segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Venda do Zé d'além

A Venda do Sr. José Alves Monteiro e da Sr.ª Florinda Nogueira, era a Venda mais antiga, a mais procurada e frequentada pelo povo da freguesia e pelos caminhantes que por ali passavam a caminho das feiras da Lameira e Fermil ou da feira de Carvalho, ou pelos romeiros que faziam grandes caminhadas, para cumprimento de promessas, e tinham de andar muitas léguas até chegar às capelas onde estavam as santas da sua devoção.

A localização da Venda, junto à Igreja paroquial e ao caminho principal que ligava as freguesias de Borba e Carvalho e concelho de Felgueiras, era passagem obrigatória.

A casa era composta por rés-do-chão e primeiro andar. A venda era situada no rés-do-chão.

Ali se vendia de tudo: mercearia, vinhos, aguardente, petróleo, azeite, vinagre, bacalhau, etc. Até fazia de botica, vendia linhaça, mostarda, mercúrio, álcool e remédio para matar piolhos e percevejos. Embora o povo usasse remédios caseiros, precisava daqueles auxiliares.

A venda era abastecida por mercadorias provenientes de grossistas que ficavam a muitas léguas de distância: Alto da Lixa, Amarante, Fafe e Guimarães. O transporte era feito pela égua castanha, que além de prestar aqueles valiosos serviços, fazia o serviço agrícola, puxava as alfaias e fazia mover o engenho de canecos para regar o campo em frente e o campo ao lado da venda.


Ao lado da casa havia um grande largo com alguns carvalhos e grandes pedras assentes no chão, onde estavam cravadas várias argolas de ferro para os caminhantes prenderem as vacas, o gado cavalar, as ovelhas, cabras etc., enquanto iam beber umas canecas de vinho e petiscar umas iscas, postas de bacalhau frito, ou umas lascas de bacalhau cru, acompanhadas com um naco de broa ou o celebre trigo de Padrenelo de quatro cantos que por vezes já tinha oito dias.

Junto ao largo, havia a casa do Sr. Alfredo do correio, que também era muito frequentada. (Falarei desta casa quando falar das profissões).

Aos negociantes de gado, homens endinheirados, era reservada uma sala no primeiro andar, onde eles petiscavam à sua vontade e acertavam as suas contas, sem estarem a ser vigiados pelos mirones da ralé.

Quem atendia aqueles senhores era a senhora Florinda, que aproveitava para fazer outros serviços ocasionais.

Naquela sala a um canto, existiam duas tulhas devidamente compartimentadas para receber milho, centeio, trigo, batata e farinhas.

As pessoas levavam os taleigos com cereais, ali eram medidos ou pesados, retirada a respectiva maquia, trocavam por farinha, outras vezes os artigos eram trocados por mercearia, arroz, macarrão, açúcar, café, vinho, azeite, bacalhau, etc.

O arroz, açúcar, macarrão, etc. eram ensacados nuns cartuchos feitos dum papel muito grosso e colados com cimento. Aquelas embalagens eram usadas em todas as vilas e cidades do país. Pagavam-se aqueles cartuchos colados com cimento ao preço do artigo.

Eu passei algumas vezes por aquela sala, quando ia trocar os maquieiros que a minha mãe recebia como paga do linho e lã que fiava para os lavradores da aldeia. (Casas, Catalão, Pocinhos, Pereira, Nunes, Tomada e Cunha)

Quando ia em dias de feira, eu via na sala aqueles senhores e o largo estava cheio de animais ali presos naquelas argolas.

A venda do Zé d’além nunca estava vazia. De manhã vinham homens e por vezes também algumas mulheres ”matar o bicho” com um copo de aguardente e um canto de trigo, ou um naco de broa que já traziam nos bolsos.

Os fumadores matavam o bicho e compravam um maço de cigarros “fortes velhos” que naquela altura custava dois tostões. Os mais endinheirados compravam a carteira dos cigarros “Definitivos” ou “Provisórios”

À tarde apareciam os viciados no vinho. Eram fregueses habituais. Na venda do zé d’além não havia fiados para borracheiras. Só eram permitidos fiados àqueles que tivessem bens ao luar.

Acontece, que todos se preveniam com os tostões no bolso para pagar os cartilhos ou as canadas do vinho que iam beber. Já sabiam as regras da casa.

