quarta-feira, 11 de março de 2009

A sementeira do milho, na Aldeia do Rêgo

A sementeira do milho, na Aldeia do Rego



O processo da cultura do milho era arcaico. Quando o pão chegava à mesa, deixava atrás de si um ror de trabalhos, canseiras, suores e despesas. 
As lavouras eram as que causavam maiores “dores de cabeça” aos lavradores e caseiros.


Irei descrever o cultivo do milho, até se transformar em pão, porque foi um costume que se perdeu no tempo.

Primeiro, arrancava-se o esterco das cortes e era levado aos cestos para o carro de bois, devidamente apeirado com as caniças, depois de cheio seguia o caminho dos campos, veiga, prado, currais, penouta, mangarela, arregontim, devesas, reboredo, macieiras, seixosas, etc., conforme o campo que lhe era destinado.

Os caminhos eram dolorosos, nalguns sítios eram precisas, duas juntas de vacas para puxarem os carros.



Havia quelhas que o condutor do carro não conseguia ir á soga das vacas, pois em certos sítios empossavam grande altura de água, lama e pedras.



O lavador ia por um carreiro por cima dos campos e daí conduzia as vacas com a aguilhada, até chegar a caminho enxuto para retomar o comando pela soga. 
No campo, o estrume era descarregado aos montes, distanciados uns dos outros e em carreiras, em que as distâncias eram medidas a passo.




De seguida o esterco era estendido na terra, usando o engaço de dentes de ferro e a forquilha.

Era um trabalho muito ruim, porque o esterco vinha às postas e não se desligava, tinha que se desfazer e estendê-lo até ao extremo da carreira.

Este serviço rebentava com os braços às pessoas, normalmente era destinado aos jornaleiros e criados, quando existiam.

Depois de espalhar o estrume, fazia-se o cadabulho junto às bordas, em redor do campo que se ia lavrar.


Com a devida vénia do autor.





Cavava-se a terra em todos os cantos do campo e abria-se o primeiro rego, para o arado e o gado poderem começar a lavoura.



Apeiravam-se pelo menos duas juntas de vacas, (nos campos grandes três) com os jugos, compostos de arcos, varetas, latos, tamoeiro e cambão para fazer o engate no primitivo arado, que só lavrava, segurado e guiado, por um homem. Ainda não existia charrua na Aldeia.


Com a devida vénia do autor



Começava a lavoura, era um trabalho muito cansativo, para o menino que chamava as vacas no rego, para o homem do arado e até para as vacas.

Conforme o arado ia virando a terra, a ceita (a) era picada à sachola, por várias pessoas que se encontravam distribuídas pelo terreno onde caía a ceita.


Com a devida vénia do autor


(a) - Nos meios rurais dos centros urbanos não se chama ceita, chama-se leiva.




Este processo de cortar a ceita e deixa-la aos torrões, só era usado nas sementeiras de milho semeado a lanço.

Nas freguesias rurais da cidade do Porto, e Vila de Matosinhos, onde trabalhei, as alfaias eram modernas. Havia charrua, semeador e sachador, não era preciso picar a leiva. Usavam a grade para fazer esse trabalho.

Havia máquinas para tudo. Mas, ainda não havia tractores e as debulhadeiras trabalhavam ligadas a motores a petróleo.

Depois de lavrado o campo e picada toda a ceita, o lavrador distribuía vários sacos de semente pelo terreno, dali enchia a cesta, e lançava as sementes à terra. 



Nos campos grandes, chegavam andar dois e três semeadores a semear a lanço.
Quando estava tudo semeado, o terreno era todo gradado, com a grade virada com os dentes para a terra para desfazer os torrões e cobrir o milho, essa manobra era feita mais de que uma vez.

Quando estivesse tudo desfeito, a grade era virada de dentes para cima e corria o campo todo até a terra ficar toda plana.

Nas terras mais húmidas era colocada uma grande pedra para fazer peso e assim a terra ficar mais assapada.

