segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Memórias da Freguesia do Rego:
Profissões, costumes, tradições, indústrias e remédios caseiros

  A.                      Profissões

Conheci várias profissões na freguesia do Rego: carpinteiros, ferreiros, azeiteiros, alfaiates, barbeiros, colmadores, croçeiros, guardasoleiros, sapateiros, funileiros, ferradores, mineiros, sardinheiras, tamanqueiros, costureiras, tecedeiras, bordadeiras, oveira e bicheiras.
Estas são algumas das profissões que me lembro.

Outras profissões não existiam na freguesia e, por isso, os artífices vinham de outras freguesias fazer os trabalhos em que eram especializados, ou como pedreiro e capador, ou vendedores de bens de consumo, como o caso do azeiteiro que vinha de longe para ali fazer o seu negócio.

1.     Pedreiro
Os pedreiros, conhecidos pelos lobos de Montim, por morarem naquela localidade, trabalhavam com qualquer tipo de pedra, alvenaria, propianho de palmo e torno e propianho de palmo e meio, assim como lavravam a pedra e gravavam.

Grandes artistas! Faziam os engenhos em pedra, para abrirem e taparem os poços de água, durante os meses de inverno.

Vi eles fazerem o muro de suporte da poça da lebandeira, foi feito quando era presidente da Junta de freguesia, o pai do Abel Pimenta, de Bolada, que também veio a ser presidente da Junta, no anterior regime.
Gravaram a data numa pedra, o ano de 1939.
Foi um grande melhoramento para a freguesia do Rego e até para outras freguesias, porque era o principal caminho que ligava Borba da Montanha e Carvalho e por ali passavam quando iam para a feira da Lameira.
Eram aqueles pedreiros que construíam as casas e muros. Foram eles que construíram os jazigos antigos de pedra do cemitério do Rego.

2.     Capador
O capador vinha nos dias da feira da Lameira e Carvalho, percorria os lugares à procura dos clientes, marcava a sua presença com o toque duma gaita, com uma melodia já bem conhecida dos caseiros e lavradores. 

3.     Azeiteiro
O azeiteiro vinha de longe e trazia mercadoria muito variada, como: azeite, petróleo, sabão, álcool, vinagre, azeitonas, entre outros.
A mercadoria era transportada em mulas, com uma albarda em madeira, que tinha de cada lado uns buracos para enfiar os cântaros que tinham os líquidos e uma mala para o sabão e outras mercadorias.


Cada vasilha tinha no fundo uma torneira para tirar os líquidos, que eram medidos desde o quarteirão até à canada.
Aquelas medidas: quarteirão, meio quartilho, um quartilho, meia canada ou dois quartilhos e uma canada ou quatro quartilhos, vinham penduradas nos ganchos da albarda.

Era do tempo em que na bolsa dos pobres só existiam moedas de meio tostão, tostão, dois tostões e cinco tostões, também conhecidos por uma “croua”[1] e dez tostões ou um escudo, ou mil reis, que na bolsa dos pobres eram muito poucas.

Estas correspondiam à jorna paga aos jornaleiros quando conseguiam trabalho. O homem ganhava duas “crouas” e a mulher uma “croua”, só mais tarde é que a jorna passou para três “crouas” para o homem e duas “crouas” para a mulher.

As outras moedas (de prata) 2$50, 5$00 e 10$00, também chamadas de dois mil e quinhentos reis, cinco mil reis e dez mil reis, eram raras na mão do pobre.

Ouvi muitas vezes a minha mãe a regatear o preço, conforme a mercadoria, oferecia sete e meio (tostão e meio), um cruzado (quatro tostões) e um quartinho (doze tostões), porque a mercadoria para a libra (nove “crouas”) já eram negócios dos grossistas.
As pessoas idosas ainda falavam em reais quando vendiam ou compravam as mercadorias!

O azeiteiro fazia concorrência ao Zé/dalém, pois vendia mais barato, e fiava a mercadoria. Os fregueses pagavam um mês e ficavam a dever o outro. 



Artífices da freguesia do Rego:
Algumas profissões passaram de pais para filhos, durante gerações.

    1.     Alfaiate 
O alfaiate, cujo nome não me recordo, era de Pedroso. Morava junto à casa do Sr. Casemirinho da Venda, e tinha um defeito na cara, por isso, era conhecido pela alcunha de “Cara torta”, peço desculpa aos familiares, por não mencionar o seu nome, mas era assim que era conhecido e, como tal, o seu nome próprio não era tão divulgado.

Quando fui servir para a casa do Albino do Alves, na Lameira, no fim do ano recebi a soldada que o meu pai ajustou com o patrão, o preço de 50$00 no ano e os deveres.
O meu pai foi comigo àquele alfaiate e mandou fazer umas calças e um “jaleque” de cotim para eu vestir ao domingo quando fosse à missa ou a alguma festa.

Aquele alfaiate, ao domingo, quando ia à missa levava a roupa para a igreja (fatos, calça e outras peças) para tirar a prova aos clientes ou para entregar aos fregueses, os que já estavam feitos.  

Actualmente, ainda existe na freguesia do Rego a profissão de alfaiate, que é exercida pelo meu parente e antigo companheiro de escola João Batista Lopes Vaz, pessoa a quem mandei fazer alguns fatos depois do 25 de Abril e visito-o quando vou à aldeia.

Recentemente veio-me ao conhecimento (09/12/13) que o alfaiate, o meu amigo João Baptista está bastante doente e com uma doença muito grave.





