sábado, 28 de fevereiro de 2009

As autoridades daquela Época


Na Aldeia do Rêgo, 80% do povo era analfabeto. Os lavradores mandavam os filhos e filhas à lição. Os caseiros e os pobres só punham na escola os rapazes e nem todos. E muitas vezes, apenas para aprender a ler e escrever.

Os meus pais deixaram-me fazer a 3ª classe, graças ao Inácio do Marialves, que me dava pão e a professora que, quando se apercebeu, que eu passava fome, passou a dar-me todos os dias o caldo, escondido dos outros alunos. Também cheguei a ver dar o caldo ás filhas do Rija.

Era uma professora muito humana. Em nada a beliscaram na sua dignidade, os bolos da palmatória e as vergastadas que deu aos alunos. Eu levei bastantes. Os poucos alunos que ainda estão vivos, podem testemunhar o seu passado. (Ver Post, Escola da Aldeia, quando publicar).


Como, na freguesia só havia uma única escola e apenas com uma sala, primeiro, eram escritos os filhos e filhas dos lavradores e das pessoas importantes ligadas ao regime, depois eram escritos os filhos dos caseiros e por ultimo, os filhos dos Indigentes, se houvesse lugar na sala em redor das carteiras.


As autoridades daquela Época


Autoridades Policiais e Judiciais da freguesia do Rêgo, regidas pela Constituição Política Portuguesa, votada directamente pelo Povo em 19 de Março de 1933 e entrou em vigor no dia 11 de Abril de 1933. Tendo sido alterada por várias Leis posteriores.


Autoridade Judicial-Juiz de Paz era uma entidade existente na freguesia com funções de auxiliar dos serviços da justiça.


Nas sedes do concelho a função de juiz de paz era inerente ao cargo de conservador do registo civil; nos restantes julgados de paz, era inerente ao cargo de professor, do sexo masculino, do ensino primário da sede da respectiva freguesia.


Em qualquer dos casos a função era exercida independentemente de nomeação, diploma ou posse.


Nas sedes do concelho ou de freguesia em que não havia professor do sexo masculino, o cargo de juiz de paz era exercido por pessoa idónea, incluindo qualquer funcionário publico ou administrativo, era livremente nomeado e exonerado pelo ministro da justiça, sob proposta do juiz de direito.


Aos juízes de paz competia:


1º Praticar, por delegação de juiz de direito, ou do juiz municipal da respectiva comarca ou julgado, os actos seguintes:

Deferir o juramento a louvados, tutores, curadores, vogais do conselho de família e cabeça-de-casal; tal delegação era obrigatória quando a sede do Julgado estivesse a mais de 15 quilómetros da sede da comarca.


2º Fazer cumprir os mandados e as cartas, ofícios e telegramas para citação, notificação e afixação de editais;


Tomar conhecimento dos crimes ou infracções cometidas na área dos respectivos julgados, mandando lavrar auto de notícia;


4º Prender os delinquentes em flagrante delito ou quando fosse admissível a prisão sem culpa formada ou ainda por ordem do juiz, delegado ou autoridade competente;


5º Exercer as demais atribuições que lhes sejam conferidas por ele.


Os juízes de paz podiam praticar os actos judiciais nos edifícios escolares das sedes dos seus cargos, mas a horas que não colidissem com as de professor.


UM JUIZ DE PAZ INDECENTE


O juiz de paz da freguesia do Rêgo era o Russo da Tomada. Aquele verdugo sentia prazer em prender ou mandar prender os Indigentes. Era conhecido como administrador e não como juiz de paz.


Quando o Cabo de ordens mandava alguém apresentar-se no administrador, as pessoas ficavam trespassadas de medo.


Não eram só os Indigentes que se queixavam, caseiros e lavradores, sempre que se falava no “Russo da Tomada” A palavra que se ouvia era. O russo da tomada é um grande tratante.

Era um serventuário do regime fascista que ultrapassava as funções que lhes tinham sido atribuídas.


Não sei o que ele terá feito a outos. Narro o que ele fez aos Indigentes "Pistolas” de Vila Boa e Bolada.


Os Indigentes, Francisco Lopes Vaz e Manuel Lopes Vaz, pai e filho, conhecidos pelo Pistola de Bolada que era o meu avô, e o meu pai, Pistola de Vila Boa, foram-lhe entregues como prisioneiros, acusados por um crime de incêndio, que não cometeram, como adiante se verá, na história do Regedor.


O Russo massacrou-os para os obrigar a confessar um crime que não fizeram.


Queria arrancar à força a primeira confissão de incendiários, antes de os mandar para a cadeia.


