É CONHECENDO O PASSADO QUE SE CONSTRÓI O PRESENTE E SE PREPARA O FUTURO!
sábado, 9 de janeiro de 2010
A festa do Padroeiro São Bartolomeu do Rêgo
sábado, 2 de janeiro de 2010
As Festas da Aldeia do Rêgo
* * * * *
O meu amigo Armindo Gonçalves, seguidor das Memórias do Rêgo, pediu-me para fazer um Post dedicado à Lavoira dos Cães da festa do São Bartolomeu do Rêgo, que se fazia na minha infância.
Aceitei. Mas entendo que não devo melindrar os outros santos que também têm as suas capelinhas em São Bartolomeu do Rêgo e nem todos os santos têm direito a festa.
Para mim, todos os santos, merecem o mesmo respeito, sejam de madeira, barro ou outros materiais.
Por isso, os lembro aqui, para eles saberem que o Ambrósio não os esqueceu.
Lembro também, a Senhora do Viso, que, embora não pertença à freguesia do Rêgo, porque a capela está situada na linha de divisão de Caçarilhe e Rêgo, o povo do Rêgo ao longo dos tempos, vem considerando a Festa da Senhora do Viso, como sendo pertença da freguesia do Rêgo.
Na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, naquele tempo, além da igreja, conheci três capelinhas, São Pedro, no lugar de Arbonça, Senhora da Saúde no lugar da Lameira e São Bento, no lugar de Quintela.
Cada santo tinha a veneração dos seus devotos, conforme as necessidades espirituais e credibilidade dos seus admiradores.
O São Bento que protegia as pessoas dos bichos peçonhentos e as livrava dos maus vizinhos do pé da porta, nunca lhe fizeram festa e até a capela estava abandonada.
O Apostolo São Pedro, segundo as crenças e lendas antigas que através dos séculos vêm sendo transmitidas de geração para geração, é o responsável das chaves, para abrir as portas do céu às almas.
Apesar de ter uma missão das mais importantes, era a festa menos concorrida e quase passava despercebida, não fosse o povo de Arbonça, nunca deixar andar os seus créditos por mãos alheias.
No dia da festa havia missa na capela e de tarde, rezava-se o terço e faziam novenas.
A noitada era festejada pelos jovens e também alguns idosos.
A casa de lavoura, do Simão de Arbonça, era responsável por zelar a capela e nunca deixou que o dia de São Pedro caísse no esquecimento.
A lavradeira, Arminda do Catalão, que casou com o Simão de Arbonça, foi durante anos, uma das responsáveis pela manutenção da capela.
Morreu no hospital de São João no Porto, e dois dias antes da morte, pediu-me para dizer à família, que determinada quantia de dinheiro guardada em tal sítio, (...) era proveniente de esmolas e promessas e pertencia ao São Pedro.
Transmiti aquela última vontade da Arminda do Catalão, à sua mãe Albininha do Catalão.
Curiosidade
O verdadeiro nome do apóstolo Pedro, era Simão, mas como havia outro apóstolo com o mesmo nome, os outros apóstolos chamavam-lhe Pedro e ficou para sempre conhecido por Pedro, e quiz o destino que na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, a Casa Simão de Arbonça, não deixasse cair no esquecimento o Apostolo Simão, que foi considerado o príncipe dos apóstolos.
Festa e Feira anual da Senhora da Saúde,lugar da Lameira
A Senhora da saúde, era a protectora da saúde dos seus crentes.
Não é por acaso, que das três capelas existentes na freguesia, a da senhora da saúde, é a mais importante e mais bonita.
Era na capela da Nossa Senhora da Saúde
no lugar da Lameira que se dizia a missa e se prestavam todos os actos fúnebres
aos defuntos da Freguesia do Rego, antes de ser construída a atual igreja da
paróquia do Rego, porque nessa altura a paroquia do Rego pertencia A POMBEIRO,
no concelho de Felgueiras.
A igreja da paróquia do Rego, segundo os
dados existentes só foi construída a partir do ano de mil setecentos e tal… foi
a partir dessa data que a capela deixou de fazer lugar da igreja matriz.