O mestre alfaiate, João Baptista Lopes Vaz, na oficina onde confecciona os fatos e os trabalhos de costura.

  



   2.   Barbeiro
Na freguesia do Rego existiam vários barbeiros e que prestavam os seus serviços ao domicílio.

Ao sábado iam ao encontro dos fregueses, se estes não estavam em casa, iam procura-los ao campo, ao monte, à sorte, à bouça, ao lameiro, etc.
Ali se improvisava a barbearia e cortavam o cabelo e a barba.

No centro do lugar, cada barbeiro tinha a “sua” barbearia para atender os clientes que não andavam nas lidas da lavoura, ou que quisessem ser atendidos na barbearia, que eram e ainda são preciosas relíquias.

Os barbeiros eram pagos ao ano e por maquia.
Lavradores e caseiros ajustavam com o barbeiro as medidas de milho a pagar no São Miguel, que iam de quarto à rasa, conforme o número de pessoas de cada casa, em que os criados de servir eram incluídos.

Esta foi uma das artes que foi passando de pais para filhos.

Ainda há bem pouco tempo existia uma barbearia no lugar de Vila Boa, na entrada da casa do Maioto e que só encerrou quando morreu o último filho do Maioto, que granjeava as terras e habitava aquela casa. Os pais dele eram caseiros do Marialves e alguns filhos do Maioto continuaram como caseiros.

Assim desapareceu a barbearia velhinha de antigamente, onde os meus conterrâneos iam cortar o cabelo e desfazer a barba, mesmo os pequenos industriais, como se pode ver o industrial, meu amigo António Nunes, sentado na cadeira a receber os serviços daquele barbeiro.
O mestre barbeiro, Sr. António Dias é surdo-mudo, mas entendia muito bem os clientes na preferência do corte do cabelo.
O corte de cabelo era todo feito à tesoura e pente.

Um artista muito perfeito, como se pode ver no filme em anexo.

Quando ia passar férias à aldeia, usava os serviços daquela barbearia tradicional, tanto para mim como para os meus filhos.









   3.   Carpinteiros
Conheci o Sr. Narciso, do lugar de Vila Boa e o Sr. Joaquim Rija que morava no lugar da Ponte, mas havia outros.

Aqueles carpinteiros faziam todo o tipo de utensílios: rurais, arado, cambão, carros, grades, engaços, malhos, caniças, jugos completos, cangas, zorras, etc.
Também faziam todos os móveis para as casas, preguiceiro, camas, mesas, cadeiras, bancos, masseira, escudela, pá de levar as broas ao forno, as coberturas de trabejamento de madeira para as habitações, cortes, moinhos, espigueiros, portas, janelas e cancelas. Tanto faziam novo como concertavam o velho.

Eram artistas muito completos e moldados à medida daqueles que precisavam dos seus serviços e dos tempos difíceis em que viveram.

Todas as madeiras eram preparadas por eles, fossem de carvalho, castanho ou outras. Os carpinteiros abatiam as árvores, serravam e talhavam ali mesmo no local: as tábuas, os barrotes, as traves e os cumes, em conformidade com a necessidade dos trabalhos que iam executar.

Todo aquele trabalho era feito à mão. Não havia máquinas. Por vezes trabalhavam ao dia, de sol a sol, na casa dos lavradores. Levavam as ferramentas dentro duma grande ceira e ainda uma maleta de madeira, onde ia o trado, os formões, o mascoto, a enchó, a plaina e outras ferramentas necessárias.
Lá caminhavam ao amanhecer ou em plena noite, por aqueles canelhos e caminhos horríveis, sujeitos a caírem dos precipícios que os rodeavam.
A vida era dura…
Era o tempo de escravidão. Aqueles mestres foram uns heróis!



4.   Sapateiro
Naquele tempo conheci o Sr. António sapateiro que morava no caminho que ia para os lugares do Rego e Alijó e partia da antiga escola e era a primeira casa do lado esquerdo, logo á entrada.
O Sr. António fazia sapatos, botas, chuzes e chinelos, para todas as medidas e feitios, cosidos com o melhor que havia naquela altura, e ainda juntava ao fio de sediela cedas do lombo dos porcos. 
Aquelas confecções de calçado novo eram feitas a partir da pele que ele comprava para a confeção.
A maior parte do trabalho eram concertos, porque fazer novos era algo só para os fidalgos.
Naqueles trabalhos fazer de novo e consertar velho, ensinou o filho Álvaro, que seguiu a profissão do pai e ainda hoje a exerce na casa onde mora, no lugar da Costinha. 


   5.    Funileiro
Era o Senhor António Rija, pois pertencia à família dos Rijas, morava à entrada do caminho que ia para o lugar do Roboredo, que hoje está desabitado e, por isso, foi riscado do mapa da freguesia. 
Aquele funileiro era um grande artista, pois fazia todas as medidas de líquidos, desde a medida mais pequena, o quarteirão, até ao cântaro, e grandes bacias para se tomar banho.
Fazia cocos, lampiões, tigelas, candeias, almontarias, regadores, funis e outros utensílios que podem confirmar na foto em anexo.
Todos aqueles artigos eram confecionados em folha zincada e soldados com solda de estanho. Naquela época ainda não havia o alumínio e o plástico, aqueles novos materiais quando apareceram, vieram revolucionar tudo, puseram fim à velha profissão dos funileiros.

