domingo, 22 de novembro de 2009

A Origem do Blog "Memórias da Freguesia do Rêgo"

... de como o Inventário de Coisas Antigas vem dar voz ao testemunho de Ambrósio Lopes Vaz que através de pergaminho de seu nome blogue da televisão relata as mui sofridas misérias por que passou há cerca de settenta anos no reyno de Portugal e por nos paresser verdade e para que possa sua voz ser escutada por todolos e todalas cujo maior sarillo será porventura o de saber como iram pagar as prestações da viagem a Punta Cana aqui he transcrição de suas mesmas palavras:



"O indigente era considerado escravo com direito á vida, perante as autoridades policiais da aldeia (regedor e cabos de secção) ele não tinha nenhuns direitos era vigiado.por as ditas autoridades.Foi isto o que aconteceu á minha família e a outras da aldeia . fomos considerados indigentes.Vou contar alguns casos da minha infãncia.Mas antes de o fazer vou idenficar a aldeia e a familía .Chamo-me Ambrósio Lopes Vaz, nasci no lugar de Vila-Boa,freguesia do Rêgo,concelho de Celorico de Basto,numa casa de telhado de colmo com 16m2 unica divisão, onde nasceram dez filhos .Acasa não tinha chaminé,nem janelas,só mais tarde é que foi aberto um postigo,o fumo saía pela porta da entrada,o chão da casa era de terra ,como não havia latrina e havia só um penico e as diarreias eram constantes ,as necessidades eram feitas dentro de casa,a minha mãe cobria com sinza as fezes e depoisirapava aterraça com uma sachola, dentro de casa por baixo da maceira exestiam capoeira de galinhas e casota de coelhos, dentro dessa casa havia duas camas separadas por um pequeno taipal, mas isso não evitava que eu tomasse conhecimento das relações sexuais dos meus pais. O nascimento dos filhos era feito junto á lareira, a minha mãe deitava-se no preguisseiro e os filhos caiam nuns farrapos e a seguir a minha mãe cortava a invigueda e lavava a criança e os panos eram lavados e guardados para o próximo nascimento .Nós só assistiamos aos nacimentos se fosem á noite ou se chovesse, caso contrário o parto era feito á porta fechada A alimentação era apenas caldo e por vezes era só uma tigela porque quando se pedia miais não havia,A partir dos quatro anos iamos com uma saca pedir esmola pelos lugares da nossa freguesia e por outras. Duma vez eu andava a pedir e vi uma galinha com uma espinha de bacalhau na boca que tinha tirada duma estrumeira e eu tirei-le a espinha para eu comer tal era a fome que eu tinha.,pois nesse dia não tinha conseguido nenhum pão mesmo cheio de velore como era costume.O que havia em casa era sempre sal num caixoto e nós comiamos o sal ás mancheias , logo que tivessemos algumas forças e conseguissemos arranjar amos para servir trabalhavamos só pela mantença.As doenças eram frequentes,sarampo,sarna etc.Não havia limpesa os piolhos eram aos montes,por vezes eramos afectados pelas duas qualidades os do corpo e os da cabeça.no inverno a sopa era feita de labrestos porque não se arranjava couves.Aos 11 anos vim servir para o porto e entrei noutro tipo de escravidão. Éra vendido na feira como os animais e que eu tenha conhecimento só havia feiras dos moços nos concelhos do Porto e Matosinhos. (...)"



"(...)Todos os indigentes eram avisados por edital e como eram analfabetos o edital era lido na missa pelo Sr.Abade e dizia, que tinham que se apresentar na sede da junta para trabalharem de sol a sol , de graça e seco sem qualquer alimentação (e isto nos dias grandes, que era para render mais),para darem .um dia de trabalho ao Estado para comporem os caminhos e quelhas.
Os lavradores colaboravam com os carros puxados por vacas e por vezes zorras quando se tratava de pedras maoires e que eram partidas no monte .
Os Indigentes apresentam-se aos cabos de Secção e estes chamavam pelo seu nome e os que faltassem e não justificassem a falta eram enviados ao tribunal da comarca para serem condenados por não comparecerem. A condenação era baseada no imposto de trabalho.A jorna era de UM ESCUDO POR DIA quando tinham trabalho, mas, neste caso como tinham de trabalhar de graça e nem sequer a comida lhes davam,Por essa falta ao trabalho o tribunal condenava o faltoso a fagar ao Estado DEZ ESCUDOS E CINCOENTA CENTAVOS assim aconteceu ao meu avô e padrinho, era manco e não podia trabalhar,as autoridades administrativas conheciam bem a situação do meu avõ , mesmo assim enviaram o processo para o tribunal da Comarca que o condenou a pagar 10$50.
Tenho em meu poder o original dessa condenação. "


desenhos: Leonardo DA VINCI
Publicada por gisela cañamero em 1:58 PM
Etiquetas: os indigentes

Resolvi publicar nas Memórias do Rêgo estes meus comentários originalmente escritos sobre uma notícia da rtp, que foram transcritos para o blog de Gisela Cañamero pela própria, e que foram lidos pelo meu Amigo Dinis Carvalho que me alvitrou a escrever as Memórias do Rêgo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Venda do Zé d'além

A Venda do Sr. José Alves Monteiro e da Sr.ª Florinda Nogueira, era a Venda mais antiga, a mais procurada e frequentada pelo povo da freguesia e pelos caminhantes que por ali passavam a caminho das feiras da Lameira e Fermil ou da feira de Carvalho, ou pelos romeiros que faziam grandes caminhadas, para cumprimento de promessas, e tinham de andar muitas léguas até chegar às capelas onde estavam as santas da sua devoção.