Altar-mor da capela da Senhora da Saúde, lugar da Lameira
Depois da construção
da Igreja, o senhor abade continuou a celebrar na capela, uma missa ao domingo, para
o povo do lugar da lameira, pedroso e Arbonça, que ficavam mais distantes da
igreja paroquial.
Nossa senhora da Saúde, era a todo o instante, lembrada pelo povo. Era aquela santa, que nas horas de aflição, o povo se apegava.
Quando as doenças eram mais graves, os familiares prometiam à Senhora da Saúde, promessas bastante complicadas para cumprir.
Uma delas, era no dia da festa, deslocarem-se a pé, das suas casas, até ao recinto da capela, sem fala.
Durante o percurso não podiam falar para ninguém.
Vinha gente de muito longe, chegavam a caminhar 60 quilómetros,sem falar, para cumprirem as promessas sem fala.
Aqueles e aquelas, que podiam falar, cantavam canções religiosas, “Queremos Deus”, “Miraculosa Rainha dos Céus” e outras canções religiosas.
As pessoas que iam a cumprir as promessa sem fala, levavam uma flor na boca, para não se esquecerem das promessas e dar sinal às pessoas que se cruzassem no caminho,que,iam a cumprir a promessa sem fala.
A festa era muito concorrida.Com uma pomposa procissão, organizada com todos os requisitos, saía da capela e seguia o trajecto até ao estradão que ia para Pedroso, e depois regressava à capela. Durante o percurso a estrada nacional era cortada ao trânsito e originava longas filas de carros, porque era a única estrada que existia.
Os forasteiros vinham de vários concelhos. Alguns vinham em grandes ranchos, com as suas tunas, características das regiões donde moravam. Traziam harmónicas, ferrinhos, realejos, tambores, gaitas e violas. Nos lugares onde passavam, o povo saia das casa para os ouvir.
Uns vinham para cumprirem promessas e outros para fazerem os seus negócios, porque no dia daquela festa, havia de tudo.
O dia da festa, era também dia de feira anual, onde se vendia e comprava todo o tipo de gado, bovino, caprino, ovino, galináceos, etc…Vendiam também alfaias para a lavoura, arados,gadanhos,engaços,forquilhas,picaretas,alviões,machados,crivos,peneiras,roupas, calçado etc.
O dia em que conheci a festa e a feira anual, foi muito feliz para mim.
Nunca mais o esqueci.
Na véspera da festa, a senhora Albininha do Catalão, pediu à minha mãe, se deixava eu ir “chamar” uma junta de vacas, das cortes, situadas na mouta da mangarela, até à feira da Lameira.
Feira de Gado Barrosão. Com a devida vénia do Autor.
A casa onde morava o Sr. António Catalão e Sr.ª Albininha e onde nasceram as filhas, Elvira e Arminda, ficava junto à casa da tomada, ao fundo do caminho, que vinha do poço da fonte, sair aos currais, e que ainda hoje existe. Embora intransitável.
Todo acanhado, lá apareci e fiquei à porta, como de costume, quando ia pedir a esmola. A Senhora Albininha logo que me viu, mandou-me entrar e sentar-me num banco, junto à mesa. da cozinha..
Era uma mulher destemida e muito somítica, mas, naquele dia tratou-me como família. Comi comida igual à deles. Foi um fartote. Tirei a minha barriga de misérias. Nunca mais me esqueci daquele dia.
Vim mais tarde a conviver com as feiras mensais, duas por mês e a festa e feira anual, quando fui servir para a Lameira, na casa do Albino do Alves, (conhecido por “penico”) casado com a senhora Maria do Joana, filha dos Joanas do lugar de Bolada, que me contou varias histórias reais, do meu avó e do meu visavó, paternos, de Bolada.
Esta casa de lavoura, era muito conhecida, no lugar da lameira, porque tinha um boi barrosão, de cobrição e os lavradores e caseiros, do Rego e doutras freguesias, iam lá levar as vacas ao boi.
Com a devida vénia do Autor.