 O funileiro em plena actividade


   6.    Colmador
No lugar de Vila Boa existiam três colmadores, o Sr. Casimiro Cabanelas, o Sr. Joaquim Pereira e o Sr. Abílio Pinga de Alijó. Também havia um no lugar de Pedroso.  
Quando aqueles colmadores morreram, era o marido da minha saudosa amiga, Cândida do Nunes, que vinha colmar a casa dos meus pais e outras colmaças que ainda existiam. Ele percebia bem da arte, mas também era amigo de ajudar os pobres, como foi no caso dos meus pais, que os ajudou muita vez.


   7.   Ferreiro
Existia um ferreiro em Alijó que fazia quase todas as ferramentas para a lavoura: as gadanhas, as foicinhas, os gadanhos, os chavelhões, as baretas para os jugos, as correntes para os cambões, as chapas e as tarraxas para os carros de bois, as abecas para os arados, as ferrelhas, usadas no forno, fazia os pregos para pregar as ferragens dos carros de bois e para as dobradiças de determinados portais, ferraduras, ferros do monte, foices roçadoiras, ponteiros e cinzeis para cortar e lavrar a pedra, sacholas, enxadas, picaretas, machados, alviões, etc.

Tudo feito em ferro e moldado com o ferro a ferver, saído do fogo!
Trabalho muito árduo!

E naquele tempo não havia máquinas! 

As ferramentas para a lavoura e para outras profissões eram feitas pelas próprias mãos do ferreiro.
Posteriormente apareceu um outro ferreiro que era o Sr. José ferreiro, marido da Sra. Laura Rendeira.

A oficina do ferreiro.
A casa onde o mestre ferreiro passava o maior tempo da sua vida.

No Inverno, o calor até fazia jeito, mas no pino do Verão, o ferreiro trabalhava quase em coirato.
As faúlhas que saiam da forja, por vezes, furavam-lhe a pele.
Quando batia com o malho na bigorna, para moldar o ferro, saíam lascas de ferro e cravavam-se-lhe no peito, fazendo dele um cristo.

Os nossos jovens de hoje, não fazem uma pequena ideia dos sacrifícios por que passaram os seus antepassados, para construir as ferramentas usadas pelo povo naquela época.

Ainda hoje existem ferreiros a fazer uso desta profissão, mas com outras condições de trabalho. E ainda bem!




[1] Quando se usa aqui a palavra “croua” é a palavra correta que naquela época o povo utilizava.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Povo de Celorico de Basto está em Luta.

Dedico estas quadras ao Povo de Celorico de Basto, que neste momento está em luta contra o encerramento nocturno dos Serviços de Saúde.

Em lutador me tornei
O país de mim precisa
Vivemos num país sem Lei
Os políticos tiram-nos a camisa
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Não foi para isso que lutei
No tempo da ditadura
O que passamos eu bem o sei
Vivemos vida muito dura
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Agora temos a Democracia
Mas nunca houve tantos ladrões
Comem todos na mesma pia
O povo é que sustenta os mamões
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O país está a saque
Já depende do estrangeiro
Corruptos lançaram o ataque
Até nos bancos roubaram o dinheiro
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A justiça só condena o povo
Nunca prende os ladrões
Políticos têm garras de polvo
Fazem leis para fugirem às prisões.
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Esta situação não pode continuar
Não devemos ter ilusões
Temos que sair á rua e lutar
Para mandar embora os ladrões
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Ambrósio Lopes Vaz

sábado, 9 de janeiro de 2010

A festa do Padroeiro São Bartolomeu do Rêgo

A lavoira dos cães que eu vi, desde os preparativos até ao fim.

Naquele ano os mordomos da Festa de São Bartolomeu, foram o Sr. Joaquim dos Pocinhos e o irmão António dos Pocinhos.

Fizeram parte da Comissão de Festas o Sr. Manuel Nunes, o Sr. João Tendeiro, o Sr. José do Bento e o irmão Abílio do Bento que morava no lugar da Seixosas.

Além daqueles lavradores, colaboraram na lavoira dos cães o Sr. José Bagarinho e o Naifa
(que era casado com uma filha do Sousa, que morava no lugar do Reboredo), bem como outras pessoas que eu não me lembro.

O Sr. Joaquim dos Pocinhos era muito amigo dos meus pais. Eram compadres. Quando a esposa Sr.ª Maria Emília teve a Glória, a minha mãe, dois meses antes, tinha parido o meu irmão Arlindo.

Como a menina Glória mamava pouco leite, eu ia todos os dias a casa dos pocinhos levar o meu irmão Arlindo para ele mamar as sobras que ficavam nas mamas da senhora Maria Emília. Eu tratava-os por padrinhos, mas eles não eram meus padrinhos.

Naquele ano como o Sr. Joaquim dos Pocinhos era o Mordomo da Festa, veio a casa dos meus pais pedir para o meu pai ir representar a figura do “Diabo”.

A minha mãe disse – Ò compadre, depois da festa, quando o meu “home” for dar a volta para guiar a loiça e os “gardassois”, vão começar a chamar-lhe Diabo.

- Comadre, o mundo está cheio de Diabos que vagueiam por esse mundo fora para a perdição das almas. Para o próximo ano o Diabo já é outro. O compadre vai ser uma figura muito importante da festa. Os romeiros que vêm de fora ver a festa, não vêm cá pela procissão… Nas suas terras têm também bonitas procissões. Os forasteiros vêm para ver a nossa lavoira dos cães e cabras, e para ver o Diabo à solta!