A localização da Venda, junto à Igreja paroquial e ao caminho principal que ligava as freguesias de Borba e Carvalho e concelho de Felgueiras, era passagem obrigatória.

A casa era composta por rés-do-chão e primeiro andar. A venda era situada no rés-do-chão.

Ali se vendia de tudo: mercearia, vinhos, aguardente, petróleo, azeite, vinagre, bacalhau, etc. Até fazia de botica, vendia linhaça, mostarda, mercúrio, álcool e remédio para matar piolhos e percevejos. Embora o povo usasse remédios caseiros, precisava daqueles auxiliares.

A venda era abastecida por mercadorias provenientes de grossistas que ficavam a muitas léguas de distância: Alto da Lixa, Amarante, Fafe e Guimarães. O transporte era feito pela égua castanha, que além de prestar aqueles valiosos serviços, fazia o serviço agrícola, puxava as alfaias e fazia mover o engenho de canecos para regar o campo em frente e o campo ao lado da venda.


Ao lado da casa havia um grande largo com alguns carvalhos e grandes pedras assentes no chão, onde estavam cravadas várias argolas de ferro para os caminhantes prenderem as vacas, o gado cavalar, as ovelhas, cabras etc., enquanto iam beber umas canecas de vinho e petiscar umas iscas, postas de bacalhau frito, ou umas lascas de bacalhau cru, acompanhadas com um naco de broa ou o celebre trigo de Padrenelo de quatro cantos que por vezes já tinha oito dias.

Junto ao largo, havia a casa do Sr. Alfredo do correio, que também era muito frequentada. (Falarei desta casa quando falar das profissões).

Aos negociantes de gado, homens endinheirados, era reservada uma sala no primeiro andar, onde eles petiscavam à sua vontade e acertavam as suas contas, sem estarem a ser vigiados pelos mirones da ralé.

Quem atendia aqueles senhores era a senhora Florinda, que aproveitava para fazer outros serviços ocasionais.

Naquela sala a um canto, existiam duas tulhas devidamente compartimentadas para receber milho, centeio, trigo, batata e farinhas.

As pessoas levavam os taleigos com cereais, ali eram medidos ou pesados, retirada a respectiva maquia, trocavam por farinha, outras vezes os artigos eram trocados por mercearia, arroz, macarrão, açúcar, café, vinho, azeite, bacalhau, etc.

O arroz, açúcar, macarrão, etc. eram ensacados nuns cartuchos feitos dum papel muito grosso e colados com cimento. Aquelas embalagens eram usadas em todas as vilas e cidades do país. Pagavam-se aqueles cartuchos colados com cimento ao preço do artigo.

Eu passei algumas vezes por aquela sala, quando ia trocar os maquieiros que a minha mãe recebia como paga do linho e lã que fiava para os lavradores da aldeia. (Casas, Catalão, Pocinhos, Pereira, Nunes, Tomada e Cunha)

Quando ia em dias de feira, eu via na sala aqueles senhores e o largo estava cheio de animais ali presos naquelas argolas.

A venda do Zé d’além nunca estava vazia. De manhã vinham homens e por vezes também algumas mulheres ”matar o bicho” com um copo de aguardente e um canto de trigo, ou um naco de broa que já traziam nos bolsos.

Os fumadores matavam o bicho e compravam um maço de cigarros “fortes velhos” que naquela altura custava dois tostões. Os mais endinheirados compravam a carteira dos cigarros “Definitivos” ou “Provisórios”

À tarde apareciam os viciados no vinho. Eram fregueses habituais. Na venda do zé d’além não havia fiados para borracheiras. Só eram permitidos fiados àqueles que tivessem bens ao luar.

Acontece, que todos se preveniam com os tostões no bolso para pagar os cartilhos ou as canadas do vinho que iam beber. Já sabiam as regras da casa.

Aqueles que não conseguiam os tostões, levavam os bolsos da jaqueta cheios de ovos, que retiravam dos ninhos das galinhas, e a Senhora Florinda fazia a permuta.

O meu avô paterno Francisco Lopes Vaz, como era um bêbado bem encascado, bebia umas boas canadas até ficar com a medida certa: Carraspana Completa. Suponho ter sido ele o melhor freguês de vinho e aguardente da venda do d’além naquele tempo.

Todo o dinheiro que ganhava no arranjo de guarda-sóis, loiça partida, e fósforos que fazia clandestinamente, era para vinho. Quando acabava o dinheiro, pedia à minha avó. Se ela não lhe desse o dinheiro, levava uma grande tareia.

O meu avô ia de tarde para a venda e só vinha embora quando a taberna fechava ou quando já não cabia mais vinho no bucho.

Morava no lugar de Bolada. No trajecto do caminho até casa, fazia algumas paragens. A primeira era no cruzeiro junto á residência do Abade José Gomes Júnior, sentava-se nas caleiras do cruzeiro e gritava: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”. Repetia aquelas palavras até o padre Gomes vir à janela.

Com os olhos fitados naquela janela, quando a via abrir, mudava de ladainha e no mesmo tom gritava: “Viva o Padre-nosso. Viva o nosso padre!”. O Sr. Abade abria a janela e dizia: “Ó pistola vai embora! Não sejas malcriado! Eu mando-te prender!”. Fechava a janela e o meu avô voltava à primeira forma: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”.