Entraram ás oito horas da manhã e só à tarde foram levados para a cadeia da comarca.


A minha mãe ao meio-dia, levou um pote de caldo para o meu pai e o meu avô comerem. O famigerado juiz de paz, não os deixou comer o caldo.


Eu que acompanhei a minha mãe naquela diligência, quando vi o meu pai e o meu avô a chorar, a minha mãe aos gritos, comecei também a chorar.


A minha mãe todos os dias à noite rezava o terço e pedia a Deus para que os presos fossem soltos. Clamava para Ele. Meu Deus! Soltai-os!


Pessoa muito temente a Deus, procurava daquela forma encontrar alívio para o seu desespero. Filhos a passarem fome. Homem preso inocente. Deixou de entrar em casa a jorna dos dias de trabalho. Desgraça.


Aquele juiz de paz, era realmente um homem sem carácter. Manuel Lopes Vaz o atrás citado “Pistola de Vila Boa” foi agredido à sacholada pelo "Tarneco" caseiro do lavrador Soldado de Bolada e que o deixou ás portas da morte.


O juiz de paz com perfeito conhecimento, de que o Indigente foi barbaramente agredido por uma fútil discussão, tomou o partido do agressor, e apresentou em tribunal uma pistola falsa, alegando que a mesma era pertença de Manuel Lopes Vaz e que aquele a tinha apontado ao “Tarneco” o que levou o agressor a agir em legitima defesa.


O agredido ficou em apuros.


Correu o risco de vir a ser condenado pelas falsas declarações de Russo da Tomada. O tal juiz de paz.


Valeram ao meu pai, três prestigiados lavradores, a quem aqui nestas memórias presto a minha homenagem, JOAQUIM dos POCINHOS, ANTÓNIO PEREIRA e o MANUEL PIMENTA DE BOLADA, que naquela altura era presidente de Junta de freguesia do Rêgo e padrinho de baptismo do meu pai, e pai do Abel Pimenta de Bolada que também foi presidente de Junta da Freguesia do Rêgo.


Ambrósio Lopes Vaz

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Trabalho Comunitário


Os jornaleiros iam trabalhar para o Porto e Aveiro
, onde tinham garantia das jornas de Maio a Setembro. Os criados de servir também migravam para essas localidades. Onde eram ajustados ao mês com salário, que era muito maior que na aldeia.

De criados de servir, passavam para operários e por lá ficavam, como o meu caso.

Trabalho Comunitário



Os lavradores e caseiros, agrupavam-se para fazerem as grandes vessadas, cegas de centeio, roçadas de mato, espadadas de linho, desfolhadas e malhas de cereais e até sachas.

Cada um levava os criados,
gados, apeirias e alfaias. Trabalhavam em comunidade para não pagarem a jornaleiros, só os chamavam em ultima necessidade e para fazerem trabalhos pesados.

Alguns jornaleiros tinham que andar a lamber as botas aos grandes senhores para serem eles os preferidos, porque a oferta de jornaleiros era enorme. Os jornaleiros pareciam cães esfomeados dentro da casota.

Os pequenos lavradores e caseiros não chamavam os jornaleiros, porque muitas vezes não tinham dinheiro para lhes pagar as jornas.

Não conseguiam vender o produto das terras, o feijão, milho, batatas, centeio, relva e painço e até a linhaça, eram vendidos directamente ao negociante quando ele aparecia para os comprar.

Os bezerros, os potros, as mulas, eram reservados para os dotes de casamento, compra de mais vacas por vezes mais uma sorte, e também o cordão, as pilicanas e a corrente com medalha.

As despesas da manutenção das terras, casas, criados jornaleiros, décima, doenças e vestimenta, eram pagas com a venda do gado miúdo, bacorinhos, cabritos, anhos, frangos, perus e coelhos.

As galinhas, pitos, perus e coelhos, eram vendidos nas feiras, de Fafe, Carvalho, Lameira e por vezes Fermil.

As feiras de Fafe, Fermil e Carvalho, ficavam a muitas léguas de distância. A feira mais ferferida era Fafe,
onde tudo se vendia e tudo se comprava. Mas, para qualquer feira que fosse, a criada acompanhada da patroa, levava um maquieiro de dois alqueires á cabeça, que podia ser, feijão, centeio, batata ou milho e uma cesta no braço, com bicharia.

A ama, levava uma saca de burel, com taleigos dentro, de linhaça, painço e relva. A manteiga e nata iam num cestinho.