- O teu papel de Diabo vai ser importante e sei que não me vais deixar ficar mal. Eu quero que a lavoira dos cães represente a nossa sementeira do linho, porque essa tradição já vem do tempo dos meus bisavôs, e quero fazer uma festa muito bonita, tanto a festa religiosa, como a nossa lavoira da sementeira do linho.

- O padre Gomes até já nos está a criar problemas! Já me chamou e disse-me que não autoriza deturpar a imagem do santo, nem quer figuras vestidas de padre a fazer fantochadas de benzeduras! Não quer que a lavoura dos cães seja feita no campo santo! Diz que o terreno já foi benzido para um dia construir o cemitério! Que é considerado terreno sagrado e que andar lá a fazer palhaçadas é profanar a igreja! Mandou-me ir fazer aquelas fantochadas para o campo das macieiras!

- Eu disse ao senhor Abade que a lavoira dos cães não é nenhuma fantochada. É uma imitação da lavoira do linho na freguesia do Rêgo, que é uma tradição que já vem de muitas gerações.

- Olha compadre, o nosso padre está velho e cada vez mais embirra com a lavoura dos cães. Mas o Sr. Abade não manda no campo santo! O campo é da freguesia! Ele só manda no passal! Todos os anos a lavoira dos cães é feita no campo santo!

- Eu até fui falar com presidente da Junta, Manuel Pimenta, e com o Regedor António Carvalho. Deram-me carta-branca. Disseram que o Sr. Abade, só manda no passal!

- O Custódio disse-me que o padre anda a ser aguilhado pelo Russo. Mas o juiz de paz só manda em coisas do tribunal! Só eu é que posso proibir! Ele não é regedor!

- Mas eu vou fazer uma surpresa ao Sr. Abade… Vou escolher para representar o nosso padroeiro São Bartolomeu, o beato que passa mais tempo dentro da igreja, mais até do que o padre José Gomes, que anda sempre atrás do sarilho a ver se ele lhe cuida bem a lavoira.

A minha mãe levantou-se logo do preguiceiro e com os olhos muito arregalados perguntou ao meu “padrinho”- Compadre quem é o beato-? Ó! Não arranje nenhum estafermo. Escolha pessoa escorreita, que não faça pouco do meu “home”!

- Compadres, há três figurantes que só no dia da festa se vai saber quem são: o padre, o padroeiro e o Diabo. É uma surpresa…

- Pode dizer, que nós não dizemos a ninguém.

- Compadres, não temos correio, não temos jornais, não temos telefone nem rádio, a nossa comunicação é feita de boca em boca. Mas se dermos um peido aqui em Vila Boa, hoje ao final da tarde, o cheiro já alastrou pela freguesia toda!

- Compadre não fique assustado… Eu vou conseguir levar a cruz ao calvário!

Fiquei curioso. Estava morto que chegasse aquele dia para ver o meu pai a fazer de Diabo. Sempre que o “padrinho” dos pocinhos vinha para os campos eu não o largava.

Um dia os “padrinhos” apareceram lá em casa com a vestimenta que o meu pai ia usar a fazer de Diabo. A vestimenta para o meu pai foi costurada em tecido de chita pela senhora Maria Emília dos Pocinhos e veio tirar a prova ao meu pai

O chambre ainda vinha aberto a meio e as mangas separadas. O marido deu as ordens no sentido de as mangas fecharem no sítio das mãos, em feitio de luva e deixar os dedos compridos e no fim aguçados de forma a parecerem garras.

Na cinta tinha dois laços que formavam duas argolas onde o São Bartolomeu ia meter a corrente para prender o Diabo.

Tinha uma parte que enfiava na cabeça e já estava pronta. Dois buracos para os olhos e uma abertura, onde saia a boca e o nariz. Na testa tinha dois chavelhos já cosidos de vez e que se mantinham rígidos, porque tinham por dentro um carolo em cada um.

No fim da prova, o marido perguntou ao meu pai, se quando ia dar a volta para guiar a loiça e os gardassois, viu em alguma casa de lavoura, usar o odre ou cabaças de duas canadas.

O meu pai disse que os odres em uso eram raros, viu na casa do Virgilinho em Montim, e nas mãos da mãe do Benancinho do Ferreira de Quintela.

- E o compadre para que quer os odres e as cabaças tamanhas?

- É para levar o vinho para a merenda da lavoira dos cães.

- Porra! O vinho vai de qualquer jeito. Não se ande a incomodar.

- Compadre, quero naquilo que seja possível, manter os costumes dos nossos antepassados.

- A Claudina Pereira tem um odre, mas andei com eles em demanda no tribunal por causa do poço da água de rega, que está dentro do meu quinteiro. Ali não vou pedir. Tenho de me servir por outro lado.

A festa estava próxima. Naquela semana a comissão fez o segundo peditório.

A festa religiosa ficava cara. As esmolas eram dadas em dinheiro e milho. Mas o pagamento ao fogueteiro, à banda da musica, aos tramboleiros, a missa cantada por três padres, as ornamentações dos andores e dos anjinhos que iam na procissão, etc. Era tudo pago a dinheiro. Por isso foi feito o segundo peditório.

A despesa do enfeite dos altares e coro da igreja ficou a cargo da Casa das Caetanas, quatro beatas solteironas, Emilinha, Joaquininha, Miquinhas e Carolininha.

