sábado, 9 de janeiro de 2010

A festa do Padroeiro São Bartolomeu do Rêgo


A FESTA DO PADROEIRO SÃO BARTOLOMEU DO REGO


A lavoira dos cães que eu vi, desde os preparativos até ao fim.
Naquele ano os mordomos da Festa de São Bartolomeu, foram o Sr. Joaquim dos Pocinhos e o irmão António dos Pocinhos. Fizeram parte da Comissão de Festas o Sr. Manuel Nunes, o Sr. João Tendeiro, o Sr. José do Bento e o irmão Abílio do Bento que morava no lugar da Seixosas.

Além, daqueles lavradores, colaboraram na lavoira dos cães o Sr. José Bagarinho e o Naifa (que era casado com uma filha do Sousa, que morava no lugar do Reboredo), bem como outras pessoas que eu não me lembro. 

O Sr. Joaquim dos Pocinhos era muito amigo dos meus pais. Eram compadres. Quando a esposa Sr.ª Maria Emília teve a Glória, a minha mãe, dois meses antes, tinha parido o meu irmão Arlindo. Como a menina Glória mamava pouco leite, eu ia todos os dias a casa dos pocinhos, levar o meu irmão Arlindo, para ele mamar as sobras que ficavam nas mamas da senhora Maria Emília. 

Eu tratava-os por padrinhos, mas eles não eram meus padrinhos. Naquele ano como o Sr. Joaquim dos Pocinhos era o Mordomo da Festa, veio a casa dos meus pais pedir para o meu pai ir representar a figura do “Diabo”. A minha mãe disse – Ò compadre, depois da festa, quando o meu “home” for dar a volta para guiar a loiça e os “gardassois”, vão começar a chamar-lhe Diabo. - Comadre, o mundo está cheio de Diabos que vagueiam por esse mundo fora, para a perdição das almas. 

Para o próximo ano, o Diabo já é outro. O compadre vai ser uma figura muito importante da festa. Os romeiros que vêm de fora ver a festa, não vêm cá pela procissão… Nas suas terras têm também bonitas procissões. Os forasteiros vêm para ver a nossa lavoira dos cães e cabras, e para ver o Diabo à solta! - O teu papel de Diabo vai ser importante e sei que não me vais deixar ficar mal. 

Eu quero que a lavoira dos cães represente a nossa sementeira do linho, porque essa tradição já vem do tempo dos meus bisavôs, e quero fazer uma festa muito bonita, tanto a festa religiosa, como a nossa lavoira da sementeira do linho.

O padre Gomes até já nos está a criar problemas! Já me chamou e disse-me que não autoriza deturpar a imagem do santo, nem quer figuras vestidas de padre a fazer fantochadas de benzeduras! 

Não quer que a lavoura dos cães seja feita no campo santo! Diz que o terreno já foi benzido para um dia construir o cemitério! Que é considerado terreno sagrado e que andar lá a fazer palhaçadas é profanar a igreja! Mandou-me ir fazer aquelas fantochadas para o campo das macieiras! - Eu disse ao senhor Abade que a lavoira dos cães não é nenhuma fantochada. É uma imitação da lavoira do linho na freguesia do Rêgo, que é uma tradição que já vem de muitas gerações. - 

Olha compadre, o nosso padre está velho e cada vez mais embirra com a lavoura dos cães. Mas o Sr. Abade não manda no campo santo! O campo é da freguesia! Ele só manda no passal! Todos os anos a lavoira dos cães é feita no campo santo!

Eu até fui falar com o presidente da Junta, Manuel Pimenta, e com o Regedor António Carvalho. Deram-me carta-branca. Disseram que o Sr. Abade, só manda no passal! - O Custódio disse-me que o padre anda a ser aguilhado pelo Russo. Mas o juiz de paz, só manda em coisas do tribunal! Só eu é que posso proibir! Ele não é regedor! - Mas eu vou fazer uma surpresa ao Sr. Abade… Vou escolher para representar o nosso padroeiro São Bartolomeu, o beato que passa mais tempo dentro da igreja, mais até do que o padre José Gomes, que anda sempre atrás do sarilho a ver se ele lhe cuida bem a lavoira. 

A minha mãe levantou-se logo do preguiceiro e com os olhos muito arregalados, perguntou ao meu “padrinho”- Compadre, quem é o beato-? Ó! Não arranje nenhum estafermo. Escolha pessoa escorreita, que não faça pouco do meu “home”! - Compadres, há três figurantes que só no dia da festa se vai saber quem são: o padre, o padroeiro e o Diabo. É uma surpresa… - Pode dizer, que nós não dizemos a ninguém. - 

Compadres, não temos correio, não temos jornais, não temos telefone nem rádio, a nossa comunicação é feita de boca em boca. Mas se dermos um peido aqui em Vila Boa, hoje ao final da tarde, o cheiro já alastrou pela freguesia toda! - Compadre não fique assustado… Eu vou conseguir levar a cruz ao calvário! 

Fiquei curioso. Estava ancioso que chegasse aquele dia, para ver o meu pai a fazer de Diabo. Sempre que o “padrinho” dos pocinhos vinha para os campos das macieiras, eu não o largava. Andava sempre atraz dele,

Um dia os “padrinhos” apareceram lá em casa com a vestimenta que o meu pai ia usar a fazer de Diabo. A vestimenta para o meu pai, foi costurada em tecido de chita pela senhora Maria Emília dos Pocinhos e veio tirar a prova ao meu pai O chambre ainda vinha aberto a meio e as mangas separadas. O marido deu as ordens, no sentido de as mangas fecharem no sítio das mãos, em feitio de luva e deixar os dedos compridos e no fim aguçados de forma a parecerem garras. Na cinta tinha dois laços que formavam duas argolas onde o São Bartolomeu ia meter a corrente para prender o Diabo. Tinha uma parte que enfiava na cabeça e já estava pronta. Dois buracos para os olhos e uma abertura, onde saia a boca e o nariz. Na testa tinha dois chavelhos já cosidos de vez e que se mantinham rígidos, porque tinham por dentro carolos, em cada um. 

No fim da prova, o marido perguntou ao meu pai, se quando ia dar a volta para guiar a loiça e os gardassois, viu em alguma casa de lavoura, usar o odre ou cabaças de duas canadas. O meu pai disse que os odres em uso eram raros, viu na casa do Virgilinho em Montim, e nas mãos da mãe do Benancinho do Ferreira de Quintela. - E o compadre para que quer os odres e as cabaças tamanhas? - É para levar o vinho para a merenda da lavoira dos cães. - Porra! O vinho vai de qualquer jeito. Não se ande a incomodar.

Compadre, quero naquilo que seja possível, manter os costumes dos nossos antepassados. - A Claudina Pereira tem um odre, mas andei com eles em demanda no tribunal por causa do poço da água de rega, que está dentro do meu quinteiro. Ali não vou pedir. Tenho de me servir por outro lado. 

A festa estava próxima. Naquela semana a comissão fez o segundo peditório. A festa religiosa ficava cara. As esmolas eram dadas em dinheiro e milho. Mas o pagamento ao fogueteiro, à banda da musica, aos tramboleiros, a missa cantada por três padres, as ornamentações dos andores e dos anjinhos que iam na procissão, etc. Era tudo pago a dinheiro. Por isso foi feito o segundo peditório. A despesa do enfeite dos altares e coro da igreja ficou a cargo da Casa das Caetanas, quatro beatas solteironas, Emilinha, Joaquininha, Miquinhas e Carolininha. Mas, quem cuidava regularmente do atavio dos altares eram as filhas do Rendeiro. Lembro-me da mulher do Bagarinho, da Lucília que era a mais nova….Quando ia pedir esmola para Alijó, parava naquelas duas casas, (únicas naquele caminho) só para ver as flores.


