava ceita, chamava-se leiva.

Ambrósio Lopes Vaz

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