Mas, quem cuidava regularmente do atavio dos altares eram as filhas do Rendeiro. Lembro-me da mulher do Bagarinho, da Lucília que era a mais nova….Quando ia pedir esmola para Alijó, parava naquelas duas casas, (únicas naquele caminho) só para ver as flores.


A festa religiosa


Finalmente chegou o dia que eu tanto ansiava. Era sábado, as filhas dos lavradores, dos caseiros, as mulheres da aldeia do Rêgo, surgiam de todos os carreiros e caminhos aos magotes, sobraçando flores. Caminhavam a passos ligeiros em direcção ao adro da igreja.

Algumas levavam as sacholas ao ombro. As campas eram todas de terra e tinham de ser arranjadas e enfeitadas como se os defuntos tivessem sido enterrados na véspera.

Sabiam que no dia seguinte iam passar por ali muitas pessoas estranhas. Queriam que os forasteiros notassem que lá por ainda continuarem sem cemitério para enterrar os seus mortos, não os esqueciam ali enterrados ao redor da igreja.

A noite foi animada com o fogo. Apareceram muitos jovens e algumas mocetonas com os namoros, mas acompanhadas pelos pais, não fosse o Diabo tece-las… A luz era fornecida por alguns gasómetros e velas.

No domingo de manhã, antes da missa cantada e a comunhão solene, os tramboleiros andaram pelos lugares anunciar a festa. A banda da música também veio tocar junto das casas dos mordomos, Srs. Joaquim dos Pocinhos e António dos Pocinhos

Ao meio dia, o Sr. Joaquim dos pocinhos apareceu na nossa casa com um alguidar cheio de arroz e carne, uma enfusa de vinho e meia broa de pão. - Compadres, vós também sois filhos de Deus! Hoje são as nossas festas!

- Logo que a procissão recolha, vens ter a minha casa para eu te vestir, pintar e dizer-te qual é o teu trabalho…

A procissão

De tarde saiu a procissão. Os homens que iam pegar aos andores, de opas vestidas, uns de azul outros de vermelho, começaram a retirar os andores de dentro da igreja para o adro.

Dentro do adro só ficaram os lavradores vestidos com as opas, três para levarem a cruz e os outros para levarem o pálio, onde se iam abrigar os três padres. O padre José Gomes Júnior era quem ia no meio a segurar a Custódia onde ia exposta a santa hóstia.

O pequeno adro fazia de cemitério, estava ocupado pelos mortos.

Os anjinhos formavam filas no caminho em frente à igreja. Em cada fila seguiam também as filhas dos lavradores, bem oiradas e vestidas a preceito com grandes pelicanas nas orelhas, cordões ao pescoço, medalhões, libras, crucifixos, dedos cheios de anéis, lenço chinês, corpete de linho, saias e blusas de fina pelúcia, saiote de castorina, e calçavam a fina chinela.

Cada lavrador porfiava em apresentar as suas filhas a trajar pomposamente nos dias de festa. Era quase como uma competição.

Era nas festas que elas podiam ser vistas e admiradas pelos seus conquistadores. Só em dias de festa, é que as roupas novas saiam da caixa e o oiro do escaninho.

No meio dos anjinhos, seguiam também vários balsões transportados pelas pessoas ligadas a casas ricas e à igreja.

A banda da música e o grupo dos tramboleiros já estavam no caminho, no sítio certo onde iam incorporar a procissão.

O campo santo (onde hoje é cemitério) estava apinhado de gente que ia acompanhar a procissão.

Antes de os andores saírem do adro, o padre Gomes veio vistoriar o andor do São Bartolomeu. Não queria que se repetisse aquilo que todos os anos acontecia, meter um cigarro na boca do Diabo e durante a procissão acenderem o cigarro para o Diabo fumar.

A procissão saiu do caminho em frente à igreja e foi até à escola, e junto à casa dos pais do carpinteiro chamado Narciso, virou à esquerda, seguiu pelo caminho abaixo, deu a volta ao cruzeiro e recolheu novamente à igreja.

Quando chegou a meio do percurso, alguém se encarregou de meter um cigarro na boca do Diabo e pô-lo a fumar…

Estava dado o primeiro sinal da Lavoira dos cães…


A lavoira dos cães

Quando a procissão recolheu, o meu pai desapareceu, não o vi mais.

Eu fiquei com a minha mãe, os meus irmãos e a mãezinha de Vila Boa, junto ao Passal. A minha mãe sentou-se com o menino ao colo e os outros meus irmãos na borda do campo santo.

A mãezinha disse que lhe doía a cabeça e queria ir para casa. A minha mãe mandou-me acompanhá-la para ela não ir sozinha e disse-me para eu voltar ali quando a mãezinha entrasse em casa.

Como eu queria ver a onde estava o meu pai, mal cheguei ao cancelo da porta, esgueirei-me logo.

Fui direitinho a casa dos pocinhos a ver se encontrava o meu pai. Abri as portas fronhas que só estavam com o taramelo, mas as outras portas estavam fechadas. No quinteiro só estavam as galinhas.

Em vez de ir ter com a minha mãe, segui pelo caminho que ia pelo meio do lugar sair à escola. Logo que passei a casa da senhora Felismina Cunha e a casa da Arrocha, vi no meio do caminho, em frente à casa do Sr. Narciso que era carpinteiro, uma carroça mal amanhada e tinha atrelada a jumenta do Naifa. Estava a segurar no cabresto um rapazinho, filho do Naifa.