Como todos se faziam acompanhar da racha de lódo, por dá cá aquela palha, começavam a zaragata. Era rara a feira que não houvesse barulho e alguns saiam de lá com uma grande polinheira.
O meu amo, em vez de receber a paga do seu trabalho, era mimado com umas landreiradas e aparecia em casa mais cedo, com a cabeça partida, e o canastro todo empenado. Era muito fraquinho no jogo do pau. Nunca aprendeu o contra-jogo.Embora, todos os domingos, lá em casa, era feito o ensino do jojo do pau aos jovens.
Festa da Senhora do Viso
A capela da Senhora do Viso está construída na demarcação das freguesias de Caçarilhe e Rêgo, mas pertence a freguesia de Caçarilhe, porque está situada dentro do seu limite.
Capelas da senhora do Viso com a devida vénia do autor
A minha avó, mãezinha de Bolada, era muito beata, ia todos os dias a missa. Contou-me que a senhora do viso, tinha oito irmãs, que nasceram nove dum ventre, e como foram todas santas, "foi combinado" construir as capelinhas, onde ficassem a ver umas às outras e na altura falou no nome delas, senhora da graça, senhora da saúde, senhora das neves etc.
Segundo a lenda, que vem sendo contada, de geração em geração, a Senhora do Viso é responsável pelo nosso juízo.
Quando eu dizia palavrões, considerados pecados, ouvi muitas vezes as pessoas idosas e a minha mãe, dizerem: Deixa-te de tolérias, o pão de Deus cria de tudo.
Pede à Senhora do Viso que te dê juízo.
Foi sempre uma festa muito frequentada por gente de todas as idades, das freguesias de Celorico de Basto e dos concelhos vizinhos. Os romeiros vinham ali satisfazer variadas promessas. Dar a volta ao redor da capela de joelhos, novenas, que era dar nove voltas ao redor da capela, rezar o terço junto ao seu altar e outras orações.
Havia também a promessa do morto, que era meter a pessoa viva, dentro dum caixão, tal e qual como se estivesse morto e dar as voltas prometidas com o “morto” dentro do caixão, ao redor da capela, como se fosse um funeral, acompanhado por varias pessoas
Os caixões eram alugados ali no recinto pela Comissão de Festas, aquelas pessoas que tinham de cumprir aquele tipo de promessas.
Aparecia naquela festa, o primeiro vinho doce. Era transportado para o recinto em pipas colocadas em carros de vacas, onde era vendido em tigelas e canecas.
Alguns romeiros, levavam cabaças e odres para comprar vinho doce, para trazer para casa.
Naquela época e naquele dia, eram ali vendidas melancias, melões e outras frutas e também vários doces, cavacas, rosquilhos, rebuçados de mel etc. Além das tasquinhas de comes e bebes cobertas por toldes instaladas no recinto.
A ordem era assegurada pela Guarda Nacional Republicana, que tinha grandes dificuldades em manter o recinto da festa sossegado.
A certa altura perdia mesmo o controle e limitava-se a proteger a capelinha de qualquer profanação ou estragos.
Naquela data, era na festa da Senhora do Viso, que o povo de São Bartolomeu do Rego, fazia os ajustes de contas, que se iam acumulando durante o ano. Roubo da namorada, tornas de água, negócios, falta de cumprimento da palavra, e outras pulhices.
No acto da infracção, o lesado lançava a ameaça. No Viso pagas.
Todos os homens e moços novos que iam à festa, iam munidos, cada um, com a sua racha de lodo, e quem não levava a racha de lodo, comprava no próprio recinto.
Pelo caminho para a festa, aqueles que iam já com intenções de saldar contas, por vezes cruzavam-se com os “devedores” e seguiam todos juntos na grande galhofa, fingindo serem todos amigos.
No recinto iam gozando a festa e saboreando os petiscos acompanhados por uns bons cartilhos de vinho.
Depois de bem bebidos, ao fim da tarde começavam as provocações. Os provocadores; de tigela na mão, cheia de vinho, dirigiam-se aqueles que pretendiam aquecer o lombo e ofereciam-lhe o vinho. Como eles não aceitavam, os desordeiros esbarravam-lhe com a tigela cheia de vinho, nas bentas. Outras vezes ao passar davam-lhe um empurrão.