O Sr. Albino do Bento (lavrador que morava junto à casa do padre) vinha avisar o meu pai daquilo que se estava a passar, e pedia-lhe para ele retirar dali o meu avô e levá-lo a casa porque estava a tratar mal o Sr. Abade.

Quando a poça da lebandeira estava cheia, como o caminho passava pelo meio da poça, não se podia passar, porque a água empossava até meio da quelha da Costinha, e o meu avô vinha para a nossa casa e dormia no preguiceiro junto à lareira.

Uma vez, o meu avô, quando vinha da taberna, em vez de seguir o caminho, entrou no portão do adro que ficava a escassos metros da Venda, rodeado pelo lado de dentro por grandes austrálias.

Naquele tempo ainda não havia cemitério. Os mortos eram enterrados à volta do adro. Havia dois grandes portões muito altos, um em frente à torre e outro junto ao caminho do passal. Os portões costumavam estar fechados, mas naquela noite o portão de cima estava aberto. O meu avô vinha com uma grande touca e entrou pelo adro dentro, e, como o portão de baixo estava fechado, nunca mais atinou para sair do cemitério.

Agarrado ao cajado que era seu companheiro permanente, começou a tropeçar nas campas, tombou e ficou deitado sobre elas. Começou aos gritos, com aquela voz roufenha própria daqueles borrachões empedernidos.

Entretanto, alguns companheiros que tinham ficado na venda ouviram os gritos desesperados que vinham do adro e deram o alerta.

O Sr.Joaquim Lopes de Carvalho (Joaquim dos Pocinhos), um homem muito corajoso que não acreditava em “lobisomens”, agarrou na sachola de crista e acompanhado com outros dois, entraram pelo adro dentro ao encontro daquela “alma penada”.

Quando o meu avô os viu, gritou: “Sou o Pistola! Não me matem! Tirem-me daqui!” O Sr. Joaquim dos pocinhos retirou-o do cemitério, levou-o para a nossa casa e contou aquela cena aos meus pais. Lá dormiu mais uma noite no preguiceiro.

Daquela família dos d’além, conheci três filhos: um que estava numa Venda na Lameira, outro que casou com a Senhora Maria Joaquina que vendia trigo e o mais novo, José Alcídio Alves Monteiro.

Os dois filhos mais velhos tinham pouca apetência para o negócio. O que estava na Lameira abandonou o negócio e emigrou para o Brasil. O Sr. Armindo, como viveu com os pais muitos anos na Venda, também gostava de saborear o bom vinho e isso arredou-o das lides do negócio.

O filho mais novo José Alcìdio Alves Monteiro, já nasceu talhado para o negócio. Ainda muito jovem já era o braço direito dos pais. Ouvi algumas vezes elogios dos pais que iam perdendo forças, devido à sua avançada idade.

José Alcídio Alves Monteiro andou na tropa juntamente com o meu tio Armindo, que, apesar de ser mais velho, como era refractário, teve de fazer o dobro do tempo de tropa. O Sr. Monteiro era amigo dos Pistolas de Bolada e Vila Boa. Quando vinham passar o fim-de-semana a casa ou de licença vinham sempre os dois, eram muito amigos.

Quando acabou a tropa, os pais entregaram-lhe as rédeas do negócio. O largo desapareceu para dar lugar à construção duma ampla mercearia e mais tarde a casa em pedra que servia de dormidas.

Casou com a Senhora Grabelina que morava no lugar de Pedroso. A nora seguiu os passos da sogra Florinda, foi uma excelente aprendiz e veio a ser o braço direito do marido na condução dos negócios da mercearia, que nessa altura era adega, mercearia, talho e drogaria.

Fundou a funerária de “José Alcídio Alves Monteiro”. A célebre égua castanha era o meio de transporte de todo o material para armar os velórios e vestir os “anjinhos” nas procissões.

Os caixões eram transportados por homens e por vezes por mulheres tanto para os lugares da freguesia como para outras freguesias onde o Monteiro fizesse os funerais. O meu pai chegou a levar caixões a várias freguesias e também a ir buscar mercearia à Lixa para a Venda do Zé d’além.

O Sr. Monteiro era um homem popular e muito conhecido na Vila e concelhos vizinhos.

Foi um grande amigo dos meus pais. Salvou o meu pai de se enforcar num carvalho em frente à casa de Júlio Alves da Mota, no lugar da Lameira, no dia em que o filho João Baptista Alves da Mota se ordenasse padre e celebrasse a sua primeira missa, por causa do Sr. Júlio Catalão se recusar a fazer a escritura da nossa casa para o nome dos meus pais.

O nosso casebre tinha paredes de meia acção com a cozinha da casa do Catalão, que era pertença do Sr. Manuel Alves da Mota e sua esposa Rosinha do Catalão.

Porém, nunca a nossa casa foi pertença da casa do Catalão, no entanto veio parar às mãos do filho, Júlio Alves da Mota, por um erro grave dos meus pais.

Aquele casebre pertencia à casa do Pereira, e foi comprada aos pais do Sr. António Pereira, Srs. Francisco Alves Pereira da Mota e esposa Claudina Lopes de Carvalho, pelos meus bisavós José Teixeira e Joaquina de Sousa, pelo preço e quantia de vinte mil reis, como consta do registo por Titulo Oneroso nº. 13, respeitante a Importância da Contribuição, Imposto de Viação e Selo, no total de um mil reis e 697 reais paga em Celorico de Basto em 15 de Julho de 1878, e pela Escritura celebrada pelo Padre da freguesia do Rêgo Albino José Lopes de Carvalho. Foram testemunhas daquele acto, os lavradores João Lopes de Carvalho Basto, Joaquim Lopes Cerqueira, ambos do lugar de Vila Boa e João Lopes Marinho do lugar da Costinha, todos da freguesia do Rêgo.