Mais à frente estavam dois cães com um pequeno jugo em cima do pescoço, tipo canga, com um cordel amarrado que fazia de soga e estava a segurar nela o criado dos Pocinhos, com uma croça vestida.


Vestimentas

Dentro do quinteiro do Sr. Narciso, estavam os figurantes e o “padrinho” dos Pocinhos a passar a revista a ver se estavam vestidos a rigor para desempenhar o papel que ele queria.

Os lavradores estavam vestidos de croças de capa e polainas encaixadas nos socos rebelos, feitas duma planta chamada junco, pelo Sr.António Tecedeira, conhecido por “Caramona”

A confecção daquelas croças era considerada de luxo (falarei disso quando narrar as profissões).

Os criados estavam vestidos com a croça normal, feita de junco tal como saìa das junqueiras. Quem confeccionava aquelas croças era a minha tia Pimenta, mulher do tio Domingos “Vacaria”.

O padre estava vestido com um burel que se estendia até às botas, um chapéu de abas largas e tinha nas mãos um livro preto.

O sacristão estava vestido com uma opa de serapilheira e tinha na mão uma lata cheia de água, e uma pequena vassoura de giesta. Quem representou a figura de Sacristão foi o Naifa.

O São Bartolomeu estava vestido com uma túnica igual à do Santo, mas a espada era bastante diferente. Tinha uma enorme espadela na mão, afazer de espada, feita pelo carpinteiro Narciso, de acordo com a vontade do Mordomo Sr. Joaquim dos Pocinhos.

Os guardas estavam fardados a rigor com os uniformes da tropa, que tinham trazido para casa, quando passaram à disponibilidade, e com os respectivos bacamartes ao ombro.

Os irmãos Sr.José do Bento que morava em Vila Boa e o Sr. Abílio do Bento que morava no Lugar da Seixosas, representaram a figura de guardas.

Eu fiquei aflito por não ver ali o meu pai e perguntei ao “padrinho” onde é que estava o meu pai.

Ele ficou muito zangado comigo. - Desaparece daqui! Se não levas um mosquete!

E começou a pôr dentro da carroça os engaços de dentes de pau, as sacholas de crista, uma cesta cheia de baganha, os cambões, a grade e o arado.

A seguir, o Sr. Joaquim dos Pocinhos equipou-se de lavrador, croça de capa, polainas, socos rabelos, lenço à tabaqueira e chapéu. Foi ele que fez de semeador do linho naquela lavoira dos cães.

O cortejo partiu dali, já devidamente organizado. À frente iam os guardas com os bacamartes ao ombro, depois o padre com um livro preto na mão e o sacristão com a lata da água benta e uma pequena vassoura de giesta. A seguir o São Bartolomeu, com uma grande espadela na mão e uma corrente enrolada em volta e por último os lavradores, os criados e a carroça com as apeirias.

Quando o cortejo chegou em frente à escola, parou. O caminho estava cheio de gente.

A borda da mouta do Nunes estava apinhada de gente, desde o caminho que ia para o Rêgo, até ao outro caminho que saìa do largo do D’Além e circundava a mouta até se cruzar com o outro.

Os guardas tiveram que proteger o cortejo para manterem o povo afastado, a fim de poderem dar inicio à lavoura e abrir caminho para o cortejo.

O povo ficou atónito. Perguntava: “ Então este ano não há cabras? Só há cães? E não tem Diabo à solta? “

Uma lavoura daquela grandiosidade também tinha que criar o seu suspense.

O Sr. Joaquim dos Pocinhos, era um homem de imaginação. Pensou tudo ao pormenor. Mandou cangar as cabras dentro do quinteiro da casa do Sr. Serafim Galego e ficarem lá escondidas.

Em dado momento abriu-se o cancelo, o criado já com a croça vestida, apareceu com as cabras e veio para trás dos cães, para engatar o cambão á grade.

O “padrinho” dos Pocinhos disse: “O cortejo da Lavoira dos Cães está completo”. Não falou no Diabo. O São Bartolomeu estava sozinho e não se mostrava preocupado em saber onde estava o Diabo.

Eu fiquei cada vez mais desassossegado. Pensei que o meu pai estava preso. Estavam ali, os mascarados que iam fazer de padre, São Bartolomeu, sacristão e guardas e o meu pai que ia fazer de Diabo não estava.


O arranjo do caminho

Tal e qual, como faziam os lavradores quando semeavam o linho nos prados, antes davam um jeito ao caminho para não ser tão custoso para as vacas que iam levar os carros de estrume ao prado.

Assim começou a Lavoura do linho, antes de começar o arranjo do caminho, o Sr.
José Bagarinho que fazia figura de padre benzeu os animais, lavradores, criados e a multidão que assistia aos preparativos da Lavoira dos Cães.

Pegou na vassoura de giesta que o Naifa, que fazia de sacristão levava dentro da lata de água benta, e espargiu as pessoas que conseguiu atingir á sua volta. Disse umas palavras que não me lembro e ficou quedo.

Os lavradores pegaram nos engaços de dentes de pau e sacholas de crista, que iam dentro da carripana puxada pela jumenta do Naifa, e começaram a fingir que Arranjavam o caminho. Aquele por acaso estava bom. Era o caminho principal da freguesia.