Aqueles que não conseguiam os tostões, levavam os bolsos da jaqueta cheios de ovos, que retiravam dos ninhos das galinhas, e a Senhora Florinda fazia a permuta.

O meu avô paterno Francisco Lopes Vaz, como era um bêbado bem encascado, bebia umas boas canadas até ficar com a medida certa: Carraspana Completa. Suponho ter sido ele o melhor freguês de vinho e aguardente da venda do d’além naquele tempo.

Todo o dinheiro que ganhava no arranjo de guarda-sóis, loiça partida, e fósforos que fazia clandestinamente, era para vinho. Quando acabava o dinheiro, pedia à minha avó. Se ela não lhe desse o dinheiro, levava uma grande tareia.

O meu avô ia de tarde para a venda e só vinha embora quando a taberna fechava ou quando já não cabia mais vinho no bucho.

Morava no lugar de Bolada. No trajecto do caminho até casa, fazia algumas paragens. A primeira era no cruzeiro junto á residência do Abade José Gomes Júnior, sentava-se nas caleiras do cruzeiro e gritava: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”. Repetia aquelas palavras até o padre Gomes vir à janela.

Com os olhos fitados naquela janela, quando a via abrir, mudava de ladainha e no mesmo tom gritava: “Viva o Padre-nosso. Viva o nosso padre!”. O Sr. Abade abria a janela e dizia: “Ó pistola vai embora! Não sejas malcriado! Eu mando-te prender!”. Fechava a janela e o meu avô voltava à primeira forma: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”.

O Sr. Albino do Bento (lavrador que morava junto à casa do padre) vinha avisar o meu pai daquilo que se estava a passar, e pedia-lhe para ele retirar dali o meu avô e levá-lo a casa porque estava a tratar mal o Sr. Abade.

Quando a poça da lebandeira estava cheia, como o caminho passava pelo meio da poça, não se podia passar, porque a água empossava até meio da quelha da Costinha, e o meu avô vinha para a nossa casa e dormia no preguiceiro junto à lareira.

Uma vez, o meu avô, quando vinha da taberna, em vez de seguir o caminho, entrou no portão do adro que ficava a escassos metros da Venda, rodeado pelo lado de dentro por grandes austrálias.

Naquele tempo ainda não havia cemitério. Os mortos eram enterrados à volta do adro. Havia dois grandes portões muito altos, um em frente à torre e outro junto ao caminho do passal. Os portões costumavam estar fechados, mas naquela noite o portão de cima estava aberto. O meu avô vinha com uma grande touca e entrou pelo adro dentro, e, como o portão de baixo estava fechado, nunca mais atinou para sair do cemitério.

Agarrado ao cajado que era seu companheiro permanente, começou a tropeçar nas campas, tombou e ficou deitado sobre elas. Começou aos gritos, com aquela voz roufenha própria daqueles borrachões empedernidos.

Entretanto, alguns companheiros que tinham ficado na venda ouviram os gritos desesperados que vinham do adro e deram o alerta.

O Sr.Joaquim Lopes de Carvalho (Joaquim dos Pocinhos), um homem muito corajoso que não acreditava em “lobisomens”, agarrou na sachola de crista e acompanhado com outros dois, entraram pelo adro dentro ao encontro daquela “alma penada”.

Quando o meu avô os viu, gritou: “Sou o Pistola! Não me matem! Tirem-me daqui!” O Sr. Joaquim dos pocinhos retirou-o do cemitério, levou-o para a nossa casa e contou aquela cena aos meus pais. Lá dormiu mais uma noite no preguiceiro.

Daquela família dos d’além, conheci três filhos: um que estava numa Venda na Lameira, outro que casou com a Senhora Maria Joaquina que vendia trigo e o mais novo, José Alcídio Alves Monteiro.

Os dois filhos mais velhos tinham pouca apetência para o negócio. O que estava na Lameira abandonou o negócio e emigrou para o Brasil. O Sr. Armindo, como viveu com os pais muitos anos na Venda, também gostava de saborear o bom vinho e isso arredou-o das lides do negócio.

O filho mais novo José Alcìdio Alves Monteiro, já nasceu talhado para o negócio. Ainda muito jovem já era o braço direito dos pais. Ouvi algumas vezes elogios dos pais que iam perdendo forças, devido à sua avançada idade.