A festa religiosa



Finalmente chegou o dia que eu tanto ansiava
. Era sábado, as filhas dos lavradores, dos caseiros, as mulheres da aldeia do Rêgo, surgiam de todos os carreiros e caminhos aos magotes, sobraçando flores. 

Caminhavam a passos ligeiros, em direcção ao adro da igreja. Algumas levavam as sacholas ao ombro. As campas eram todas de terra e tinham de ser arranjadas e enfeitadas como se os defuntos tivessem sido enterrados na véspera. 

Sabiam que no dia seguinte, iam passar por ali muitas pessoas estranhas. Queriam que os forasteiros notassem, que lá por ainda continuarem sem cemitério para enterrar os seus mortos, não os esqueciam ali enterrados ao redor da igreja. 

A noite foi animada com o fogo. Apareceram muitos jovens e algumas mocetonas com os namoros, mas, acompanhadas pelos pais, não fosse o Diabo tece-las… 

A luz era fornecida por alguns gasómetros e velas. 

No domingo de manhã, antes da missa cantada e a comunhão solene, os tramboleiros andaram pelos lugares anunciar a festa. A banda da música também veio tocar junto das casas dos mordomos, Srs. Joaquim dos Pocinhos e António dos Pocinhos Ao meio dia, o Sr. Joaquim dos pocinhos apareceu na nossa casa com um alguidar cheio de arroz e carne, uma enfusa de vinho e meia broa de pão. - 

Compadres, vós também sois filhos de Deus! Hoje são as nossas festas! - Logo que a procissão recolha, vens ter a minha casa para eu te vestir, pintar e dizer-te qual é o teu trabalho…

A procissão


De tarde saiu a procissão. Os homens que iam pegar nos andores, de opas vestidas, uns de azul outros de vermelho, começaram a retirar os andores de dentro da igreja para o adro. Dentro do adro só ficaram os lavradores vestidos com as opas, três para levarem a cruz e os outros para levarem o pálio, onde se iam abrigar os três padres. O padre José Gomes Júnior, era quem ia no meio a segurar a Custódia, onde ia exposta a santa hóstia. O pequeno adro fazia de cemitério, estava ocupado pelos mortos. 

Os anjinhos formavam filas no caminho em frente à igreja. Em cada fila seguiam também as filhas dos lavradores, bem oiradas e vestidas a preceito, com grandes pelicanas nas orelhas, cordões ao pescoço, medalhões, libras, crucifixos, dedos cheios de anéis, lenço chinês, corpete de linho, saias e blusas de fina pelúcia, saiote de castorina, e calçavam a fina chinela. 

Cada lavrador, porfiava em apresentar as suas filhas a trajar pomposamente nos dias de festa. Era quase como uma competição. Era nas festas que elas podiam ser vistas e admiradas pelos seus conquistadores. Só em dias de festa, é que as roupas novas saiam da caixa e o oiro do escaninho. 

No meio dos anjinhos, seguiam também vários balsões transportados pelas pessoas ligadas a casas ricas e à igreja. A banda da música e o grupo dos tramboleiros já estavam no caminho, no sítio certo onde iam incorporar a procissão. 

O campo santo (onde hoje é cemitério) estava apinhado de gente que ia acompanhar a procissão. Antes de os andores saírem do adro, o padre Gomes veio vistoriar o andor do São Bartolomeu. Não queria que se repetisse aquilo que todos os anos acontecia, meter um cigarro na boca do Diabo e durante a procissão acenderem o cigarro para o Diabo fumar. 
A procissão saiu do caminho em frente à igreja e foi até à escola, e junto à casa dos pais do carpinteiro chamado Narciso, virou à esquerda, seguiu pelo caminho abaixo, deu a volta ao cruzeiro e recolheu novamente à igreja. Quando chegou a meio do percurso, alguém se encarregou de meter um cigarro na boca do Diabo e pô-lo a fumar… Estava dado o primeiro sinal da Lavoira dos cães…

A lavoira dos cães

Quando a procissão recolheu, o meu pai desapareceu, não o vi mais. Eu fiquei com a minha mãe, os meus irmãos e a mãezinha de Vila Boa, junto ao Passal. 

A minha mãe sentou-se com o menino ao colo e os outros meus irmãos na borda do campo santo. A mãezinha disse que lhe doía a cabeça e queria ir para casa. A minha mãe mandou-me acompanhá-la para ela não ir sozinha e disse-me para eu voltar ali quando a mãezinha entrasse em casa. 

Como eu queria ver a onde estava o meu pai, mal cheguei ao cancelo da porta, esgueirei-me logo. Fui direitinho a casa dos pocinhos a ver se encontrava o meu pai. Abri as portas fronhas que só estavam com o taramelo, mas as outras portas estavam fechadas. No quinteiro só estavam as galinhas. 

Em vez de ir ter com a minha mãe, segui pelo caminho que ia pelo meio do lugar sair à escola. Logo que passei a casa da senhora Felismina Cunha e a casa da Arrocha, vi no meio do caminho, em frente à casa do Sr. Narciso que era carpinteiro, uma carroça mal amanhada e tinha atrelada a jumenta do Naifa. 

Estava a segurar no cabresto um rapazinho, filho do Naifa. Mais à frente estavam dois cães, com um pequeno jugo em cima do pescoço, tipo canga, com um cordel amarrado que fazia de soga e estava a segurar nela, o criado dos Pocinhos, com uma croça vestida.

Vestimentas

Dentro do quinteiro do Sr. Narciso, estavam os figurantes e o “padrinho” dos Pocinhos a passar a revista a ver se estavam vestidos a rigor, para desempenhar o papel que ele queria.

Os lavradores estavam vestidos de croças de capa e polainas encaixadas nos socos rebelos, feitas duma planta chamada junco, pelo Sr.António Tecedeira, conhecido por “Caramona” A confecção daquelas croças era considerada de luxo (falarei disso quando narrar as profissões). 

Os criados estavam vestidos com a croça normal, feita de junco tal como saìa das junqueiras. Quem confeccionava aquelas croças, era a minha tia Pimenta, mulher do tio Domingos “Vacaria”. O padre estava vestido com uma batina preta de burel, que se estendia até às botas, um chapéu de abas largas e tinha nas mãos um livro preto. 

O sacristão estava vestido com uma opa de serapilheira e tinha na mão uma lata cheia de água, e uma pequena vassoura de giesta. Quem representou a figura de Sacristão foi o Naifa. O São Bartolomeu estava vestido com uma túnica azul, igual à do Santo, mas, a espada era bastante diferente. Tinha uma enorme espadela na mão, afazer de espada, feita pelo carpinteiro Narciso, de acordo com a vontade do Mordomo Sr. Joaquim dos Pocinhos. 

Os guardas estavam fardados a rigor com os uniformes da tropa, que tinham trazido para casa, quando passaram à disponibilidade, e com os respectivos bacamartes ao ombro. Os irmãos Sr.José do Bento que morava em Vila Boa e o Sr. Abílio do Bento que morava no Lugar da Seixosas, representaram a figura de guardas. 

Eu fiquei aflito por não ver ali o meu pai e perguntei ao “padrinho” onde é que estava o meu pai. Ele ficou muito zangado comigo. - Desaparece daqui! Se não levas um mosquete! E começou a pôr dentro da carroça os engaços de dentes de pau, as sacholas de crista, uma cesta cheia de baganha, os cambões, a grade e o arado. 