Na aldeia ninguém comprava nada. Os pobres que tanto precisavam daqueles produtos não tinham dinheiro para os comprar. Quando eram anos fracos, até os caseiros tinham mingua.

Cada vez,
havia mais Indigentes, viviam em pequenas choças com ranchadas de filhos a viverem numa única divisão, sem retrete, como o caso dos meus pais, dez irmãos a defecarem dentro de casa e á porta de casa. Uma pequena divisão que fazia de cozinha e sala. Só nos restava uma saída, pedir esmola pelos lugares da freguesia e freguesias vizinhas. Não éramos só nós. Assim acontecia a todas as crianças pobres da aldeia.


A maioria dos lavradores e caseiros, residentes naquela altura, no lugar de Vila Boa, eram humanos. Quando pressentiam, que havia doença grave na casa dos pobres, mortes, prisões, incêndios, eles apareciam a prestar ajuda ás famílias. Não davam dinheiro, mas davam bens essenciais para ajudar a atenuar aquelas desgraças.
A sua presença dentro da casa dum indigente, representava muito. Foram muitos aqueles, que nos prestaram solidariedade.

Mesmo nas famílias,
que odiavam os indigentes, existia um filho, que escondido dos seus pais, dava pão ao filho dos Indigentes e até dinheiro. O Inacinho do Marialves, meu companheiro de escola, todos os dias me dava um pedaço de broa.

Estudávamos no alprende em frente da casa,
ele sabia que passávamos fome, quando o pai lhe dava uma coroa ou duas, dávamas e dizia para eu ir á venda, comprar comida para os meus irmãos. Um dia deu-me três coroas, o pai descobriu, deu-lhe uma grande coça e levou-me á presença do Inacinho e agrediu-me.

Proibiu o filho de falar comigo ou acompanhar-me. Fiquei triste por perder aquele amigo.

Nunca mais o esqueci. Sempre que ia á aldeia, perguntava á minha mãe, se tinha noticias do Inácio. Ela disse-me que ele seguiu a tropa e que casou com uma professora.

Passados 55 anos o Inacinho deu á minha mãe, uma garrafa de bagaço, para ela entregar ao amigo Ambrósio. Obrigado Inácio por continuares meu Amigo.

Costumes usados naquela época

Moinhos

Os lavradores tinham um moinho comunitário. Cada um moía no seu dia.

Também havia quem tinha moinho próprio só para si, e quem tinha moinho próprio
e moía para a comunidade por maquia, distribuía as farinhas aos fregueses porta a porta, transportadas por duas mulas, como o moleiro Cristiano Cunha e outros.

Aguas de consortes

Poças de consortes. Cada consorte, tinha os seus dias ou horas de água, A água tinha hora certa para a torna. O relógio usado, era o relógio de Sol, porque poucos tinham relógio. Quando não havia Sol, era mais complicado, tinham que pedir o relógio emprestado para ir tapar a poça á hora certa. Este uso de tapar e abrir a poça, praticamente só funcionava nos meses de verão, para a rega de milhos, batatas e linhos.

Nos meses de inverno, as poças de consortes,
abriam-se e tapavam-se por elas próprias por meio dum engenho. As águas de inverno, destinavam-se a limar as ervas dos campos de fenos e lameiros, e funcionava a regra do torna torna, que consistia em cada um tapar os pilheiros do rego dos outros campos e abrir pilheiros para os seus. Poças de consortes que eu conheci, poça das latas, poça das lebandeiras, poço da fonte e poço dos pocinhos, este poço ficava mesmo dentro do quinteiro da casa dos pocinhos. É possível que o poço da fontalta também fosse de consortes. Não sei.

Também existia a água da levada de consortes, que saia do rio e vinha regar os campos de Vila Boa, do Cunha, Russo, Marialves, Catanas, Catalão e muitos outros. Como esta água não estava aprisionada,
podia-se regara a qualquer hora, pelo que, muitas vezes, os campos eram regados de noite á luz da Lua.

As maiores zaragatas e demandas, tinham origem nas águas de consortes. Houveram muitas sacholadas e até mortes.

Algumas medidas que usavam na venda das produções.

Medidas de secos, Carro, (correspondia a 40 alqueires ou rasas) rasa, meia rasa, quarto, meio quarto e quartinho ou maquia, e razão.
Medidas de peso, quintal, arroba. Arrátel meio arrátel e outras.
Medidas de líquidos, pipa, meia pipa, pipo, almude, cântaro, canada, meia canada, quartilho, meio quartilho e quarteirão.
Valores usados na compra de artigos, uma libra, um quartinho, um cruzado, sete e meio, o vintém e o real.