As rachas começavam a trabalhar e o povo fugia para não ser atingido.
A zaragata estendia-se por parte do recinto.
A Guarda Nacional Republicana, como não conseguia pôr termo à desordem, sacudia-os para fora do recinto da festa.
Mas, o jogo do pau
Encostavam-no a uma borda e ele ficava a ali a sonhar com coisas bonitas, até desacordar ou aparecer algum caminhante que o socorresse.
Porém, se o ferido não acordasse mais e ficasse a dormir eternamente, para o lembrar, era colocada naquele sitio, uma cruz ou umas alminhas.
Na Senhora do Viso, não dizia a letra com a careta, porque quando começavam a bater, malhavam sem dó nem piedade. Tinham pouco juízo.
Ambrósio Lopes Vaz e minha esposa Maria de Lurdes Marques Fernandes Caseira
O meu carocha
estacionado junto a borda do Pereira e a casa da minha mãe numa das minhas
deslocações a casa da minha mãe, seguintes ao falecimento do meu pai.
Ambrósio Lopes Vaz
domingo, 22 de novembro de 2009
A Origem do Blog "Memórias da Freguesia do Rêgo"
"(...)Todos os indigentes eram avisados por edital e como eram analfabetos o edital era lido na missa pelo Sr.Abade e dizia, que tinham que se apresentar na sede da junta para trabalharem de sol a sol , de graça e seco, sem qualquer alimentação (e isto nos dias grandes, que era para render mais),para darem .um dia de trabalho ao Estado para comporem os caminhos e quelhas. segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A Venda do Zé d'além
A Venda do Sr. José Alves Monteiro e da Sr.ª Florinda Nogueira, era a Venda mais antiga, a mais procurada e frequentada pelo povo da freguesia e pelos caminhantes que por ali passavam a caminho das feiras da Lameira e Fermil ou da feira de Carvalho e Cabeceiras de Bast, ou pelos romeiros que faziam grandes caminhadas, para cumprimento de promessas, e tinham de andar muitas léguas até chegar às capelas onde estavam as santas da sua devoção.
A localização da Venda, junto à Igreja paroquial e ao caminho principal que ligava as freguesias de Borba e Carvalho e concelho de Felgueiras, era passagem obrigatória.
A casa era composta por rés-do-chão e primeiro andar. A venda era situada no rés-do-chão, onde fazia de mercearia e taberna.
Ali se vendia de tudo: mercearia, vinhos, aguardente, petróleo, azeite, vinagre, bacalhau, etc... Até fazia de botica, vendia linhaça, mostarda, mercúrio, álcool e remédio para matar piolhos e percevejos. Embora o povo usasse remédios caseiros, precisava daqueles auxiliares, para colmatar as graves doenças, que muitas vezes atingia o povoado.
A venda era abastecida por mercadorias provenientes de grossistas que ficavam a muitas léguas de distância: Alto da Lixa, Amarante, Fafe e Guimarães. O transporte era feito pela égua castanha, que além de prestar aqueles valiosos serviços, fazia o serviço agrícola, puxava as alfaias e fazia mover o engenho de canecos para regar o campo em frente e o campo ao lado da venda.
Ao lado da casa, havia um grande largo com alguns carvalhos e grandes pedras assentes no chão, onde estavam cravadas várias argolas de ferro, para os caminhantes prenderem as vacas, o gado cavalar, as ovelhas, cabras etc., enquanto iam beber umas canecas de vinho e petiscar umas iscas, postas de bacalhau frito, ou umas lascas de bacalhau cru, acompanhadas com um naco de broa ou o celebre trigo de Padronelo de quatro cantos, que por vezes já tinha oito dias.
Junto ao largo, havia a casa do Sr. Alfredo do correio, que também era muito frequentada. (Falarei desta casa quando falar das profissões).
Aos negociantes de gado, homens endinheirados, era reservada uma sala no primeiro andar, onde eles petiscavam à sua vontade e acertavam as suas contas, sem estarem a ser vigiados pelos mirones da ralé.