Clique aqui para ver esta imagem no tamanho original.



A dita casa veio a ser herdada pelos meus avós maternos, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves Magalhães e mais tarde vendida aos meus pais em 02 de Fevereiro de 1932, pelo preço de setecentos e sessenta escudos.

Acontece, que o meu pai tinha ficado isento do serviço militar e como tal tinha que pagar a taxa militar até aos quarenta e cinco anos, mas nunca pagou. Passou a relaxo e se registasse a casa em seu nome, o estado ficava-lhe com ela.

A minha mãe, grávida de oito meses do segundo filho (Ambrósio), endividados para pagar a casa e despesas do processo de Escritura, não
arriscaram em fazer a escritura da casa para o seu nome
.

Como trabalhavam os dois na casa do Catalão, a minha mãe, criada da casa, e o meu pai, criado do filho Júlio, que era negociante de milho (o meu pai andava de casa em casa a medir o milho que o patrão comprava), pediram conselho ao patrão Júlio.

O patrão Júlio Alves da Mota, ainda moço solteiro, mas já com calo da vida como bom negociante que era, aconselhou os meus pais a fazerem a compra e pagarem todas as despesas, mas os vendedores meus avós, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves de Magalhães fazerem a escritura em nome de Júlio Alves da Mota, e quando o meu pai fizesse 46 anos, o patrão Júlio passava a dita casa para o nome dos meus pais.

Os meus pais aceitaram. Desde o dia do casamento que habitavam a casa. Andavam os dois a servir, mas à noite vinham lá dormir. Nasceu lá a 1ª filha Maria e passados 30 dias da celebração da escritura de compra, para o nome de Júlio Alves da Mota (02 de Fevereiro de 1932) nasceu o filho Ambrósio.


Entretanto, os anos foram passando. O patrão Júlio casou com a Senhora Emília Alves e deste casamento nasceram vários filhos, um chamado João Baptista Alves da Mota.

Quando o meu pai fez 46 anos, ano de 1954, pediu ao antigo patrão Júlio Alves da Mota para fazer o favor de passar a casa para o nome dos meus pais. O Sr. Júlio disse-lhe que ia pensar no assunto e depois dizia alguma coisa.

O tempo foi passando. O Júlio Catalão foi protelando e nunca mais se resolvia fazer a escritura da casa para o nome dos meus pais. Os meus pais iam ficando cada vez mais desesperados. Viam a casa que compraram com tanto suor e lágrimas, onde criaram os dez filhos, onde sempre viveram, ser-lhe retirada pelo seu antigo patrão.

Com efeito, ao fim de 18 meses de adiamento, o Sr. Júlio disse ao meu pai que não fazia a escritura. Que o irmão António Alves da Mota tinha interesse na casa, até porque tinha paredes de meia acção com a casa dos pistolas.

Foram 7 anos muito penosos para os meus pais e seus filhos. O meu pai desnorteou. Andava de cabeça perdida. Dizia “Como é possível trazer um filho a estudar para padre e ficar-me com a casa? No dia que o filho disser missa nova enforco-me num carvalho em frente à casa do Júlio Catalão na Lameira!”. Tentei tirar-lhe aquela cisma da cabeça. Não consegui. Bem lhe falava que pôr termo à vida era contra a Lei de Deus. Ele não ouvia.

A minha mãe passava os dias a chorar. Escrevia-me a pedir ajuda. Avisava-me que se ia dar uma desgraça. O nosso pai ia-se matar.

A minha mãe pediu ao Sr. Monteiro para falar com o Júlio Catalão e pedir-lhe para fazer a escritura e evitar aquela desgraça no dia da Missa Nova do Padre Baptista.

O Júlio Catalão acedeu ao pedido do Sr. Zé d’além, mas com a condição de mudar as confrontações a favor do irmão António Alves da Mota e a escritura foi celebrada nessas condições em 20 de Novembro de 1961.

João Baptista Alves da Mota foi ordenado padre no ano seguinte, 1962.

Acompanhei aquele padre desde criança.

Nos últimos dois meses de vida do avô dele, Manuel Alves da Mota, eu fui incumbido de, durante o dia, permanecer junto dele no seu leito a fim de enxotar com um ramo de bucheiros as moscas que lhe pousavam na cara e de lhe molhar os lábios com um pano molhado a fim de lhe aliviar o sofrimento, porque durante o dia a Sr.ª Rosinha ia cultivar, tornar as águas, etc. para os campos dos castanheiros, que reservou aquando das partilhas com os três filhos, Emília Alves da Mota, Júlio Alves da Mota e António Alves da Mota.

Quando o avô morreu, o padre João Baptista veio para junto da avó para lhe fazer companhia e ficar mais perto da escola, onde entrou passado um ano. Eu andava na terceira classe quando ele entrou, e ensinei-lhe as primeiras letras.

Muitas das vezes, ele dividia comigo um pedaço de broa que a avó lhe dava e até a merenda.

Imigrei para o Porto, mas não perdi de vista aquele meu conterrâneo na sua missão de padre e fiquei espantado com o carácter e acção deste homem como pároco, porque seguiu o evangelho de Jesus Cristo de perto e esteve sempre do lado dos pobres, tomando partido por estes, o que o levou a ter as suas missas vigiadas pela PIDE.