Duns tantos e tantos metros o cortejo parava, para o Sr. Abade fazer mais uma benzedura. Os forasteiros deliravam e faziam grande galhofa. O povo da freguesia sentia-se feliz por ver a festa cheia de gente.

O Sr.
João Tendeiro que fazia figura do São Bartolomeu, impávido e sereno vigiava a multidão, porque era o dia 24 de Agosto, tinha dado liberdade ao Diabo para andar à vontade, mas a qualquer momento podia vir estragar aquele trabalho.

Ao chegar perto da casa do Sr. Alfredo do correio, o Diabo saiu do meio da sebe, da borda do campo da penouta, e como um corisco enfiou-se no meio da multidão.

Eu não queria acreditar que aquele desgraçadinho, era o meu pai. Com umas alpercatas nos pés e as pernas ao léu negras como carvões. Na cara só se viam os olhos e os dentes a reluzir. Era todo negro.

Metia medo a qualquer cristão. Era arrepiante olhar para aquela sinistra figura.

Era um Diabo igualzinho aquele que o São Bartolomeu tem no altar junto ao Santíssimo.


Quando o Diabo entrou no meio do povo, foi uma explosão. Ele começou a passar as manápulas por cima dos ombros das raparigas. Elas assustadas gritavam: “Arrenego-te Diabo!”

Com uma rapidez medonha, o Diabo movimentava-se de lado para lado. As suas diabruras deliciavam a multidão. Nalguns casos criava-se a confusão. Gritaria e correrias. O Diabo fazia arremetidas, para importunar os Lavradores e criados.

Do largo do D’alem até ao portão principal do adro, que naquela altura, se situava em frente à torre do sino, lado Nascente, o Diabo com aqueles atractivos, proporcionou à multidão um inédito espectáculo, único em Portugal. Só possível ver, na freguesia do Rêgo.

Desde que o Diabo entrou no recinto, o São Bartolomeu, não arredava os olhos dele. Vigiava todos os seus movimentos.

Não admitia, que o Diabo arrebatasse qualquer alma penada que por ventura, andasse a vaguear no meio da multidão.

Junto à entrada do portão principal do adro, à sombra dos ramos das árvores que saiam do adro, estava montada uma barraca de doçaria, onde várias pessoas compravam doces.

O Diabo agarrou uma rapariga pelas costas, entrou no portão e tentou descer as caleiras e levá-la para o adro. A moça começou aos gritos, mas não largava o molho de rosquilhos que tinha na mão.

O São Bartolomeu retira a corrente da espada, e num gesto impressionante, com a espada fez uma cruz no ar, na direcção do portão principal do adro.

Como fulminado por um raio, o Diabo larga a moçoila e vem muito mansinho encostar-se aos pés do São Bartolomeu, que imediatamente o prendeu com a corrente que tinha na mão.

A partir daquele momento, o São Bartolomeu manteve o Diabo preso, até ao fim da Lavoura dos Cães.

O Sr. João Tendeiro usava umas barbas muito grandes. Era muito beato. Para fazer de padroeiro, não precisou de barbas postiças.

Como ia todos os dias à missa, os lavradores pagavam-lhe dois tostões por cada padre-nosso e uma ave-maria, que ele rezasse dentro da igreja pela alma dos seus mortos.

Ele fazia aquelas rezas, antes de começar a missa ou o terço. Passava pela frente dos altares e citava em voz alta, o nome dos mortos por quem ia rezar, e rezava em voz alta.

O mordomo Joaquim Lopes de Carvalho, escolheu para representar o Padroeiro, o homem mais beato da freguesia. E foi feliz na escolha, porque ele portou-se como um santo.

Entretanto, os lavradores chegaram ao campo santo, mas antes de iniciar a Lavoura dos cães, o padre benzeu o campo e toda a multidão que o rodeava. Mergulhou a vassoura dentro da lata da água e espargiu a água benta por cima do campo e da multidão.

Os guardas devidamente aprumados, bateram o tacão com a antiga bota cardada, e tomaram posição para evitar que a multidão entrasse no campo e prejudicasse os trabalhos da vessada.

Começou a lavoura. A parelha de cães puxava o pequeno arado, com um lavrador agarrado à rabiça, e outros lavradores, seguiam atrás, com as sacholas de crista a simular que picavam a ceita.

O semeador com uma cesta cheia de baganha enfiada no braço, lançava a semente à terra, mas estendia o lanço de forma a que a semente voasse por cima da multidão.

Atrás seguia a junta de cabras a puxar a grade, com um lavrador a segurar o gancho que estava encaixado na grade e servia para ele manobrar a grade para onde quisesse de forma a cobrir as sementes.

Por fim, seguiam os lavradores com os engaços de dentes de pau, para dar o último arranjo à terra.

Depois de os criados percorrerem o campo ao comprido e ao través nas cabeceiras, com os cães a puxar o arado, as cabras a puxar a grade e os lavradores a comporem a terra, deram por terminada a sementeira.

O Abade leu um responso no missal que trazia e a seguir fez a última bênção. Mas daquela vez abusou da benzedura.

Depois de benzer a sementeira do linho, enfiou a vassoura várias vezes dentro da caldeira e outra tantas vezes, sacudiu a vassoura por cima da aglomeração de pessoas que rodeavam o campo.

Retiraram os jugos e cambões aos cães e cabras, carregaram todas as apeirias para a carroça do Naifa, que se encontrava ali com a jumenta e a mulher do Naifa a segurar o cabresto da jumenta.