A seguir, o Sr. Joaquim dos Pocinhos equipou-se de lavrador, croça de capa, polainas, socos rabelos, lenço à tabaqueira e chapéu. Foi ele que fez de semeador do linho naquela lavoira dos cães.

O cortejo partiu dali, já devidamente organizado. À frente iam os guardas com os bacamartes ao ombro, depois o padre com um livro preto na mão e o sacristão com a lata da água benta e uma pequena vassoura de giesta. A seguir o São Bartolomeu, com uma grande espadela na mão e uma corrente enrolada em volta e por último os lavradores, os criados e a carroça com as apeirias. 

Quando o cortejo chegou em frente à escola, parou. O caminho estava cheio de gente. A borda da mouta, do sr. Manuel Nunes, estava apinhada de gente, desde o caminho que ia para o Rêgo, até ao outro caminho que saìa do largo do D’Além e circundava a mouta até se cruzar com o outro. 

Os guardas tiveram que proteger o cortejo, para manterem o povo afastado, a fim de poderem dar inicio à lavoura e abrir caminho para o cortejo. O povo ficou atónito. Perguntava: “ Então este ano não há cabras? Só há cães? E não tem Diabo à solta? “ Uma lavoura daquela grandiosidade também tinha que criar o seu suspanse. 

O Sr. Joaquim dos Pocinhos, era um homem de imaginação. Pensou tudo ao pormenor. Mandou cangar as cabras dentro do quinteiro da casa do Sr. Serafim Galego e ficarem lá escondidas. 

Em dado momento, abriu-se o cancelo, o criado já com a croça vestida, apareceu com as cabras e veio para trás dos cães, para engatar o cambão á grade. O “padrinho” dos Pocinhos disse: “O cortejo da Lavoira dos Cães está completo”. Não falou no Diabo

O São Bartolomeu estava sozinho e não se mostrava preocupado em saber onde estava o Diabo. Eu fiquei cada vez mais desassossegado. Pensei que o meu pai estava preso. Estavam ali, os mascarados que iam fazer de padre, São Bartolomeu, sacristão e guardas e o meu pai que ia fazer de Diabo não estava.

O arranjo do caminho


Tal e qual, como faziam os lavradores quando semeavam o linho nos prados, antes davam um jeito ao caminho para não ser tão custoso para as vacas que iam levar os carros de estrume ao prado. 

Assim começou a Lavoura do linho, antes de começar o arranjo do caminho, o Sr. José Bagarinho que fazia figura de padre, benzeu os animais, lavradores, criados e a multidão que assistia aos preparativos da Lavoira dos Cães. 

Pegou na vassoura de giesta que o Naifa, que fazia de sacristão, levava dentro da lata de água benta, e espargiu as pessoas que conseguiu atingir á sua volta. Disse umas palavras que não me lembro e ficou quedo. 

Os lavradores pegaram nos engaços de dentes de pau e sacholas de crista, que iam dentro da carripana puxada pela jumenta do Naifa, e começaram a fingir que arranjavam o caminho. Aquele por acaso, estava bom. 

Era o caminho principal da freguesia. Duns tantos e tantos metros o cortejo parava, para o Sr. Abade fazer mais uma benzedura. Os forasteiros deliravam e faziam grande galhofa. O povo da freguesia sentia-se feliz por ver a festa cheia de gente. 

 O Sr. João Tendeiro que fazia figura do São Bartolomeu, impávido e sereno vigiava a multidão, porque era o dia 24 de Agosto, tinha dado liberdade ao Diabo para andar à vontade, mas a qualquer momento podia vir estragar aquele trabalho. 

Ao chegar perto da casa do Sr. Alfredo do correio, o Diabo saiu do meio da sebe, da borda do campo da penouta, e como um corisco, enfiou-se no meio da multidão.

Eu não queria acreditar que aquele desgraçadinho, era o meu pai. Com umas alpercatas nos pés e as pernas ao léu negras como carvões. Na cara só se viam os olhos e os dentes a reluzir. Era todo negro. Metia medo a qualquer cristão. 

Era arrepiante olhar para aquela sinistra figura. Era um Diabo igualzinho aquele que o São Bartolomeu tem no altar junto ao Santíssimo.



Quando o Diabo entrou no meio do povo, foi uma explosão. Ele começou a passar as manápulas por cima dos ombros das raparigas. Elas assustadas gritavam: “Arrenego-te Diabo!” Com uma rapidez medonha, o Diabo movimentava-se de lado para lado. 

As suas diabruras deliciavam a multidão. Nalguns casos criava-se a confusão. Gritaria e correrias. O Diabo fazia arremetidas, para importunar os Lavradores e criados. Do largo do D’alem até ao portão principal do adro, que naquela altura, se situava em frente à torre do sino, lado Nascente, o Diabo com aqueles atractivos, proporcionou à multidão um inédito espectáculo, único em Portugal. Só possível ver, na freguesia do Rêgo. 

Desde que o Diabo entrou no recinto, o São Bartolomeu, não arredava os olhos dele. Vigiava todos os seus movimentos. Não admitia, que o Diabo arrebatasse qualquer alma penada que por ventura, andasse a vaguear no meio da multidão. 

Junto à entrada do portão principal do adro, à sombra dos ramos das árvores que saiam do adro, estava montada uma barraca de doçaria, onde várias pessoas compravam doces. O Diabo agarrou uma rapariga pelas costas, entrou no portão e tentou descer as caleiras e levá-la para o adro. A moça começou aos gritos, mas não largava o molho de rosquilhos que tinha na mão. 

 O São Bartolomeu retira a corrente da espada, e num gesto impressionante, com a espada fez uma cruz no ar, na direcção do portão principal do adro. Como fulminado por um raio, o Diabo larga a moçoila e vem muito mansinho encostar-se aos pés do São Bartolomeu, que imediatamente o prendeu com a corrente que tinha na mão. 

A partir daquele momento, o São Bartolomeu manteve o Diabo preso, até ao fim da Lavoura dos Cães. O Sr. João Tendeiro usava umas barbas muito grandes. Era muito beato. Para fazer de padroeiro, não precisou de barbas postiças. Como ia todos os dias à missa, os lavradores pagavam-lhe dois tostões por cada padre-nosso e uma ave-maria, que ele rezasse dentro da igreja pela alma dos seus mortos. Ele fazia aquelas rezas, antes de começar a missa ou o terço. Passava pela frente dos altares e citava em voz alta, o nome dos mortos por quem ia rezar, e rezava em voz alta. 

O mordomo Joaquim Lopes de Carvalho, escolheu para representar o Padroeiro, o homem mais beato da freguesia. E foi feliz na escolha, porque ele portou-se como um santo. Entretanto, os lavradores chegaram ao campo santo, mas antes de iniciar a Lavoura dos cães, o padre benzeu o campo e toda a multidão que o rodeava. Mergulhou a vassoura dentro da lata da água e espargiu a água benta por cima do campo e da multidão. 

Os guardas devidamente aprumados, bateram o tacão com a antiga bota cardada, e tomaram posição para evitar que a multidão entrasse no campo e prejudicasse os trabalhos da veçadada. Começou a lavoura. A parelha de cães puxava o pequeno arado, com um lavrador agarrado à rabiça, e outros lavradores, seguiam atrás, com as sacholas de crista a simular que picavam a ceita. 