Quem atendia aqueles senhores, era a senhora Florinda, que aproveitava para fazer outros serviços ocasionais. Porque ali era a sala onde se faziam as permutas.
As pessoas levavam os taleigos cheios de cereais e ali eram medidos ou pesados, retirada a respectiva maquia, trocavam por farinha, outras vezes os produtos eram trocados por mercearia, arroz, macarrão, açúcar, café, vinho, azeite, bacalhau, etc...
O arroz, açúcar, macarrão, etc... eram ensacados nuns cartuchos feitos dum papel muito grosso e colados com cimento. Aquelas embalagens eram usadas em todas as vilas e cidades do país. Pagavam-se aqueles cartuchos colados com cimento, ao preço do artigo que se comprava. Mas estavam devidamente autorizados pela lei vigente.
Eu passei algumas vezes por aquela sala, quando ia trocar os maquieiros, que a minha mãe recebia, como paga do linho e lã que fiava, para os lavradores do lugar de Vilaboa. (Casas de lavoura, Catalão, Pocinhos, Pereira, Nunes, Tomada e Cunha)
Quando ia em dias de feira, eu via na sala aqueles senhores e o largo estava cheio de animais ali presos naquelas argolas.
A venda do Zé d’além nunca estava vazia. De manhã vinham homens e por vezes também algumas mulheres. ”matar o bicho,” com um copo de aguardente e um canto de trigo, ou um naco de broa que já traziam nos bolsos.
Os fumadores matavam o bicho e compravam um maço de cigarros “fortes velhos” que naquela altura custava dois tostões. Os mais endinheirados compravam a carteira dos cigarros “Definitivos” ou “Provisórios”
À tarde apareciam os viciados no vinho. Eram fregueses habituais. Na venda do zé d’além não havia fiados para borracheiras. Só eram permitidos fiados àqueles que tivessem bens ao luar.
Com a devida vénia do Autor
Acontece, que todos se preveniam com os tostões no bolso, para pagar os cartilhos ou as canadas do vinho que iam beber. Já sabiam as regras da casa.
Aqueles que não conseguiam os tostões, levavam os bolsos da jaqueta cheios de ovos, que retiravam dos ninhos das galinhas, e a Senhora Florinda fazia a permuta.
O meu avô paterno, Francisco Lopes Vaz, como era um bêbado bem encascado, bebia umas boas canadas até ficar com a medida certa: Carraspana Completa. Suponho, ter sido ele, o melhor freguês de vinho e aguardente da venda do d’além naquele tempo.
O Sr. Monteiro contou-me, que, "quando o meu pai foi á inspeção militar, que se realizou em Celorico, que o meu avô o acompanhou e que no fim da inspeção, os pais e filhos, residentes na freguesia do Rego, todos foram beber e mastigar, mas o meu avô, negou-se a fazer-lhe companhia. Disse: Só bebo, quando chegar á venda do Monteiro. Logo que entrou na venda, mandou vir um garrafão de vinho e umas lascas de bacalhau cru, começou a mastigar e a beber, ao fim de uma hora, o garrafão estava vazio."
Todo o dinheiro que ganhava no arranjo de guarda-sóis, loiça partida, e fósforos que fazia clandestinamente, era para vinho. Quando acabava o dinheiro, pedia à minha avó. Se ela não lhe desse o dinheiro, levava uma grande tareia.
O meu avô ia de tarde para a venda e só vinha embora quando a taberna fechava ou quando já não cabia mais vinho no bucho.
Morava no lugar de Bolada. No trajecto do caminho até casa, fazia algumas paragens. A primeira era no cruzeiro, junto á residência do Abade José Gomes Júnior, sentava-se nas caleiras do cruzeiro e gritava: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”. Repetia aquelas palavras até o padre Gomes vir à janela.
Com os olhos fitados naquela janela, quando a via abrir, mudava de ladainha e no mesmo tom gritava: “Viva o Padre-nosso. Viva o nosso padre!”. O Sr. Abade abria a janela e dizia: “Ó pistola vai embora! Não sejas malcriado! Eu mando-te prender!”. Fechava a janela e o meu avô voltava à primeira forma: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”.A srª Albertininha também o mandava embora, mas ele não ia.