Se não tivesse surgido o 25 de Abril, não sei se o padre João Baptista Alves da Mota não teria entrado nas masmorras das prisões fascistas.

O Padre João Baptista é um Sacerdote totalmente diferente da esmagadora maioria dos seus colegas. Prestigia a sua Igreja.

Não tinha intenção de narrar aquele triste episódio que atingiu a família dos Pistolas, mas como narrei a venda do Zé d’além, aquele doloroso incidente, também está directamente ligado aquele grande homem, José Alcídio Alves Monteiro, a quem presto a minha homenagem, porque foi fundamental para resolver aquela situação tão delicada.

Ambrósio Lopes Vaz

sábado, 4 de abril de 2009

O amanho do linho por processos primitivos

O amanho do linho por processos primitivos

No lugar de Vila Boa, várias casas de lavoura semeavam Linho. Cito apenas os Lavradores, que faziam espadadas, onde se juntavam as criadas, jornaleiras, as filhas dos lavradores vizinhos e lavradeiras, para espadar todo o linho num só dia, ou numa só noite. A maior parte das vezes, aquela tarefa era feita durante a noite.

Casa do Catalão, casa dos Pocinhos, casa da Morgada, casa do Nunes de Baixo e casa do Pereira. A minha mãe espadou e fiou linho para as lavradeiras daquelas casas.

A sementeira do linho era feita num campo de rega e muito soalheiro.

Aquela planta para se desenvolver em condições naturais, precisava de muita humidade na raiz e muito Sol no caule. O linho era semeado no mês de Abril.

A terra era amanhada, nos mesmos moldes da sementeira do milho. A estrumação da terra é que era diferente. Para a cultura do linho, era usado um esterco bem curtido e miudinho para se desfazer na terra. Quando era possível, estrumavam com estrume das cortes das ovelhas, gado cavalar e dos porcos.

Depois da terra pronta, faziam pequenas margens separadas por regos, semeavam a linhaça esgadanhavam a terra com um engaço de dentes de ferro, para a semente ficar coberta.

De seguida regavam a terra, com um pequeno pilheiro de água, de forma a entrar na margem em leque e não arrastar a terra, só molhá-la e o lavrador com a sachola batia os sítios mais altos, para ficar tudo plano.

O linho nasce e é regado três vezes por semana. Na rega, não se cava a terra, para abrir ou tapar os pilheiros da água, usavam vassouras de giesta ou bucheiros, que iam mudando de rêgo para rêgo e desta maneira aproveitam-se as sementes que nasceram nas bordas do rego, no qual semeavam o milho chamado restivo, que só se desenvolvia depois de ser arrancado o linho.

Antes do linho florir, procedia-se á monda de todas as ervas daninhas, de forma a ficar só o linho.

Pela acção do Sol e a terra sempre húmida, o linho desenvolvia-se rapidamente e ficava todo florido com uma flor lilás.

Quando a flor caía, no seu lugar apareciam pequenas bolinhas, onde se criava a linhaça, que além de semente, era usada como cura de doenças, dores de barriga, constipações e gripes.

Depois das plantas ficarem maduras, o linho era arrancado com muito jeito, para não partir e deixado ás gabelas em cima da margem.

No fim da arrancada, a raiz era sacudida até largar a terra que ainda mantinha na raiz.

O linho era enfaixado em molhos, de maneira que a raiz fique toda para um lado.

A seguir era transportado para a eira, onde era ripado numa alfaia de dentes de ferro, chamada ripador ou ripanço.

Depois de separada a baganha, era espalhada na eira para secar e assim ser extraída a linhaça, para a futura semente e para os remédios.

O linho era amarrado aos molhos e levado para o rio ou poços, onde ficava mergulhado debaixo da água corredia, com umas tábuas e pedras em cima, para se manter debaixo da água durante dez a doze dias.

Ao fim daqueles dias, era retirado da água e estendido ao Sol até ficar completamente seco. Durante a secagem era virado várias vezes ao dia, com jeito para não partir as fibras.

Quando estava bem seco, era amarrado em molhos e transportado para a eira, para ser malhado ou maçado com um maço de madeira, até ficar em fibra.

Nalgumas freguesias, o linho era moído num engenho movido a agua. No lugar de Vila Boa, era tudo feito á mão, desde a sementeira até se transformar em tecido.

De seguida fazia-se a espadada, que normalmente era feita durante a noite.

Cada espadadeira, levava o cortiço e espadela.

Á beira de cada mulher era colocado um molho de linho, de onde tirava uma mão cheia de cada vez e a segurava na boca do cortiço estendida na vertical, batia várias vezes com a espadela na palha, até separar a casca e ficar apenas a fibra do linho.

Quando a mão-cheia estava espadada, era passada no sedeiro, um instrumento de madeira, com dentes de ferro afiados, num lado os dentes estavam mais juntos, no outro estavam mais espaçosos. Na parte onde estão mais juntos, ao sedar sai a estopa, na outra parte sai o linho.

A manada que fica pronta no sedeiro, chama-se estriga, era dado um nó a meio, metiam-nas em grandes sacos, dali iam para a roca, para serem fiadas.

A sedagem era para separar as fibras mais compridas das mais curtas. Todas as fibras eram linho, mas a estopa dá um tecido mais grosso. As fibras mais cumpridas dão um tecido mais fino.

A fibra que sai da espadagem, chama-se tomentos e dá um tecido muito grosso e muito difícil de fiar, devido aos restos de palha que ainda contém.