O semeador com uma cesta cheia de baganha, enfiada no braço, lançava a semente à terra, mas estendia o lanço de forma a que a semente voasse por cima da multidão. Atrás seguia a junta de cabras a puxar a grade, com um lavrador a segurar o gancho que estava encaixado na grade e servia para ele manobrar a grade, para onde quisesse de forma a cobrir as sementes. Por fim, seguiam os lavradores com os engaços de dentes de ferro, para dar o último arranjo à terra. 

Depois de os criados percorrerem o campo ao comprido e ao través nas cabeceiras, com os cães a puxar o arado, as cabras a puxar a grade e os lavradores a comporem a terra, deram por terminada a sementeira.

O Abade leu um responso no missal que trazia e a seguir fez a última bênção. Mas daquela vez abusou da benzedura. Depois de benzer a sementeira do linho, enfiou a vassoura várias vezes dentro da caldeira e outra tantas vezes, sacudiu a vassoura por cima da aglomeração de pessoas que rodeavam o campo. Com aquela ultima benzedura, deu por terminada a festa.  Retiraram os jugos e cambões aos cães e cabras, carregaram todas as apeirias para a carroça do Naifa, que se encontrava ali com a jumenta e a mulher do Naifa a segurar o cabresto da jumenta.

A merenda

De seguida o mordomo Joaquim dos Pocinhos convidou todos os figurantes para a merenda, seguiram caminho abaixo, direitos ao largo do cruzeiro, onde a merenda ia ser servida. Aquele largo ficou superlotado. O campo em frente à residência do padre Gomes e casa do Sr. Albino do Bento, estava apinhado de gente. O povo queria saborear a Lavoira dos Cães até ao fim. Os figurantes encostaram as costas à borda do campo e virados para a casa do padre José Gomes, ficaram à espera da merenda. 

Junto ao cruzeiro estavam duas lavradeiras, com dois açafates cobertos com toalhas de estopa, e dirigiram-se para junto dos figurantes, para servirem a merenda daquela celebre festa.

Dentro dos açafates ,vinham cabaças e odres com vinho, uma broa de pão, cartuchos de tremoços, de amendoins, e penicos que faziam de infusa, para os figurantes beberem.

Até a merenda era simulada. Nunca em tempo algum, foi servida tal merenda, nas lavoiras reais. Aquela merenda, só podia ser uma merenda para a Lavoira dos Cães. 
 Foram servidos os tremoços, amendoins e broa, a seguir o vinho em penicos. 

Alguns figurantes, só molhavam a goela, porque os penicos quando passavam pelas mãos dos figurantes, Manuel Nunes, Abílio do Bento e João Tendeiro, confundiam penicos com canecas e despejavam o vinho dos penicos duma só golada. Tratava-se de três bebedores bem encascados, clientes assíduos da taberna do Zé D’Além. 

Como tinham bens ao luar, tinham crédito, metiam-se em bródios, comiam e bebiam sem relego, mandavam pôr no livro, como não “votavam tento á vida”, o calote aumentava cada vez mais. Quando as dívidas atingiam desmesurados montantes, os devedores eram chamados para liquidar as contas de imediato. 

Como não tinham dinheiro, pagavam com as casas, moutas, ou campos, quando os gados já não cobriam os valores. O Sr. Manuel Nunes vendeu a mouta situada em frente à escola. O Sr. Abílio do Bento, ficou sem a casa e campos da Seixosas. O Sr. João Tendeiro ficou sem o Lameiro e o moinho do arregontim (segundo lameiro, a seguir à ponte). 

Os meus pais a quem dediquei estas memórias, Diziam: “Quem ganha três e gasta quatro, não precisa de bolsa nem saco”. 
Com aquela merenda, assim terminou aquela Lavoira dos Cães. Devido à minha curiosidade de criança, aquela festa tão linda, ficou gravada para sempre na minha memória e por isso a narrei aqui, embora, com esquecimento de algumas cenas que já não me lembro, porque já passaram mais de 71 anos. 

A freguesia do Rego tem belezas raras, que a distingue das outras 21 freguesias. Infelizmente os poderosos meios de comunicação Social desconhecem aqueles tesouros. A RTP1 vai a Celorico de Basto, fazer a Praça da Alegria na festa anual, mas os seus repórteres só visitam os centros e ignoram verdadeiras relíquias de Portugal, que só existem na freguesia do Rego.


Ambrósio Lopes Vaz

Porque é
digno de lhe dar o devido destaque junto deste meu trabalho, As festas da Aldeia do Rego, Reproduzo este magnífico poema na íntegra, do amigo conterrâneo 

Luís Mário, (apenas corrigi os erros ortográficos), já publicado no Post Trabalho Comunitário.

"Gostaria de mandar um dos meus poemas da minha autoria escrito há 32 anos quando andava na Força Aérea em Tancos

REGO MINHA TERRA O ambiente de eterna saudade e a beleza das paisagens. Das fruteiras em flor. A presença constante e amiga de um sol bronzeador. A atmosfera do perfume das suas figueiras, cerejeiras, pessegueiros e outras. O seu saboroso vinho americano e suas ramadas. As elevações que criam magnificam paisagens naturais. Sucedem-se a horizontes planos. A amenidade do seu clima. As belezas das paisagens. Vestígios de onde viveram Lusitanos e outros povos que contam uma longa historia. A expressão de um povo apaixonado pela sua terra. O pitoresco das tradições das suas festas ligadas à agricultura. O sol sempre presente nas colinas solitárias e selvagens. A transparência do cristal do sol azul. Águas tépidas do rio. Paisagens onde a luz se transformam em cor. As excepcionais condições de toda a paisagem minhota. Os passeios pelos campos. Os divertimentos. A caça e a pesca. A alegria dos festejos populares e as danças em que os rapazes e raparigas rodopiam velozes nos passos do vira e foclor. O carnaval e suas romarias em festa. A lavoira dos cães, única realizada em Portugal ao seu padroeiro S.Bartolomeu. O S. João e S. Pedro. A ceia de Natal, tascas e bares. A gastronomia de pratos típicos e saborosos. O silêncio da frescura das árvores. A alegria de toda esta gente que vive feliz vivendo das suas tradições. Rego minha terra. Onde esteja sempre te recordarei os tempos de juventude. Recordarei o teu povo. As tuas tradições. Os teus vales e montes cheios de neve. O sol de Agosto sempre presente na tua paisagem. O luar de Agosto que ilumina os teus montes. As desfolhadas e tuas festas. Os piqueniques da Senhora do Viso. As noitadas de S.Bartolomeu. A tua lavoira dos cães. REGO que para sempre serás minha terra. Um abraço deste amigo LUIS MÁRIO”"

sábado, 2 de janeiro de 2010

As Festas da Aldeia do Rêgo

Dedico este modesto trabalho à memória dos meus pais, aqui na foto, com a minha esposa e os meus irmãos mais novos, Ilídio e Manuel.

* * * * *

O meu amigo Armindo Gonçalves, seguidor das Memórias do Rêgo, pediu-me para fazer um Post dedicado à Lavoira dos Cães da festa do São Bartolomeu do Rêgo, que se fazia na minha infância.

Aceitei. Mas entendo que não devo melindrar os outros santos que também têm as suas capelinhas em São Bartolomeu do Rêgo e nem todos os santos têm direito a festa.

Para mim, todos os santos, merecem o mesmo respeito, sejam de madeira, barro ou outros materiais.

Por isso, os lembro aqui, para eles saberem que o Ambrósio não os esqueceu.

Lembro também, a Senhora do Viso, que, embora não pertença à freguesia do Rêgo, porque a capela está situada na linha de divisão de Caçarilhe e Rêgo, o povo do Rêgo ao longo dos tempos, vem considerando a Festa da Senhora do Viso, como sendo pertença da freguesia do Rêgo.