O Sr. Albino do Bento (lavrador que morava junto à casa do padre) vinha avisar o meu pai daquilo que se estava a passar, e pedia-lhe para ele retirar dali o meu avô e levá-lo a casa, porque estava a tratar mal o Sr. Abade.
Quando a poça das lebandeiras estava cheia, como o caminho passava pelo meio da poça, não se podia passar, porque a água empossava até meio da quelha da Costinha, e o meu avô vinha para a nossa casa e dormia no preguiceiro junto à lareira.
Uma vez, o meu avô, quando vinha da taberna, em vez de seguir o caminho, entrou no portão do adro, que ficava a escassos metros da Venda, rodeado pelo lado de dentro, por duas grandes austrálias.
A igreja, com o adro a fazer de cemitério.
Naquele tempo ainda não havia cemitério. Os mortos eram enterrados à volta do adro. Havia dois grandes portões muito altos, um em frente à torre e outro junto ao caminho do passal. Os portões costumavam estar fechados, mas naquela noite o portão de cima estava aberto. O meu avô vinha com uma grande touca e entrou pelo adro dentro, e, como o portão de baixo estava fechado, nunca mais atinou para sair do cemitério.
Agarrado ao cajado que era seu companheiro permanente, começou a tropeçar nas campas, tombou e ficou deitado sobre elas. Começou aos gritos, com aquela voz roufenha, própria daqueles borrachões empedernidos.
Entretanto, alguns companheiros que tinham ficado na venda ouviram os gritos desesperados, que vinham do adro e deram o alerta.
O Sr. Joaquim Lopes de Carvalho (Joaquim dos Pocinhos), um homem muito corajoso que não acreditava em “lobisomens”, agarrou na sachola de crista e acompanhado com outros dois, entraram pelo adro dentro ao encontro daquela “alma penada”.
Quando o meu avô os viu, gritou: “Sou o Pistola! Não me matem! Tirem-me daqui!” O Sr. Joaquim dos pocinhos retirou-o do adro, que fazia de cemitério, levou-o para a nossa casa e contou aquela cena aos meus pais. Lá dormiu mais uma noite no preguiceiro.
Daquela família dos d’além, conheci três filhos: o Manuel, que estava numa Venda na Lameira, o Armindo, que casou com a Senhora Maria Joaquina que vendia trigo e o mais novo, José Alcídio Alves Monteiro.
Os dois filhos mais velhos tinham pouca apetência para o negócio. O Manuel estava na venda do lugar da Lameira, abandonou o negócio e emigrou para o Brasil. O Sr. Armindo, como viveu com os pais muitos anos na Venda, também gostava de saborear o bom vinho e isso arredou-o das lides do negócio.
O filho mais novo José Alcídio Alves Monteiro, já nasceu talhado para o negócio. Ainda muito jovem, já era o braço direito dos pais. Ouvi algumas vezes elogios dos pais, que iam perdendo forças, devido à sua avançada idade.
José Alcídio Alves Monteiro, andou na tropa juntamente com o meu tio Armindo, que, apesar de ser mais velho, como era refratário, teve de fazer o dobro do tempo de tropa. O Sr. Monteiro era amigo dos Pistolas de Bolada e Vila Boa. Quando vinham passar o fim-de-semana a casa ou de licença vinham sempre os dois, eram muito amigos.
Quando acabou a tropa, os pais entregaram-lhe as rédeas do negócio. O largo desapareceu para dar lugar à construção duma ampla mercearia e mais tarde a casa em pedra que servia de dormidas.
Casou com a Senhora Gravelina, que morava no lugar de Pedroso. A nora seguiu os passos da sogra Florinda, foi uma excelente aprendiz e veio a ser o braço direito do marido na condução dos negócios da mercearia, que nessa altura era adega, mercearia, talho e drogaria.
Fundou a funerária de “José Alcídio Alves Monteiro”. A célebre égua castanha era o meio de transporte de todo o material para armar os velórios e vestir os “anjinhos” nas procissões.