José Alcídio Alves Monteiro andou na tropa juntamente com o meu tio Armindo, que, apesar de ser mais velho, como era refractário, teve de fazer o dobro do tempo de tropa. O Sr. Monteiro era amigo dos Pistolas de Bolada e Vila Boa. Quando vinham passar o fim-de-semana a casa ou de licença vinham sempre os dois, eram muito amigos.

Quando acabou a tropa, os pais entregaram-lhe as rédeas do negócio. O largo desapareceu para dar lugar à construção duma ampla mercearia e mais tarde a casa em pedra que servia de dormidas.

Casou com a Senhora Grabelina que morava no lugar de Pedroso. A nora seguiu os passos da sogra Florinda, foi uma excelente aprendiz e veio a ser o braço direito do marido na condução dos negócios da mercearia, que nessa altura era adega, mercearia, talho e drogaria.

Fundou a funerária de “José Alcídio Alves Monteiro”. A célebre égua castanha era o meio de transporte de todo o material para armar os velórios e vestir os “anjinhos” nas procissões.

Os caixões eram transportados por homens e por vezes por mulheres tanto para os lugares da freguesia como para outras freguesias onde o Monteiro fizesse os funerais. O meu pai chegou a levar caixões a várias freguesias e também a ir buscar mercearia à Lixa para a Venda do Zé d’além.

O Sr. Monteiro era um homem popular e muito conhecido na Vila e concelhos vizinhos.

Foi um grande amigo dos meus pais. Salvou o meu pai de se enforcar num carvalho em frente à casa de Júlio Alves da Mota, no lugar da Lameira, no dia em que o filho João Baptista Alves da Mota se ordenasse padre e celebrasse a sua primeira missa, por causa do Sr. Júlio Catalão se recusar a fazer a escritura da nossa casa para o nome dos meus pais.

O nosso casebre tinha paredes de meia acção com a cozinha da casa do Catalão, que era pertença do Sr. Manuel Alves da Mota e sua esposa Rosinha do Catalão.

Porém, nunca a nossa casa foi pertença da casa do Catalão, no entanto veio parar às mãos do filho, Júlio Alves da Mota, por um erro grave dos meus pais.

Aquele casebre pertencia à casa do Pereira, e foi comprada aos pais do Sr. António Pereira, Srs. Francisco Alves Pereira da Mota e esposa Claudina Lopes de Carvalho, pelos meus bisavós José Teixeira e Joaquina de Sousa, pelo preço e quantia de vinte mil reis, como consta do registo por Titulo Oneroso nº. 13, respeitante a Importância da Contribuição, Imposto de Viação e Selo, no total de um mil reis e 697 reais paga em Celorico de Basto em 15 de Julho de 1878, e pela Escritura celebrada pelo Padre da freguesia do Rêgo Albino José Lopes de Carvalho. Foram testemunhas daquele acto, os lavradores João Lopes de Carvalho Basto, Joaquim Lopes Cerqueira, ambos do lugar de Vila Boa e João Lopes Marinho do lugar da Costinha, todos da freguesia do Rêgo.


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A dita casa veio a ser herdada pelos meus avós maternos, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves Magalhães e mais tarde vendida aos meus pais em 02 de Fevereiro de 1932, pelo preço de setecentos e sessenta escudos.

Acontece, que o meu pai tinha ficado isento do serviço militar e como tal tinha que pagar a taxa militar até aos quarenta e cinco anos, mas nunca pagou. Passou a relaxo e se registasse a casa em seu nome, o estado ficava-lhe com ela.

A minha mãe, grávida de oito meses do segundo filho (Ambrósio), endividados para pagar a casa e despesas do processo de Escritura, não
arriscaram em fazer a escritura da casa para o seu nome
.

Como trabalhavam os dois na casa do Catalão, a minha mãe, criada da casa, e o meu pai, criado do filho Júlio, que era negociante de milho (o meu pai andava de casa em casa a medir o milho que o patrão comprava), pediram conselho ao patrão Júlio.

O patrão Júlio Alves da Mota, ainda moço solteiro, mas já com calo da vida como bom negociante que era, aconselhou os meus pais a fazerem a compra e pagarem todas as despesas, mas os vendedores meus avós, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves de Magalhães fazerem a escritura em nome de Júlio Alves da Mota, e quando o meu pai fizesse 46 anos, o patrão Júlio passava a dita casa para o nome dos meus pais.