Na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, naquele tempo, além da igreja, conheci três capelinhas, São Pedro, no lugar de Arbonça, Senhora da Saúde no lugar da Lameira e São Bento, no lugar de Quintela.

Cada santo tinha a veneração dos seus devotos, conforme as necessidades espirituais e credibilidade dos seus admiradores.

O São Bento que protegia as pessoas dos bichos peçonhentos e as livrava dos maus vizinhos do pé da porta, nunca lhe fizeram festa e até a capela estava abandonada.


                                  Capela de São Bento,  lugar de quintela

O Apostolo São Pedro, segundo as crenças e lendas antigas que através dos séculos vêm sendo transmitidas de geração para geração, é o responsável das chaves, para abrir as portas do céu às almas.

Apesar de ter uma missão das mais importantes, era a festa menos concorrida e quase passava despercebida, não fosse o povo de Arbonça, nunca deixar andar os seus créditos por mãos alheias.

No dia da festa havia missa na capela e de tarde, rezava-se o terço e faziam novenas.


                        Capela do São Pedro, Lugar de Arbonça
                   

A noitada era festejada pelos jovens e também alguns idosos.

A casa de lavoura, do Simão de Arbonça, era responsável por zelar a capela e nunca deixou que o dia de São Pedro caísse no esquecimento.



Antiga casa de Lavoura do Simão de Arbonça, foi remodelada e transformou se numa magnifica moradia 

A lavradeira, Arminda do Catalão, que casou com o Simão de Arbonça, foi durante anos, uma das responsáveis pela manutenção da capela.

Morreu no hospital de São João no Porto, e dois dias antes da morte, pediu-me para dizer à família, que determinada quantia de dinheiro guardada em tal sítio, (...) era proveniente de esmolas e promessas e pertencia ao São Pedro.

Transmiti aquela última vontade da Arminda do Catalão, à sua mãe Albininha do Catalão.

Curiosidade

O verdadeiro nome do apóstolo Pedro, era Simão, mas como havia outro apóstolo com o mesmo nome, os outros apóstolos chamavam-lhe Pedro e ficou para sempre conhecido por Pedro, e quiz o destino que na paróquia de São Bartolomeu do Rêgo, a Casa Simão de Arbonça, não deixasse cair no esquecimento o Apostolo Simão, que foi considerado o príncipe dos apóstolos.

Festa e Feira anual da Senhora da Saúde,lugar da Lameira

A Senhora da saúde, era a protectora da saúde dos seus crentes.

Não é por acaso, que das três capelas existentes na freguesia, a da senhora da saúde, é a mais importante e mais bonita. 

Era na capela da Nossa Senhora da Saúde no lugar da Lameira que se dizia a missa e se prestavam todos os actos fúnebres aos defuntos da Freguesia do Rego, antes de ser construída a atual igreja da paróquia do Rego, porque nessa altura a paroquia do Rego pertencia A POMBEIRO, no concelho de Felgueiras.

A igreja da paróquia do Rego, segundo os dados existentes só foi construída a partir do ano de mil setecentos e tal… foi a partir dessa data que a capela deixou de fazer lugar da igreja matriz. 




                                         Altar-mor da capela da Senhora da Saúde, lugar da Lameira

Depois da construção da Igreja, o senhor abade continuou a celebrar na capela, uma missa ao domingo, para o povo do lugar da lameira, pedroso e Arbonça, que ficavam mais distantes da igreja paroquial. 

Nossa senhora da Saúde, era a todo o instante, lembrada pelo povo. Era aquela santa, que nas horas de aflição, o povo se apegava.

Quando as doenças eram mais graves, os familiares prometiam à Senhora da Saúde, promessas bastante complicadas para cumprir.

Uma delas, era no dia da festa, deslocarem-se a pé, das suas casas, até ao recinto da capela, sem fala. 

Durante o percurso não podiam falar para ninguém.

Vinha gente de muito longe, chegavam a caminhar 60 quilómetros,sem falar,  para cumprirem as promessas sem fala. 

Aqueles e aquelas, que podiam falar, cantavam canções religiosas, “Queremos Deus”, “Miraculosa Rainha dos Céus” e outras canções religiosas.

As pessoas que iam a cumprir as promessa sem fala, levavam uma flor na boca, para não se esquecerem das promessas e dar sinal às pessoas que se cruzassem no caminho,que,iam a cumprir a promessa sem fala.

A festa era muito concorrida.Com uma pomposa procissão, organizada com todos os requisitos, saía da capela e seguia o trajecto até ao estradão que ia para Pedroso, e depois regressava à capela. Durante o percurso a estrada nacional era cortada ao trânsito e originava longas filas de carros, porque era a única estrada que existia.

Os forasteiros vinham de vários concelhos. Alguns vinham em grandes ranchos, com as suas tunas, características das regiões donde moravam. Traziam harmónicas, ferrinhos, realejos, tambores, gaitas e violas. Nos lugares onde passavam, o povo saia das casa para os ouvir.

Uns vinham para cumprirem promessas e outros para fazerem os seus negócios, porque no dia daquela festa, havia de tudo.

O dia da festa, era também dia de feira anual, onde se vendia e comprava todo o tipo de gado, bovino, caprino, ovino, galináceos, etc…Vendiam também alfaias para a lavoura, arados,gadanhos,engaços,forquilhas,picaretas,alviões,machados,crivos,peneiras,roupas, calçado etc.

O dia em que conheci a festa e a feira anual, foi muito feliz para mim. 

Nunca mais o esqueci.

Na véspera da festa, a senhora Albininha do Catalão, pediu à minha mãe, se deixava eu ir “chamar” uma junta de vacas, das cortes, situadas na mouta da mangarela, até à feira da Lameira.

                                       Feira de Gado Barrosão. Com a devida vénia do Autor.

A minha mãe autorizou. A senhora Albininha disse à minha mãe, para eu ir ter a casa dela e que jantava lá e quando vendesse as vacas, que me vinha trazer a casa. Ao fim da tarde, a Senhora Albininha, foi-me entregar á minha Mãe.

A casa onde morava o Sr. António Catalão e Sr.ª Albininha e onde nasceram as filhas, Elvira e Arminda, ficava junto à casa da tomada, ao fundo do caminho, que vinha do poço da fonte, sair aos currais, e que ainda hoje existe. Embora intransitável.

Todo acanhado, lá apareci e fiquei à porta, como de costume, quando ia pedir a esmola. A Senhora Albininha logo que me viu, mandou-me entrar e sentar-me num banco, junto à mesa. da cozinha..

Era uma mulher destemida e muito somítica, mas, naquele dia tratou-me como família. Comi comida igual à deles. Foi um fartote. Tirei a minha barriga de misérias. Nunca mais me esqueci daquele dia.

Vim mais tarde a conviver com as feiras mensais, duas por mês e a festa e feira anual, quando fui servir para a Lameira, na casa do Albino do Alves, (conhecido por “penico”) casado com a senhora Maria do Joana, filha dos Joanas do lugar de Bolada, que me contou varias histórias reais, do meu avó e do meu visavó, paternos,  de Bolada.

Esta casa de lavoura, era muito conhecida, no lugar da lameira, porque tinha um boi barrosão, de cobrição e os lavradores e caseiros, do Rego e doutras freguesias, iam lá levar as vacas ao boi.


                                                 Com a devida vénia do Autor.