Os caixões eram transportados por homens e por vezes por mulheres tanto para os lugares da freguesia como para outras freguesias, onde o Monteiro fizesse os funerais. O meu pai chegou a levar caixões a várias freguesias e também a ir buscar mercearia à Lixa, para a Venda do Zé d’além. Vinha carregado, caminhando por carreiros e caminhos até Vilaboa.
O Sr. Monteiro era um homem popular e muito conhecido na Vila e concelhos vizinhos.
Foi um grande amigo dos meus pais. Salvou o meu pai de se enforcar num carvalho em frente à casa de Júlio Alves da Mota, no lugar da Lameira, no dia em que o filho João Baptista Alves da Mota se ordenasse padre e celebrasse a sua primeira missa, por causa do Sr. Júlio Catalão se recusar a fazer a escritura da nossa casa para o nome dos meus pais.
O nosso casebre tinha paredes de meia acção com a cozinha da casa do Catalão, que era pertença do Sr. Manuel Alves da Mota e sua esposa Rosinha do Catalão.
A casa dos meus pais é a parte que está recuada, a outra parte, mais á frente, também coberta de colmo é a cozinha da casa do catalão.
Porém, nunca a nossa casa foi pertença da casa do Catalão, no entanto veio parar às mãos do filho, Júlio Alves da Mota, por um erro grave dos meus pais.
Aquele casebre pertencia à casa do Pereira, e foi comprada aos pais do Sr. António Pereira, Srs. Francisco Alves Pereira da Mota e esposa Claudina Lopes de Carvalho, pelos meus bisavós José Teixeira e Joaquina de Sousa, pelo preço e quantia de vinte mil reis, como consta do registo por Titulo Oneroso nº. 13, respeitante a Importância da Contribuição, Imposto de Viação e Selo, no total de um mil reis e 697 reais, paga em Celorico de Basto em 15 de Julho de 1878, como consta na Escritura celebrada pelo Padre da freguesia do Rêgo, Albino José Lopes de Carvalho.
Foram testemunhas daquele acto, os lavradores, João Lopes de Carvalho Basto, Joaquim Lopes Cerqueira, ambos do lugar de Vila Boa e João Lopes Marinho do lugar da Costinha, todos da freguesia do Rêgo.
A dita casa veio a ser herdada pelos meus avós maternos, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves Magalhães e mais tarde vendida aos meus pais em 02 de Fevereiro de1932
pelo preço de setecentos e sessenta escudos.
Acontece, que o meu pai tinha ficado isento do serviço militar e como tal, tinha que pagar a taxa militar até aos quarenta e cinco anos, mas nunca pagou. Passou a relaxo e se registasse a casa em seu nome, o estado ficava-lhe com ela.
A minha mãe, grávida de oito meses do segundo filho (Ambrósio), endividados para pagar a casa e despesas do processo de Escritura, não arriscaram em fazer a escritura da casa para o seu nome.
Como trabalhavam os dois na casa do Catalão, a minha mãe, criada da casa, e o meu pai, criado do filho Júlio, que era negociante de milho (o meu pai andava de casa em casa a medir o milho que o patrão comprava), pediram conselho ao patrão Júlio.
O patrão Júlio Alves da Mota, ainda moço solteiro, mas já com calo da vida como bom negociante que era, aconselhou os meus pais a fazerem a compra e pagarem todas as despesas, mas os vendedores meus avós, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves de Magalhães fazerem a escritura em nome de Júlio Alves da Mota, e quando o meu pai fizesse 46 anos, o patrão Júlio passava a dita casa para o nome dos meus pais.
Os meus pais aceitaram. Desde o dia do casamento que habitavam a casa. Andavam os dois a servir, mas à noite vinham lá dormir. Nasceu lá a 1ª filha Maria e passados 30 dias da celebração da escritura de compra, para o nome de Júlio Alves da Mota (01 de Março de 1932) nasceu o filho Ambrósio, Autor do presente blogue.