A merenda

De seguida o mordomo Joaquim dos Pocinhos convidou todos os figurantes para a merenda, seguiram caminho abaixo, direitos ao largo do cruzeiro onde a merenda ia ser servida.

Aquele largo ficou superlotado. O campo em frente à residência do padre Gomes e casa do Sr.Albino do Bento, estava apinhado de gente. O povo queria saborear a Lavoira dos Cães até ao fim.

Os figurantes encostaram as costas à borda do campo e virados para a casa do padre José Gomes ficaram à espera da merenda.

Junto ao cruzeiro estavam duas lavradeiras, com dois açafates cobertos com toalhas de estopa, e dirigiram-se para junto dos figurantes.

Dentro dos açafates vinham cabaças e odres com vinho, cartuchos de tremoços e penicos para servirem o vinho.

Até a merenda era simulada. Nunca em tempo algum, foi servida tal merenda nas lavoiras reais. Aquela merenda, só podia ser uma merenda para a Lavoira dos Cães.

Foram servidos os tremoços e a seguir o vinho em penicos.

Alguns figurantes, só molhavam a goela, porque os penicos quando passavam pelas mãos dos figurantes, Manuel Nunes, Abílio do Bento e João Tendeiro, confundiam penicos com canecas e despejavam o vinho dos penicos duma só golada.

Tratava-se de três bebedores bem encascados, clientes assíduos da taberna do D’Além.

Como tinham bens ao luar, tinham crédito, metiam-se em bródios, comiam e bebiam sem relego, mandavam pôr no livro, como não “votavam tento á vida”, o calote aumentava cada vez mais.

Quando as dívidas atingiam desmesurados montantes, os devedores eram chamados para liquidar as contas de imediato.

Como não tinham dinheiro, pagavam com as casas, moutas, ou campos, quando os gados já não cobriam os valores.

O Sr. Manuel Nunes vendeu a mouta situada em frente à escola.

O Sr. Abílio do Bento, ficou sem a casa e campos da Seixosas.

O Sr. João Tendeiro ficou sem o Lameiro e o moinho do arregontim (primeiro a seguir à ponte).

Os meus pais a quem dediquei estas memórias, Diziam: “Quem ganha três e gasta quatro, não precisa de bolsa nem saco”.

Com aquela merenda, assim terminou aquela Lavoira dos Cães.

Devido à minha curiosidade de criança, aquela festa tão linda, ficou gravada para sempre na minha memória e por isso a narrei aqui, embora, com esquecimento de algumas cenas que já não me lembro, porque já passaram mais de 71 anos.

A freguesia do Rêgo tem belezas raras que a distingue das outras 21 freguesias.Infelizmente os poderosos meios de comunicação Social desconhecem aqueles tesouros.

A RTP1 vai a Celorico de Basto fazer a Praça da Alegria na festa anual, mas os seus repórteres só visitam os centros e ignoram verdadeiras relíquias de Portugal, que só existem na freguesia do Rêgo.

Ambrósio Lopes Vaz

Porque é digno de lhe dar o devido destaque junto deste meu trabalho, As festas da Aldeia do Rêgo, Reproduzo este magnífico poema na íntegra, do amigo conterrâneo Luís Mário, (apenas corrigi os erros ortográficos), já publicado no Post Trabalho Comunitário.

“Gostaria de mandar um dos meus poemas da minha
autoria escrito há 32 anos quando andava na Força
Aérea em Tancos

REGO MINHA TERRA
O ambiente de eterna saudade
e a beleza das paisagens.
Das fruteiras em flor.
A presença constante e amiga
de um sol bronzeador.
A atmosfera do perfume das suas figueiras,
cerejeiras, pessegueiros e outras.
O seu saboroso vinho americano e suas ramadas.
As elevações que criam magnificam paisagens naturais.
Sucedem-se a horizontes planos.
A amenidade do seu clima.
As belezas das paisagens.
Vestígios de onde viveram Lusitanos
e outros povos que contam uma longa historia.
A expressão de um povo apaixonado pela sua terra.
O pitoresco das tradições das suas festas ligadas à agricultura.
O sol sempre presente nas colinas solitárias e selvagens.
A transparência do cristal do sol azul.
Águas tépidas do rio.
Paisagens onde a luz se transformam em cor.
As excepcionais condições de toda a paisagem minhota.
Os passeios pelos campos.
Os divertimentos.
A caça e a pesca.
A alegria dos festejos populares e as danças
em que os rapazes e raparigas rodopiam velozes
nos passos do vira e foclor.
O carnaval e suas romarias em festa.
A lavoira dos cães, única realizada em Portugal
ao seu padroeiro S.Bartolomeu.
O S. João e S. Pedro.
A ceia de Natal, tascas e bares.
A gastronomia de pratos típicos e saborosos.
O silêncio da frescura das árvores.
A alegria de toda esta gente que vive feliz
vivendo das suas tradições.
Rego minha terra.
Onde esteja sempre te recordarei os tempos de juventude.
Recordarei o teu povo.
As tuas tradições.
Os teus vales e montes cheios de neve.
O sol de Agosto sempre presente na tua paisagem.
O luar de Agosto que ilumina os teus montes.
As desfolhadas e tuas festas.
Os piqueniques da Senhora do Viso.
As noitadas de S.Bartolomeu.
A tua lavoira dos cães.
REGO que para sempre serás minha terra.

Um abraço deste amigo LUIS MÁRIO”