O patrão, nos dias de feira, ia para lá e só vinha embora quando a feira acabava, mas por vezes era obrigado a vir mais cedo. Ele fazia de intermediário na venda e compra do gado para receber a sua comissão. Durante a tarde, como gostava da pinguinha, juntava-se aos feirantes que iam para as tascas petiscar e beber umas canecas. Ao fim da tarde estavam todos enfrascados.

Como todos se faziam acompanhar da racha de lódo, por dá cá aquela palha, começavam a zaragata. Era rara a feira que não houvesse barulho e alguns saiam de lá com uma grande polinheira.

O meu amo, em vez de receber a paga do seu trabalho, era mimado com umas landreiradas e aparecia em casa mais cedo, com a cabeça partida, e o canastro todo empenado. Era muito fraquinho no jogo do pau. Nunca aprendeu o contra-jogo.Embora, todos os domingos, lá em casa, era feito o ensino do jojo do pau aos jovens. 

Festa da Senhora do Viso

A capela da Senhora do Viso está construída na demarcação das freguesias de Caçarilhe e Rêgo, mas pertence a freguesia de Caçarilhe,  porque está situada dentro do seu limite.

                     Capelas da senhora do Viso                                     com a devida vénia do autor



A sua localização é magnífica. Do seu recinto, observam-se em todo o seu redor, belas paisagens de Celorico de Basto e doutros concelhos.

A minha avó, mãezinha de Bolada, era muito beata, ia todos os dias a missa. Contou-me que a senhora do viso, tinha oito irmãs, que  nasceram nove dum ventre, e como foram todas santas, "foi combinado" construir as capelinhas, onde ficassem a ver umas às outras e na altura falou no nome delas, senhora da graça, senhora da saúde, senhora das neves etc.

Segundo a lenda, que vem sendo contada, de geração em geração, a Senhora do Viso é responsável pelo nosso juízo.

Quando eu dizia palavrões, considerados pecados, ouvi muitas vezes as pessoas idosas e a minha mãe, dizerem: Deixa-te de tolérias, o pão de Deus cria de tudo. 

Pede à Senhora do Viso que te dê juízo.

Foi sempre uma festa muito frequentada por gente de todas as idades, das freguesias de Celorico de Basto e dos concelhos vizinhos. Os romeiros vinham ali satisfazer variadas promessas. Dar a volta ao redor da capela de joelhos, novenas, que era dar nove voltas ao redor da capela, rezar o terço junto ao seu altar e outras orações.

Havia também a promessa do morto, que era meter a pessoa viva, dentro dum caixão, tal e qual como se estivesse morto e dar as voltas prometidas com o “morto” dentro do caixão, ao redor da capela, como se fosse um funeral, acompanhado por varias pessoas

Os caixões eram alugados ali no recinto pela Comissão de Festas, aquelas pessoas que tinham de cumprir aquele tipo de promessas.

Aparecia naquela festa, o primeiro vinho doce. Era transportado para o recinto em pipas colocadas em carros de vacas, onde era vendido em tigelas e canecas.

Alguns romeiros, levavam cabaças e odres para comprar vinho doce, para trazer para casa.


                                                                        Cabaça

 Odre

Naquela época e naquele dia, eram ali vendidas melancias, melões e outras frutas e também vários doces, cavacas, rosquilhos, rebuçados de mel etc. Além das tasquinhas de comes e bebes cobertas por toldes instaladas no recinto.

A ordem era assegurada pela Guarda Nacional Republicana, que tinha grandes dificuldades em manter o recinto da festa sossegado.

A certa altura perdia mesmo o controle e limitava-se a proteger a capelinha de qualquer profanação ou estragos.

Naquela data, era na festa da Senhora do Viso, que o povo de São Bartolomeu do Rego, fazia os ajustes de contas, que se iam acumulando durante o ano. Roubo da namorada, tornas de água, negócios, falta de cumprimento da palavra, e outras pulhices.

No acto da infracção, o lesado lançava a ameaça. No Viso pagas.

Todos os homens e moços novos que iam à festa, iam munidos, cada um, com a sua racha de lodo, e quem não levava a racha de lodo, comprava no próprio recinto.


                                                   Com a devida vénia do Autor.

 Pelo caminho para a festa, aqueles que iam já com intenções de saldar contas, por vezes cruzavam-se com os “devedores” e seguiam todos juntos na grande galhofa, fingindo serem todos amigos.

No recinto iam gozando a festa e saboreando os petiscos acompanhados por uns bons cartilhos de vinho.

Depois de bem bebidos, ao fim da tarde começavam as provocações. Os provocadores; de tigela na mão, cheia de vinho, dirigiam-se aqueles que pretendiam aquecer o lombo e ofereciam-lhe o vinho. Como eles não aceitavam, os desordeiros esbarravam-lhe com a tigela cheia de vinho, nas bentas. Outras vezes ao passar davam-lhe um empurrão.

As rachas começavam a trabalhar e o povo fugia para não ser atingido. 

A zaragata estendia-se por parte do recinto.

A Guarda Nacional Republicana, como não conseguia pôr termo à desordem, sacudia-os para fora do recinto da festa.

Mas, o jogo do pau


                                         Com a devida vénia do Autor.

continuava pelos caminhos abaixo, e quando algum tropeçava nas pedras, perdia o equilíbrio do jogo e era-lhe fatal, levava umas boas estadulhadas até ficar desacordado.

Encostavam-no a uma borda e ele ficava a ali a sonhar com coisas bonitas, até desacordar ou aparecer algum caminhante que o socorresse.

Porém, se o ferido não acordasse mais e ficasse a dormir eternamente, para o lembrar, era colocada naquele sitio, uma cruz ou umas alminhas.

Na Senhora do Viso, não dizia a letra com a careta, porque quando começavam a bater, malhavam sem dó nem piedade. Tinham pouco juízo.



                             Ambrósio Lopes Vaz e minha esposa Maria de Lurdes Marques Fernandes Caseira


O meu carocha estacionado junto a borda do Pereira e a casa da minha mãe numa das minhas deslocações a casa da minha mãe, seguintes ao falecimento do meu pai.

 





Ambrósio Lopes Vaz

domingo, 22 de novembro de 2009

A Origem do Blog "Memórias da Freguesia do Rêgo"

... de como o Inventário de Coisas Antigas vem dar voz ao testemunho de Ambrósio Lopes Vaz que através de pergaminho de seu nome blogue da televisão relata as mui sofridas misérias por que passou há cerca de setenta anos no reyno de Portugal e por nos paresser verdade e para que possa sua voz ser escutada por todolos e todalas cujo maior sarillo será porventura o de saber como iram pagar as prestações da viagem a Punta Cana aqui he transcrição de suas mesmas palavras: 

"O indigente era considerado escravo com direito á vida, perante as autoridades policiais da aldeia (regedor e cabos de secção) ele não tinha nenhuns direitos era vigiado.por as ditas autoridades.Foi isto o que aconteceu á minha família e a outras da aldeia . fomos considerados indigentes.

Vou contar alguns casos da minha infãncia.Mas antes de o fazer vou idenficar a aldeia e a familía .Chamo-me Ambrósio Lopes Vaz, nasci no lugar de Vila-Boa,freguesia do Rêgo,concelho de Celorico de Basto,numa pequena casa de telhado de colmo com uma unica divisão, onde nasceram dez filhos .

A casa não tinha chaminé,nem janelas,só mais tarde é que foi aberto um postigo,o fumo saía pela porta da entrada,o chão da casa era de terra ,como não havia latrina e havia só um penico e as diarreias eram constantes ,as necessidades eram feitas dentro de casa,a minha mãe cobria com cinza as fezes e depois raspava o chão  com uma sachola, para apanhar as fezes. 