Quando o meu pai fez 46 anos, ano de 1954, pediu ao antigo patrão Júlio Alves da Mota para fazer o favor de passar a casa para o nome dos meus pais. O Sr. Júlio disse-lhe que ia pensar no assunto e depois dizia alguma coisa.
O tempo foi passando. O Júlio Catalão foi protelando e nunca mais se resolvia fazer a escritura da casa para o nome dos meus pais. Os meus pais iam ficando cada vez mais desesperados. Viam a casa que compraram com tanto suor e lágrimas, onde criaram os dez filhos, onde sempre viveram, ser-lhe retirada pelo seu antigo patrão.
Com efeito, ao fim de 18 meses de adiamento, o Sr. Júlio Alves da Mota, disse ao meu pai, que não fazia a escritura. Que o irmão António Alves da Mota, tinha interesse na casa, até porque tinha paredes de meia acção com a casa dos meus pais..
Foram 7 anos muito penosos para os meus pais e seus filhos. O meu pai desnorteou. Andava de cabeça perdida. Dizia “Como é possível trazer um filho a estudar para padre e ficar-me com a casa? No dia que o filho disser missa nova, enforco-me num carvalho em frente à casa do Júlio Catalão na Lameira!”. Tentei tirar-lhe aquela cisma da cabeça. Não consegui. Bem lhe falava que pôr termo à vida era contra a Lei de Deus. Ele não ouvia.
A minha mãe passava os dias a chorar. Escrevia-me a pedir ajuda. Avisava-me que se ia dar uma grande desgraça. O nosso pai ia-se matar.
A minha mãe pediu ao Sr. Monteiro, (Zédalem) para falar com o Júlio Catalão e pedir-lhe para fazer a escritura e evitar aquela desgraça no dia da Missa Nova do Padre Baptista.
O Júlio Catalão acedeu ao pedido do Sr. Zé d’além, mas com a condição de mudar as confrontações a favor do irmão António Alves da Mota e a escritura foi celebrada nessas condições em 20 de Novembro de 1961.
João Baptista Alves da Mota foi ordenado padre no ano seguinte, 1962.
Acompanhei o Padre João Baptista Alves da Mota, desde criança.
Nos últimos dois meses de vida do avô dele, Manuel Alves da Mota, eu fui incumbido de, durante o dia, permanecer junto dele no seu leito, a fim de enxotar com um ramo de bucheiros as moscas que lhe pousavam na cara e de lhe molhar os lábios com um pano molhado a fim de lhe aliviar o sofrimento, porque durante o dia a esposa, Sr.ª Rosinha ia cultivar, tornar as águas, etc. para os campos dos castanheiros, que reservou aquando das partilhas com os três filhos, Emília Alves da Mota, Júlio Alves da Mota e António Alves da Mota.
Quando o avô morreu, o padre João Baptista veio para junto da avó, para lhe fazer companhia e ficar mais perto da escola, onde entrou passado um ano. Eu andava na segunda classe, quando ele entrou para a escola, e ensinei-lhe as primeiras letras.
Muitas das vezes, ele dividia comigo um pedaço de broa que a avó lhe dava e até a merenda.
Migrei para o Porto, mas não perdi de vista aquele meu conterrâneo na sua missão de padre e fiquei espantado com o carácter e acção deste homem como pároco, porque seguiu o evangelho de Jesus Cristo de perto e esteve sempre do lado dos pobres, tomando partido por estes, o que o levou a ter as suas missas vigiadas pela PIDE.
Se não tivesse surgido o 25 de Abril, não sei se o padre João Baptista Alves da Mota não teria entrado nas masmorras das prisões fascistas.
O Padre João Baptista é um Sacerdote totalmente diferente da esmagadora maioria dos seus colegas. Prestigia a sua Igreja.
Não tinha intenção de narrar aquele triste episódio que atingiu a nossa família, mas como narrei a venda do Zé d’além, aquele doloroso incidente, também está directamente ligado aquele grande homem, José Alcídio Alves Monteiro, a quem presto a minha homenagem, porque foi fundamental para resolver aquela situação tão delicada.
Ambrósio Lopes Vaz
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