A fiação do linho era feita á noite a seguir á ceia. Ali se juntavam as filhas, a criada e a patroa. Quando não havia filhas, o serão era feito pela ama e criada. A criada não podia ir para a cama sem ter fiado pelo menos seis maçarocas.

Os serões ás vezes iam até altas horas da noite, e os moços solteiros, aproveitavam a noitada e vinham falar ás moças, como acontecia com as minhas vizinhas, filhas da Sra. Albininha do Catalão, Elvira e Arminda.

Os tomentos, estopa e algum linho, eram dados a fiar a fiandeiras, mulheres muito pobres, que aceitavam fiar doze miadas por meio quarto de milho. Cada miada levava doze maçarocas.

A medida da grossura de cada miada, era a miada preencher o espaço entre o dedo anelar e o polegar, dentro da mão fechada.

A minha mãe para conseguir acabar a empreitada mais depressa, ensinou as três filhas a fiar, a Maria, a Alzira e a Emília.

A Emília era a mais nova, com apenas seis anos, foi a que aprendeu mais rápido, tanto a fiar lã como o linho.

Como era muito pequenina, e o chão da casa era de terra, a minha mãe fez um buraco no chão, enfiou lá o fuso para ele não fugir da mão, pegou-lhe na mão e ensinou-a, a torcer o fio e andar com o fuso á roda.

Como eu era rapaz, não fiava, tinha de enrolar as maçarocas no sarilho, para fazer as miadas. Quando acabava de enrolar a massaroca, a minha mãe vinha fazer a emenda do fio. Tinha de ser dado um nó de tecedeira. Aquele nó era especial. Se não fosse feito nó de tecedeira, o tecido ia ficar com defeito, ou até romper naquela emenda, com o nó de tecedeira, nem sequer se notava onde o fio foi emendado.

Acabada a empreitada da fiação do linho, a minha mãe entregava as miadas ás lavradeiras, e recebia os quartos de milho correspondentes ao trabalho.

De seguida as miadas eram lavadas com sabão, bem esfregadas e batidas na pedra do tanque. As miadas de tomentos e algumas de estopa, seguiam para o coradouro, onde coravam, e voltavam a serem lavadas.

Aquelas miadas, não iam á barrela, destinavam-se a fazer o chamado linho de pano-cru. Eram dobadas na dobadoura, e passadas para novelos, que ficavam prontos para a urdidura.

A barrela

As outras miadas, eram metidas num grande cortiço tipo dorna furado no fundo, chamado barreleiro, por cima de cada camada de miadas, era peneirada cinza, a ultima camada de miadas era coberta com um pano tipo filtro, por cima era peneirada cinza até ficar todo coberto, durante três dias votavam em cima do pano, potes de agua a ferver, que depois de atravessar as miadas, saia lentamente pelo fundo do barreleiro.

Eu era curioso e perguntava á Senhora Rosinha do Catalão, porque votava ali a água quente. – Ela dizia que era para curtir as miadas.

Acabada a barrela, as miadas eram novamente lavadas e postas no coradouro a corar, depois de coradas, eram colocadas na dobadoura e passadas para novelos.

As lavradeiras guardavam em sacos todo o linho em novelos, bragal, estopa e tomentos. Cada qualidade era pesada. O linho era vendido também em novelos, a quem quisesse mandar fazer os seus enxovais directamente á tecedeira. Só os grandes lavradores é que semeavam o linho, os pequenos lavradores e caseiros compravam.

O tecido

Os novelos eram entregues á tecedeira, para ele tecer a obra que se pretendia, estopa, linho ou tomentos, que como atrás descrevi, podiam ser em pano-cru ou curado.

Ela preparava a urdidura e a teia, usando uma grande dobadoura em que vários fios passavam pela espadilha, da qual saíam os tomos da cruz do tear da parte de cima, e em baixo os tomos da cruz dos cadilhos.

As tecedeiras de teares manuais, faziam todo o tipo de tecido, liso, riscos ou quadrados, etc. Na freguesia havia várias tecedeiras de tecer o linho e havia pelo menos uma no rego que tecia vários tipos de mantas e passadeiras, feitas de farrapo velho. O tear que tecia aquela obra, era diferente daquele que tecia o linho

Ao escrever estas memórias da freguesia do Rêgo, estou a utilizar as palavras que ainda me lembro, e que eram usadas pelas mulheres que trabalhavam o linho e que hoje saíram de uso, exemplo, espadar, espadada etc.

Narrei os costumes das sementeiras do linho e do milho, por serem as mais trabalhosas.

Na freguesia do Rêgo, faziam-se outras culturas, batata, painço, relva, centeio e trigo.

O trigo e o centeio, eram semeados nas terras secas e como não se faziam sachas, porque aqueles cereais não admitem tal processo, apenas se faziam as mondas das ervas daninhas. Os trabalhos mais árduos eram os das segadas.

Ambrósio Lopes Vaz

quarta-feira, 11 de março de 2009

A sementeira do milho, na Aldeia do Rêgo

A sementeira do milho, na Aldeia do Rego



O processo da cultura do milho era arcaico. Quando o pão chegava à mesa, deixava atrás de si um ror de trabalhos, canseiras, suores e despesas. 
As lavouras eram as que causavam maiores “dores de cabeça” aos lavradores e caseiros.


Irei descrever o cultivo do milho, até se transformar em pão, porque foi um costume que se perdeu no tempo.