Dentro de casa, por baixo da maceira onde se amaçava o pão, existiam capoeiras de galinhas e casota de coelhos, dentro da casa, havia duas camas, separadas por um pequeno taipal, mas isso não evitava que eu tomasse conhecimento das relações sexuais dos meus pais. O nascimento dos filhos era feito junto á lareira, a minha mãe deitava-se no preguisseiro e os filhos ao nascer, caiam nuns farrapos e a seguir a minha mãe cortava a invigueda e lavava a criança e os panos eram lavados e guardados para o próximo nascimento .Nós só assistiamos aos nacimentos se fosem á noite ou se chovesse, caso contrário o parto era feito á porta fechada. 

A nossa alimentação, era apenas caldo e por vezes era só uma tigela, porque quando  pediamos a nossa mãe, mais uma malga de caldo, não havia, Ela dizia: o resto que está no pote, é para o pai,que vai ganhar a jorna. No inverno a sopa era feita de labrestos, porque não se arranjava couves.

As doenças eram frequentes,sarampo,sarna etc.Não havia higiene,nem limpeza, os piolhos eram aos montes,por vezes eramos afectados pelas duas qualidades os do corpo e os da cabeça. As pulgas e os percevejos, eram aos montes, tinhamos o nosso corpo todo cravado de ferradelas.

A partir dos quatro anos, iamos  pedir esmola, pelos lugares da nossa freguesia e por outras. Duma vez eu andava a pedir e vi uma galinha com uma espinha de bacalhau na boca, que tinha tirada duma estrumeira e eu tirei-lhe a espinha, para eu comer, tal era a fome que eu tinha.,pois naquele dia, não tinha conseguido nenhuma esmola de pão, mesmo cheio de velore como era costume.O que havia em casa,para comer, era sempre sal num caixoto e nós comiamos o sal ás mancheias. 

logo, que tivessemos algumas forças e os nossos pais conseguissem arranjar amos para nos pôr a  servir, iamos servir, o primeiro ano, trabalhavamos só pela mantença e deveres, nos anos seguintes, ganhavamos a soldada e deveres.Como eramos menores,ainda crianças,quem  ajustava a soldada e os deveres, que os amos tinham que pagar, soldada no fim do ano e deveres durante o ano,eram os pais.
Andei a sevir na casa da laranjeira, lugar de Casadela, Fafe, na casa dos lopes do lugar de soutelo, Ribas, Celorico de Basto, casa do Albino Alves, lugar da Lameira, Rego- Celorico de Basto e casa das carreiras, Jugueiros, Felgueiras.

Aos 13 anos, vim servir para cidade do Porto e concelho de Matosinhos e entrei noutro tipo de escravidão. Éra vendido na feira como os animais e que eu tenha conhecimento, só havia feiras dos moços, nos concelhos do Porto e Matosinhos. (...)"
"(...)Todos os indigentes eram avisados por edital e como eram analfabetos o edital era lido na missa pelo Sr.Abade e dizia, que tinham que se apresentar na sede da junta para trabalharem de sol a sol , de graça e seco, sem qualquer alimentação (e isto nos dias grandes, que era para render mais),para darem .um dia de trabalho ao Estado para comporem os caminhos e quelhas. 

Os lavradores e caseiros, colaboravam com os carros puxados por vacas e por vezes zorras quando se tratava de pedras maiores e que eram partidas no monte . 

Os Indigentes apresentam-se aos cabos de Secção e estes chamavam pelo seu nome e os que faltassem e não justificassem a falta, eram enviados ao tribunal da comarca para serem condenados por não comparecerem. 

A condenação era baseada no imposto de trabalho.A jorna era de UM ESCUDO POR DIA quando tinham trabalho, mas, neste caso, tinham de trabalhar de graça e nem sequer a comida lhes davam,

Por essa falta ao trabalho, o tribunal condenava o faltoso a pagar ao Estado, DEZ ESCUDOS E CINCOENTA CENTAVOS, assim aconteceu ao meu avô e padrinho, Francisco Lopes Vaz, era manco e mesmo aleijado, e não podia trabalhar,as autoridades administrativas conheciam bem a situação do meu avõ , mesmo assim, enviaram o processo para o tribunal da Comarca, que o condenou a pagar 10$50. 

Tenho em meu poder, o original dessa condenação. " desenhos: Leonardo DA VINCI Publicada por gisela cañamero em 1:58 PM Etiquetas: os indigentes 

  Resolvi publicar nas Memórias do Rêgo estes meus comentários originalmente escritos sobre uma notícia da rtp, que foram transcritos para o blog de Gisela Cañamero pela própria, e que foram lidos pelo meu Amigo Dinis Carvalho que me alvitrou a escrever as Memórias do Rêgo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Venda do Zé d'além

A Venda do Sr. José Alves Monteiro e da Sr.ª Florinda Nogueira, era a Venda mais antiga, a mais procurada e frequentada pelo povo da freguesia e pelos caminhantes que por ali passavam a caminho das feiras da Lameira e Fermil ou da feira de Carvalho e Cabeceiras de Bast, ou pelos romeiros que faziam grandes caminhadas, para cumprimento de promessas, e tinham de andar muitas léguas até chegar às capelas onde estavam as santas da sua devoção.

A localização da Venda, junto à Igreja paroquial e ao caminho principal que ligava as freguesias de Borba e Carvalho e concelho de Felgueiras, era passagem obrigatória.

A casa era composta por rés-do-chão e primeiro andar. A venda era situada no rés-do-chão, onde fazia de mercearia e taberna.

Ali se vendia de tudo: mercearia, vinhos, aguardente, petróleo, azeite, vinagre, bacalhau, etc... Até fazia de botica, vendia linhaça, mostarda, mercúrio, álcool e remédio para matar piolhos e percevejos. Embora o povo usasse remédios caseiros, precisava daqueles auxiliares, para colmatar as graves doenças, que muitas vezes atingia o povoado.

A venda era abastecida por mercadorias provenientes de grossistas que ficavam a muitas léguas de distância: Alto da Lixa, Amarante, Fafe e Guimarães. O transporte era feito pela égua castanha, que além de prestar aqueles valiosos serviços, fazia o serviço agrícola, puxava as alfaias e fazia mover o engenho de canecos para regar o campo em frente e o campo ao lado da venda.

Ao lado da casa, havia um grande largo com alguns carvalhos e grandes pedras assentes no chão, onde estavam cravadas várias argolas de ferro, para os caminhantes prenderem as vacas, o gado cavalar, as ovelhas, cabras etc., enquanto iam beber umas canecas de vinho e petiscar umas iscas, postas de bacalhau frito, ou umas lascas de bacalhau cru, acompanhadas com um naco de broa ou o celebre trigo de Padronelo de quatro cantos, que por vezes já tinha oito dias.

Junto ao largo, havia a casa do Sr. Alfredo do correio, que também era muito frequentada. (Falarei desta casa quando falar das profissões).

Aos negociantes de gado, homens endinheirados, era reservada uma sala no primeiro andar, onde eles petiscavam à sua vontade e acertavam as suas contas, sem estarem a ser vigiados pelos mirones da ralé.

Quem atendia aqueles senhores, era a senhora Florinda, que aproveitava para fazer outros serviços ocasionais. Porque ali era a sala onde se faziam as permutas.

Naquela sala, a um canto, existiam duas tulhas devidamente
compartimentadas, para receber milho, centeio, trigo, batata e farinhas ou outros produtos.