Feita a sementeira do milho nos campos de regadio eram abertas tornas, separadas por regos, para as futuras regas.



Durante os trabalhos da lavoura, se o campo era longe de casa, o jantar era servido no campo.

A patroa e a criada levavam o jantar ao campo, em grandes cestos, com potes e alguidares próprios para transportes da comida, grandes cabaças de vinho, louças e toalhas. Todos bebiam pela mesma malga ou infusa.

Por vezes, improvisava-se uma mesa que era o carro de bois, as pessoas acomodam-se como podiam, uns comiam sentados nas bordas, outros arranjavam umas pedras para fazerem de banco. O que interessava era encher a bandulho.


Com a devida vénia do autor


Aquele presigo era convidativo, um tipo de cozido à portuguesa, acompanhado por broa e vinho. Tudo bem cozinhado.
Depois, uma tigela de caldo que exalava um cheirinho agradável, misturado com o cheiro do estrume natural das ervas e de variadas árvores que rodeavam o campo, completava um jantar inesquecível.

O gado era preso a árvores e também comia ali o seu penso, que era uma erva fresquinha do lameiro ou o azevem misturado com erva ferrã e, como sobremesa, uma gabela de feno ou molhos de palha milha.

A meio da tarde, a dona da casa aparecia no campo com a merenda para toda a gente. 
Trazia um grande açafate à cabeça e ainda uma cesta na mão. Era servido arroz, postas de bacalhau frito, polvilhado com açúcar, broa e vinho à descrição.

O dia da vessada era um dia especial. A comida era feita a rigor com todos os condimentos daquela época.


De regresso para a ceia, as mulheres, as moçoilas e até os homens, cantavam em uníssono, as canções da igreja: o Avé, a Miraculosa e outras canções da época. Os seus cânticos entoavam pelos caminhos e ouviam-se á distância. 
Nos casebres abriam os janelos para ver aquela "tuna".

Quando o milho começava a nascer, era altura de completar a sementeira, nos bocados que estavam em branco semeavam o feijão e os calondros. Semeavam feijão moleiro, branco manteigueiro, canarinho, ou mistura e, por vezes, o chamado feijão de sete semanas.

Aquele trabalho era feito pelas mulheres mais idosas, munidas por um grande chuço de madeira, aguçado na ponta, tiravam o feijão da abada e as pevides da algibeira, e deixavam-no cair onde queriam que a semente nascesse. Faziam um buraco e empurram as sementes para o buraco e tapam os buracos com o pau. Como o feijão era caro, só era semeado o necessário.

Eram feitas três mondas
A primeira era feita antes da primeira sacha, chamada decrua, que consistia em retirar as ervas e a terra da beira da raiz do milho e deixar a raiz ao sol.



A segunda monda era feita antes da segunda sacha, chamada arrendar. Nesta sacha, arrancam-se as ervas e aconchega-se a terra à raiz do milho.

A última monda, consistia em retirar os milheiros machos que não dão espiga, e outros que estavam a prejudicar a boa maturação.

Depois da segunda sacha, o milho de regadio começava a receber as primeiras regas. O outro milho, só recebia as regas do céu.

Quando a barba das espigas ficava preta, cortavam-se as crochas ou o pendão.

Em fins de Agosto colhia-se o milho das terras secas. No fim de Setembro cortava-se o milho dos prados e o das veigas.
Ás vezes, o milho só era cortado, em meados de Outubro, conforme o ano corresse mais seco ou chuvoso.
Depois era carregado e levado para o desfolhadouro, que podia ser junto à eira ou no próprio campo. As melhores espigas eram apartadas para ficarem para as próximas sementeiras.

Ali faziam-se as desfolhadas, quase sempre à noite, onde apareciam os rapazes solteiros a falarem ás moças.
A faladura era feita à distância, com um funil na boca, para disfarçar a voz e não ser reconhecido.