Primeiro, arrancava-se o esterco das cortes e era levado aos cestos para o carro de bois, devidamente apeirado com as caniças, depois de cheio seguia o caminho dos campos, veiga, prado, currais, penouta, mangarela, arregontim, devesas, reboredo, macieiras, seixosas, etc., conforme o campo que lhe era destinado.

Os caminhos eram dolorosos, nalguns sítios eram precisas, duas juntas de vacas para puxarem os carros.



Havia quelhas que o condutor do carro não conseguia ir á soga das vacas, pois em certos sítios empossavam grande altura de água, lama e pedras.



O lavador ia por um carreiro por cima dos campos e daí conduzia as vacas com a aguilhada, até chegar a caminho enxuto para retomar o comando pela soga. 
No campo, o estrume era descarregado aos montes, distanciados uns dos outros e em carreiras, em que as distâncias eram medidas a passo.




De seguida o esterco era estendido na terra, usando o engaço de dentes de ferro e a forquilha.

Era um trabalho muito ruim, porque o esterco vinha às postas e não se desligava, tinha que se desfazer e estendê-lo até ao extremo da carreira.

Este serviço rebentava com os braços às pessoas, normalmente era destinado aos jornaleiros e criados, quando existiam.

Depois de espalhar o estrume, fazia-se o cadabulho junto às bordas, em redor do campo que se ia lavrar.


Com a devida vénia do autor.





Cavava-se a terra em todos os cantos do campo e abria-se o primeiro rego, para o arado e o gado poderem começar a lavoura.



Apeiravam-se pelo menos duas juntas de vacas, (nos campos grandes três) com os jugos, compostos de arcos, varetas, latos, tamoeiro e cambão para fazer o engate no primitivo arado, que só lavrava, segurado e guiado, por um homem. Ainda não existia charrua na Aldeia.


Com a devida vénia do autor



Começava a lavoura, era um trabalho muito cansativo, para o menino que chamava as vacas no rego, para o homem do arado e até para as vacas.

Conforme o arado ia virando a terra, a ceita (a) era picada à sachola, por várias pessoas que se encontravam distribuídas pelo terreno onde caía a ceita.


Com a devida vénia do autor


(a) - Nos meios rurais dos centros urbanos não se chama ceita, chama-se leiva.




Este processo de cortar a ceita e deixa-la aos torrões, só era usado nas sementeiras de milho semeado a lanço.

Nas freguesias rurais da cidade do Porto, e Vila de Matosinhos, onde trabalhei, as alfaias eram modernas. Havia charrua, semeador e sachador, não era preciso picar a leiva. Usavam a grade para fazer esse trabalho.

Havia máquinas para tudo. Mas, ainda não havia tractores e as debulhadeiras trabalhavam ligadas a motores a petróleo.

Depois de lavrado o campo e picada toda a ceita, o lavrador distribuía vários sacos de semente pelo terreno, dali enchia a cesta, e lançava as sementes à terra. 



Nos campos grandes, chegavam andar dois e três semeadores a semear a lanço.
Quando estava tudo semeado, o terreno era todo gradado, com a grade virada com os dentes para a terra para desfazer os torrões e cobrir o milho, essa manobra era feita mais de que uma vez.

Quando estivesse tudo desfeito, a grade era virada de dentes para cima e corria o campo todo até a terra ficar toda plana.

Nas terras mais húmidas era colocada uma grande pedra para fazer peso e assim a terra ficar mais assapada.

Feita a sementeira do milho nos campos de regadio eram abertas tornas, separadas por regos, para as futuras regas.



Durante os trabalhos da lavoura, se o campo era longe de casa, o jantar era servido no campo.

A patroa e a criada levavam o jantar ao campo, em grandes cestos, com potes e alguidares próprios para transportes da comida, grandes cabaças de vinho, louças e toalhas. Todos bebiam pela mesma malga ou infusa.

Por vezes, improvisava-se uma mesa que era o carro de bois, as pessoas acomodam-se como podiam, uns comiam sentados nas bordas, outros arranjavam umas pedras para fazerem de banco. O que interessava era encher a bandulho.


Com a devida vénia do autor


Aquele presigo era convidativo, um tipo de cozido à portuguesa, acompanhado por broa e vinho. Tudo bem cozinhado.
Depois, uma tigela de caldo que exalava um cheirinho agradável, misturado com o cheiro do estrume natural das ervas e de variadas árvores que rodeavam o campo, completava um jantar inesquecível.

O gado era preso a árvores e também comia ali o seu penso, que era uma erva fresquinha do lameiro ou o azevem misturado com erva ferrã e, como sobremesa, uma gabela de feno ou molhos de palha milha.

A meio da tarde, a dona da casa aparecia no campo com a merenda para toda a gente. 
Trazia um grande açafate à cabeça e ainda uma cesta na mão. Era servido arroz, postas de bacalhau frito, polvilhado com açúcar, broa e vinho à descrição.

O dia da vessada era um dia especial. A comida era feita a rigor com todos os condimentos daquela época.


De regresso para a ceia, as mulheres, as moçoilas e até os homens, cantavam em uníssono, as canções da igreja: o Avé, a Miraculosa e outras canções da época. Os seus cânticos entoavam pelos caminhos e ouviam-se á distância. 
Nos casebres abriam os janelos para ver aquela "tuna".

Quando o milho começava a nascer, era altura de completar a sementeira, nos bocados que estavam em branco semeavam o feijão e os calondros. Semeavam feijão moleiro, branco manteigueiro, canarinho, ou mistura e, por vezes, o chamado feijão de sete semanas.