Os meus pais aceitaram. Desde o dia do casamento que habitavam a casa. Andavam os dois a servir, mas à noite vinham lá dormir. Nasceu lá a 1ª filha Maria e passados 30 dias da celebração da escritura de compra, para o nome de Júlio Alves da Mota (02 de Fevereiro de 1932) nasceu o filho Ambrósio.


Entretanto, os anos foram passando. O patrão Júlio casou com a Senhora Emília Alves e deste casamento nasceram vários filhos, um chamado João Baptista Alves da Mota.

Quando o meu pai fez 46 anos, ano de 1954, pediu ao antigo patrão Júlio Alves da Mota para fazer o favor de passar a casa para o nome dos meus pais. O Sr. Júlio disse-lhe que ia pensar no assunto e depois dizia alguma coisa.

O tempo foi passando. O Júlio Catalão foi protelando e nunca mais se resolvia fazer a escritura da casa para o nome dos meus pais. Os meus pais iam ficando cada vez mais desesperados. Viam a casa que compraram com tanto suor e lágrimas, onde criaram os dez filhos, onde sempre viveram, ser-lhe retirada pelo seu antigo patrão.

Com efeito, ao fim de 18 meses de adiamento, o Sr. Júlio disse ao meu pai que não fazia a escritura. Que o irmão António Alves da Mota tinha interesse na casa, até porque tinha paredes de meia acção com a casa dos pistolas.

Foram 7 anos muito penosos para os meus pais e seus filhos. O meu pai desnorteou. Andava de cabeça perdida. Dizia “Como é possível trazer um filho a estudar para padre e ficar-me com a casa? No dia que o filho disser missa nova enforco-me num carvalho em frente à casa do Júlio Catalão na Lameira!”. Tentei tirar-lhe aquela cisma da cabeça. Não consegui. Bem lhe falava que pôr termo à vida era contra a Lei de Deus. Ele não ouvia.

A minha mãe passava os dias a chorar. Escrevia-me a pedir ajuda. Avisava-me que se ia dar uma desgraça. O nosso pai ia-se matar.

A minha mãe pediu ao Sr. Monteiro para falar com o Júlio Catalão e pedir-lhe para fazer a escritura e evitar aquela desgraça no dia da Missa Nova do Padre Baptista.

O Júlio Catalão acedeu ao pedido do Sr. Zé d’além, mas com a condição de mudar as confrontações a favor do irmão António Alves da Mota e a escritura foi celebrada nessas condições em 20 de Novembro de 1961.

João Baptista Alves da Mota foi ordenado padre no ano seguinte, 1962.

Acompanhei aquele padre desde criança.

Nos últimos dois meses de vida do avô dele, Manuel Alves da Mota, eu fui incumbido de, durante o dia, permanecer junto dele no seu leito a fim de enxotar com um ramo de bucheiros as moscas que lhe pousavam na cara e de lhe molhar os lábios com um pano molhado a fim de lhe aliviar o sofrimento, porque durante o dia a Sr.ª Rosinha ia cultivar, tornar as águas, etc. para os campos dos castanheiros, que reservou aquando das partilhas com os três filhos, Emília Alves da Mota, Júlio Alves da Mota e António Alves da Mota.

Quando o avô morreu, o padre João Baptista veio para junto da avó para lhe fazer companhia e ficar mais perto da escola, onde entrou passado um ano. Eu andava na terceira classe quando ele entrou, e ensinei-lhe as primeiras letras.

Muitas das vezes, ele dividia comigo um pedaço de broa que a avó lhe dava e até a merenda.

Imigrei para o Porto, mas não perdi de vista aquele meu conterrâneo na sua missão de padre e fiquei espantado com o carácter e acção deste homem como pároco, porque seguiu o evangelho de Jesus Cristo de perto e esteve sempre do lado dos pobres, tomando partido por estes, o que o levou a ter as suas missas vigiadas pela PIDE.

Se não tivesse surgido o 25 de Abril, não sei se o padre João Baptista Alves da Mota não teria entrado nas masmorras das prisões fascistas.

O Padre João Baptista é um Sacerdote totalmente diferente da esmagadora maioria dos seus colegas. Prestigia a sua Igreja.

Não tinha intenção de narrar aquele triste episódio que atingiu a família dos Pistolas, mas como narrei a venda do Zé d’além, aquele doloroso incidente, também está directamente ligado aquele grande homem, José Alcídio Alves Monteiro, a quem presto a minha homenagem, porque foi fundamental para resolver aquela situação tão delicada.

Ambrósio Lopes Vaz