Apareciam embrulhados num lençol, ou outros disfarces, e cara tapada. Os moços que falavam ao serão, também se chamavam tunantes.

Quando se desfolhava uma espiga de milho rei, havia direito a beijos e abraços.
A palha era atada aos molhos e posta em medas, e as espigas eram colocadas nos espigueiros, alpendres ou eiras.

Secas as espigas, procedia-se à malha que, normalmente, era feita dentro do alpendre.
Seis ou oito malhos, divididos a meio, de frente uns para os outros, malham alternadamente. Quando uns malham nas espigas, os outros estavam no ar, e assim sucessivamente. Faziam um barulho característico quando malhavam certos.

Acabada a malha, com engaços de dentes de pau, separaravam-se os carolos do milho e, de seguida, escriba-se (b) o milho num escribador de madeira, que era movido por uma roldana, manobrada manualmente por uma pessoa. Este engenho era munido de vários cribos.

(b) - Na aldeia, as pessoas trocavam o "v" pelo "b".


Só as casas ricas tinham escribador. Nas outras casas, o milho era todo escribado á mão. Este trabalho era feito por várias mulheres e quando havia corrente de vento, para ajudar a expulsar a munha.

Este costume também desapareceu. Hoje é tudo feito com a debulhadeira, que debulha e escriba o milho.

Seguia-se a secagem do milho, que era feita na eira. Durante vários dias, de hora a hora, o milho era mexido com os pés, para secar todo ao mesmo tempo. De noite ou quando chovia era guardado dentro do alpendre.
Depois de seco, era medido e metido na tulha. No caso dos caseiros, entregavam duas partes ao senhorio e ficavam com uma parte.

Os lavradores e caseiros eram obrigados a manifestar a quantidade de todas as colheitas, num impresso próprio e entregavam-no ao Regedor, que depois de o conferir e assinar, era entregue ao presidente da câmara.

A fornada (cozer o pão)

O milho ia em sacos para o moinho, depois de moído, a farinha, era metida em foles, e transportada ás costas até casa (isto quando se tratava de moinho próprio ou comunitário).

A patroa fervia um grande pote de água, suficiente para amassar alqueire e meio de farinha, nos grandes fornos. Ás vezes a fornada era de dois alqueires, quando haviam vessadas ou outros trabalhos, que juntavam muita gente. E o pão era cozido para durar até três semanas.

Deitava-se dentro da maceira, a quantidade de farinha que se pretendia cozer. Desfazia-se o fermento e misturava-se com aquela farinha. Nalgumas casas, juntavam uma porção de farinha de centeio.

De seguida, lançava-se a água na farinha e amassava-se tudo bem amassado, até ficar uma maça uniforme. Depois deitava-se farinha seca por cima, alisava-se a massa e fazia-se uma cruz por cima. Passadas umas horas a massa abria umas gretas a meio, estava levedada.
Daquela massa era retirado o fermento para a próxima fornada.
Acendia-se o forno e rezava-se por todas as almas que estivessem a sofrer no purgatório.
Se houvesse falta de pão, coziam-se bolos de entre a lenha. Se a Sardinheira já tivesse passado, compravam-se sardinhas para assar em cima do bolo, e ia servir de presigo.

Quando as paredes estivessem vermelhas, estava em condições para cozer a fornada.
Retiravam-se as brasas e vassourava-se o forno.
Deitava-se dentro da escudela no fundo, farinha seca para a massa não se agarrar, depois a porção para a broa que queria fazer, com a escudela moldava-se a broa, punha-se na e deitava-se no forno, por cima duma folha de couve. 
Quando estivessem todas as broas dentro do forno, colocava-se a porta e barrava-se em toda a sua extensão com bosta das vacas.

Passadas umas horas o pão estava cozido.

Narrei estes costumes, para que os nossos jovens de hoje, conheçam os trabalhos que os seus avós e bisavós passaram até poderem comer o pão.
Ambrósio Lopes Vaz