Aquele trabalho era feito pelas mulheres mais idosas, munidas por um grande chuço de madeira, aguçado na ponta, tiravam o feijão da abada e as pevides da algibeira, e deixavam-no cair onde queriam que a semente nascesse. Faziam um buraco e empurram as sementes para o buraco e tapam os buracos com o pau. Como o feijão era caro, só era semeado o necessário.

Eram feitas três mondas
A primeira era feita antes da primeira sacha, chamada decrua, que consistia em retirar as ervas e a terra da beira da raiz do milho e deixar a raiz ao sol.



A segunda monda era feita antes da segunda sacha, chamada arrendar. Nesta sacha, arrancam-se as ervas e aconchega-se a terra à raiz do milho.

A última monda, consistia em retirar os milheiros machos que não dão espiga, e outros que estavam a prejudicar a boa maturação.

Depois da segunda sacha, o milho de regadio começava a receber as primeiras regas. O outro milho, só recebia as regas do céu.

Quando a barba das espigas ficava preta, cortavam-se as crochas ou o pendão.

Em fins de Agosto colhia-se o milho das terras secas. No fim de Setembro cortava-se o milho dos prados e o das veigas.
Ás vezes, o milho só era cortado, em meados de Outubro, conforme o ano corresse mais seco ou chuvoso.
Depois era carregado e levado para o desfolhadouro, que podia ser junto à eira ou no próprio campo. As melhores espigas eram apartadas para ficarem para as próximas sementeiras.

Ali faziam-se as desfolhadas, quase sempre à noite, onde apareciam os rapazes solteiros a falarem ás moças.
A faladura era feita à distância, com um funil na boca, para disfarçar a voz e não ser reconhecido.

Apareciam embrulhados num lençol, ou outros disfarces, e cara tapada. Os moços que falavam ao serão, também se chamavam tunantes.

Quando se desfolhava uma espiga de milho rei, havia direito a beijos e abraços.
A palha era atada aos molhos e posta em medas, e as espigas eram colocadas nos espigueiros, alpendres ou eiras.

Secas as espigas, procedia-se à malha que, normalmente, era feita dentro do alpendre.
Seis ou oito malhos, divididos a meio, de frente uns para os outros, malham alternadamente. Quando uns malham nas espigas, os outros estavam no ar, e assim sucessivamente. Faziam um barulho característico quando malhavam certos.

Acabada a malha, com engaços de dentes de pau, separaravam-se os carolos do milho e, de seguida, escriba-se (b) o milho num escribador de madeira, que era movido por uma roldana, manobrada manualmente por uma pessoa. Este engenho era munido de vários cribos.

(b) - Na aldeia, as pessoas trocavam o "v" pelo "b".


Só as casas ricas tinham escribador. Nas outras casas, o milho era todo escribado á mão. Este trabalho era feito por várias mulheres e quando havia corrente de vento, para ajudar a expulsar a munha.

Este costume também desapareceu. Hoje é tudo feito com a debulhadeira, que debulha e escriba o milho.

Seguia-se a secagem do milho, que era feita na eira. Durante vários dias, de hora a hora, o milho era mexido com os pés, para secar todo ao mesmo tempo. De noite ou quando chovia era guardado dentro do alpendre.
Depois de seco, era medido e metido na tulha. No caso dos caseiros, entregavam duas partes ao senhorio e ficavam com uma parte.

Os lavradores e caseiros eram obrigados a manifestar a quantidade de todas as colheitas, num impresso próprio e entregavam-no ao Regedor, que depois de o conferir e assinar, era entregue ao presidente da câmara.

A fornada (cozer o pão)

O milho ia em sacos para o moinho, depois de moído, a farinha, era metida em foles, e transportada ás costas até casa (isto quando se tratava de moinho próprio ou comunitário).

A patroa fervia um grande pote de água, suficiente para amassar alqueire e meio de farinha, nos grandes fornos. Ás vezes a fornada era de dois alqueires, quando haviam vessadas ou outros trabalhos, que juntavam muita gente. E o pão era cozido para durar até três semanas.

Deitava-se dentro da maceira, a quantidade de farinha que se pretendia cozer. Desfazia-se o fermento e misturava-se com aquela farinha. Nalgumas casas, juntavam uma porção de farinha de centeio.

De seguida, lançava-se a água na farinha e amassava-se tudo bem amassado, até ficar uma maça uniforme. Depois deitava-se farinha seca por cima, alisava-se a massa e fazia-se uma cruz por cima. Passadas umas horas a massa abria umas gretas a meio, estava levedada.
Daquela massa era retirado o fermento para a próxima fornada.
Acendia-se o forno e rezava-se por todas as almas que estivessem a sofrer no purgatório.
Se houvesse falta de pão, coziam-se bolos de entre a lenha. Se a Sardinheira já tivesse passado, compravam-se sardinhas para assar em cima do bolo, e ia servir de presigo.

Quando as paredes estivessem vermelhas, estava em condições para cozer a fornada.
Retiravam-se as brasas e vassourava-se o forno.
Deitava-se dentro da escudela no fundo, farinha seca para a massa não se agarrar, depois a porção para a broa que queria fazer, com a escudela moldava-se a broa, punha-se na e deitava-se no forno, por cima duma folha de couve. 
Quando estivessem todas as broas dentro do forno, colocava-se a porta e barrava-se em toda a sua extensão com bosta das vacas.

Passadas umas horas o pão estava cozido.

Narrei estes costumes, para que os nossos jovens de hoje, conheçam os trabalhos que os seus avós e bisavós passaram até poderem comer o pão.
Ambrósio Lopes Vaz