Matança do porco e o presente levado a casa dos pobres.

As casas abastadas matavam três porcos, nas outras matavam dois e os caseiros um. Os pobres quando ouviam os porcos a berrar, punham-se a escutar donde vinha o barulho. Naqueles lugares pacatos, onde só se ouviam os pardejos e o berro dos gados, aquele berro era diferente de todos os outros.


O mês de Janeiro era o fim para os suínos. Mas também se matavam porcos em Fevereiro.
Quando as casas eram muito juntas, os pobres não distinguiam qual foi o lavrador que fez a matança, mas depressa se desfazia a dúvida, quando se viam os fentos arder e a chamuscar os porcos nas eiras.


Todos os lavradores e caseiros de Vila Boa, davam ao Pistola o presente, com excepção do Russo da Tomada e o Marialves. Mandavam as filhas ou filhos levar dentro duma malga ou prato, um bocado de
carne, um bocadinho de sangue e ás vezes um sibinho de redenho. A minha mãe, metia dentro da malga ou prato, dois tostões ou uma coroa.

Ambrósio Lopes Vaz

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Memórias da Freguesia do Rêgo - Celorico de Basto

O Jovem Dinis Teixeira Lopes de Carvalho, viu na Net, comentários de Ambrósio Lopes Vaz, referentes á freguesia do Rêgo, e pediu-me para escrever, todas as histórias reais, que fossem do meu conhecimento, que se passaram no Rêgo, antes da década de setenta. Costumes, desavenças, autoridades policiais, profissões, personalidades, lançamento de bombas para a residência paroquial, ou outras vivências.

Fiquei contente por encontrar um jovem estudante a iniciar a licenciatura de Engenheiro de Zootécnica, a interessar-se pelo passado da sua aldeia.
Não é fácil narrar as memórias que vivi, e que ainda me lembro, sem ferir a sensibilidade de algumas famílias, incluindo a minha. Nem serei eu, Ambrósio Lopes Vaz, a pessoa mais indicada, até porque sou filho duma família de Indigentes. ”O pistola de Vila Boa” Os meus estudos, são a Escola da Vida.

Aldeia de São Bartolomeu do Rêgo

Uma aldeia arcaica, encravada entre os montes, Lameira, Montim, Lamas e Viso, no meu tempo de rapaz, tinha 16 lugares, Alijó Argontim Arbonça, Bolada, Costinha, Lameira, Lobão, Pedroso, Ponte, Perraço, Pousada (África), Quintela, Reboredo, Rêgo, Seixosas e Vila Boa. Alguns lugares eram dispersos e nalguns só existiam duas casas. Conhecia todas as casas, caminhos, Quelhas, canelhas e carreiros, porque todas as semanas, lhe batia á porta a pedir esmola. Era o fadário dos filhos dos Indigentes. Além da nossa freguesia, também pedíamos, nas freguesias de Borba, Seidões e Casadela.Não existia nenhuma estrada em 14 lugares. Só o lugar da Lameira é que era cortado a meio pela estrada Nacional nº206 e por isso era o lugar de depósito de todas as mercadorias transportadas por camionetas que se destinassem á freguesia do Rêgo. A Lameira só tinha comunicação com os 14 lugares, por caminhos, Quelhas, canelhas e carreiros, que eram os acessos aos lugarejos naquela época. Só era possível o transporte de mercadorias, por carros de bois, carroças ou carrijões.

Depois, fizeram o primeiro estradão que ligou a Lameira a Pedroso, mas só foi possível a ligação até á igreja, quando no rio, fizeram a ponte em pedra. O Estradão era muito estreito, mas com jeitinho as camionetas já conseguiam vir até ao Zédalem e dar a volta. A ligação da Lameira ao centro da freguesia foi um grande melhoramento.

A antiga ponte era de madeira e muito estreita, só passavam carros de bois e carroças. Durante a construção da ponte, foi um grande sarilho para os lavradores e para todos aqueles que vinham trazer ou carregar mercadorias. A travessia de carros de bois e carroças, era feita pelo meio do rio e subia numa rampa de pedra que saia no caminho do Reboredo. Cheguei atravessar o rio no carro de bois, junto com outras crianças. O estradão, só passados muitos anos é que foi alargado e passou a ser estrada.

A aldeia do Rêgo, mantinha a tradição da idade média, costumes, higiene, etc., vivia exclusivamente da agricultura. Era composta por lavradores, caseiros, criados (as) e Jornaleiros (as) As casas abastadas, ainda tinham resquícios senhoriais, viviam uma vida regalada, arrendavam as terras aos caseiros, e por vezes deslocavam-se para centros urbanos onde tinham mansões e lazeres, e deixavam um feitor, com todos os poderes de patrão, para reger os seus negócios. Muitas das vezes os caseiros, preferiam os patrões.
Na freguesia, só conheci um caso, que narrarei quando falar do Padre José Gomes.

Os Patrões alugavam as terras com casa própria para os caseiros, e que eram umas perfeitas enxovias. Algumas ainda existem.(ver) O Maioto, caseiro do Marialves.
Os pequenos lavradores e caseiros, viviam no meio do esterco. Tinham junto á porta da cozinha e salas de dormir, grandes rimas de estrume, que iam aumentando com folha, mato, chasquilho e varreduras da casa, e todos os dias despejavam ali as águas sujas das lavagens e até o penico. Aquele esterco era curtido lentamente e reservado para os alfobres de sementeira de couves, cebolo, tomates e salada.

Na maioria dos casos, as salas de dormir e cozinhas estavam assentes por cima das cortes do gado, porcos, vacas, gado cavalar, e ovelhas, e rodeadas dum quinteiro, onde os animais faziam daquele sitio arena e aliviavam a tripa. Tudo em perfeita família.






NOTA: Fotografia retirada Facebook "Aldeias de Portugal" 16 de Agosto de 2012

As latrinas eram um cubículo em madeira, com um buraco redondo no meio, tapado com uma tampa de madeira. As fezes e urinas caíam a céu aberto junto á horta.
A maioria dos criados de servir era oriunda dos Servos da Plebe. A família dos Indigentes. É curioso que o Salazar escondia esta vasta gama de criados de servir, retirava-os, dos documentos oficiais e promovi-os ao escalão seguinte, de Jornaleiros. Assim aconteceu aos meus pais. Quando casaram eram criados de servir, e depois de casados continuaram a servir nos mesmos amos, ele no Pimenta de Bolada e ela na Senhora Rosinha do Catalão, á noite vinham dormir a casa. Mas no registo de casamento tinha de constar que eram jornaleiros.

Ajustamento dos criados de servir e Jornaleiros.

Os criados de servir eram justos ao ano por uma soldada, usos, cama, mesa e roupa lavada, e açafate de consoada pelo Natal. A soldada era paga em dinheiro no fim do ano. Os usos eram dados durante o ano. No primeiro ano, as crianças dos cinco aos nove anos, não recebiam Soldada, só tinham direito á mantença, Usos, cama e roupa lavada. O serviço daqueles menores, destinava-se a pegureiro, e chamar as vacas nas vessadas. Assim, evitava-se que aquele serviço fosse feito por adultos.

Os usos, que os amos tinham que dar aos criados, variavam conforme a idade e o trabalho prestado. No primeiro ano, davam uma camisa de tomentos, umas calças de cotim, uma correia, uma boina, uns socos encobertados e a consoada pelo Natal, que constava de um bacalhau, um carto de batatas, um cabo de cebolas e uma broa de pão. Com mais anos, os usos, variavam na camisa que podia ser de estopa ou de linho, os socos eram novos, aos homens a camisa era mesmo de bragal, davam um chapéu e um jaleque. A consoada também aumentava, bacalhau maior, meio alqueire de batatas, e um quilo de arroz. Andei a servir em várias casas, a mais longe, era a casa das Carreiras, na freguesia de Jugueiros, concelho de Felgueiras, onde servi eu, e a minha irmã Maria. Pelo Natal, o Pai ia-nos esperar e ajudava a trazer os açafates. Demorávamos meio-dia a chegar a Vila Boa, apesar de virmos sempre pelos carreiros dos montes, caminho mais directo. Durante o trajecto revezávamos uns aos outros.

Quando chegávamos a casa era uma alegria. No dia de Natal, da parte de tarde, despedíamos uns dos outros e dos pais. Era choro por todo o lado, choravam, pais e filhos. Tínhamos de voltar á casa dos amos. Era aquele o nosso destino.

Quem ajustava e recebia, as soldadas dos menores, eram os pais.
Os jornaleiros ganhavam por dia 15 tostões, as mulheres dez tostões e levavam os filhos para o campo, punham-nos junto a uma borda, quando lhes iam dar a mama, eles estavam todos borrados e a meter a merda na boca, foi assim que a minha mãe me encontrou muitas vezes e como não tinha vestido para me mudar, deixava-me em coiro, junto á borda, coberto com o seu lenço da cabeça. Contou-me esta cena a chorar.

Ambrósio Lopes Vaz