As pessoas levavam os taleigos cheios de cereais e ali eram medidos ou pesados, retirada a respectiva maquia, trocavam por farinha, outras vezes os produtos eram trocados por mercearia, arroz, macarrão, açúcar, café, vinho, azeite, bacalhau, etc...

O arroz, açúcar, macarrão, etc... eram ensacados nuns cartuchos feitos dum papel muito grosso e colados com cimento. Aquelas embalagens eram usadas em todas as vilas e cidades do país. Pagavam-se aqueles cartuchos colados com cimento, ao preço do artigo que se comprava. Mas estavam devidamente autorizados pela lei vigente.

Eu passei algumas vezes por aquela sala, quando ia trocar os maquieiros, que a minha mãe recebia, como paga do linho e lã que fiava, para os lavradores do lugar de Vilaboa. (Casas de lavoura, Catalão, Pocinhos, Pereira, Nunes, Tomada e Cunha)

Quando ia em dias de feira, eu via na sala aqueles senhores e o largo estava cheio de animais ali presos naquelas argolas.

A venda do Zé d’além nunca estava vazia. De manhã vinham homens e por vezes também algumas mulheres. ”matar o bicho,” com um copo de aguardente e um canto de trigo, ou um naco de broa que já traziam nos bolsos.

Os fumadores matavam o bicho e compravam um maço de cigarros “fortes velhos” que naquela altura custava dois tostões. Os mais endinheirados compravam a carteira dos cigarros “Definitivos” ou “Provisórios”

À tarde apareciam os viciados no vinho. Eram fregueses habituais. Na venda do zé d’além não havia fiados para borracheiras. Só eram permitidos fiados àqueles que tivessem bens ao luar.


                                        Com a devida vénia do Autor


Acontece, que todos se preveniam com os tostões no bolso, para pagar os cartilhos ou as canadas do vinho que iam beber. Já sabiam as regras da casa.

Aqueles que não conseguiam os tostões, levavam os bolsos da jaqueta cheios de ovos, que retiravam dos ninhos das galinhas, e a Senhora Florinda fazia a permuta.

O meu avô paterno, Francisco Lopes Vaz, como era um bêbado bem encascado, bebia umas boas canadas até ficar com a medida certa: Carraspana Completa. Suponho, ter sido ele, o melhor freguês de vinho e aguardente da venda do d’além naquele tempo.

O Sr. Monteiro contou-me, que, "quando o meu pai foi á inspeção militar, que se realizou em Celorico, que o meu avô o acompanhou e que no fim da inspeção, os pais e filhos, residentes na freguesia do Rego, todos foram beber e mastigar, mas o meu avô, negou-se a  fazer-lhe companhia. Disse: Só bebo, quando chegar á venda do Monteiro. Logo que entrou na venda, mandou vir um garrafão de vinho e umas lascas de bacalhau cru, começou a mastigar e a beber, ao fim de uma hora, o garrafão estava vazio." 

Todo o dinheiro que ganhava no arranjo de guarda-sóis, loiça partida, e fósforos que fazia clandestinamente, era para vinho. Quando acabava o dinheiro, pedia à minha avó. Se ela não lhe desse o dinheiro, levava uma grande tareia.

O meu avô ia de tarde para a venda e só vinha embora quando a taberna fechava ou quando já não cabia mais vinho no bucho.

Morava no lugar de Bolada. No trajecto do caminho até casa, fazia algumas paragens. A primeira era no cruzeiro, junto á residência do Abade José Gomes Júnior, sentava-se nas caleiras do cruzeiro e gritava: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”. Repetia aquelas palavras até o padre Gomes vir à janela.

Com os olhos fitados naquela janela, quando a via abrir, mudava de ladainha e no mesmo tom gritava: Viva o Padre-nosso. Viva o nosso padre!”. O Sr. Abade abria a janela e dizia: “Ó pistola vai embora! Não sejas malcriado! Eu mando-te prender!”. Fechava a janela e o meu avô voltava à primeira forma: “Padres e Sapos é caçá-los e matá-los!”.A srª Albertininha também o mandava embora, mas ele não ia.

O Sr. Albino do Bento (lavrador que morava junto à casa do padre) vinha avisar o meu pai daquilo que se estava a passar, e pedia-lhe para ele retirar dali o meu avô e levá-lo a casa, porque estava a tratar mal o Sr. Abade.

Quando a poça das lebandeiras estava cheia, como o caminho passava pelo meio da poça, não se podia passar, porque a água empossava até meio da quelha da Costinha, e o meu avô vinha para a nossa casa e dormia no preguiceiro junto à lareira.

Uma vez, o meu avô, quando vinha da taberna, em vez de seguir o caminho, entrou no portão do adro, que ficava a escassos metros da Venda, rodeado pelo lado de dentro, por duas grandes austrálias.


                                   A igreja, com o adro a fazer de  cemitério. 

Naquele tempo ainda não havia cemitério. Os mortos eram enterrados à volta do adro. Havia dois grandes portões muito altos, um em frente à torre e outro junto ao caminho do passal. Os portões costumavam estar fechados, mas naquela noite o portão de cima estava aberto. O meu avô vinha com uma grande touca e entrou pelo adro dentro, e, como o portão de baixo estava fechado, nunca mais atinou para sair do cemitério.

Agarrado ao cajado que era seu companheiro permanente, começou a tropeçar nas campas, tombou e ficou deitado sobre elas. Começou aos gritos, com aquela voz roufenha, própria daqueles borrachões empedernidos.

Entretanto, alguns companheiros que tinham ficado na venda ouviram os gritos desesperados, que vinham do adro e deram o alerta.

Sr. Joaquim Lopes de Carvalho (Joaquim dos Pocinhos), um homem muito corajoso que não acreditava em “lobisomens”, agarrou na sachola de crista e acompanhado com outros dois, entraram pelo adro dentro ao encontro daquela “alma penada”.

Quando o meu avô os viu, gritou: “Sou o Pistola! Não me matem! Tirem-me daqui!” O Sr. Joaquim dos pocinhos retirou-o do adro, que fazia de cemitério, levou-o para a nossa casa e contou aquela cena aos meus pais. Lá dormiu mais uma noite no preguiceiro.

Daquela família dos d’além, conheci três filhos: o Manuel, que estava numa Venda na Lameira, o Armindo, que casou com a Senhora Maria Joaquina que vendia trigo e o mais novo, José Alcídio Alves Monteiro.

Os dois filhos mais velhos tinham pouca apetência para o negócio. O Manuel  estava na venda do lugar da Lameira, abandonou o negócio e emigrou para o Brasil. O Sr. Armindo, como viveu com os pais muitos anos na Venda, também gostava de saborear o bom vinho e isso arredou-o das lides do negócio.

O filho mais novo José Alcídio Alves Monteiro, já nasceu talhado para o negócio. Ainda muito jovem, já era o braço direito dos pais. Ouvi algumas vezes elogios dos pais, que iam perdendo forças, devido à sua avançada idade.

José Alcídio Alves Monteiro, andou na tropa juntamente com o meu tio Armindo, que, apesar de ser mais velho, como era refratário, teve de fazer o dobro do tempo de tropa. O Sr. Monteiro era amigo dos Pistolas de Bolada e Vila Boa. Quando vinham passar o fim-de-semana a casa ou de licença vinham sempre os dois, eram muito amigos.


O meu tio Armindo Lopes Vaz

Quando acabou a tropa, os pais entregaram-lhe as rédeas do negócio. O largo desapareceu para dar lugar à construção duma ampla mercearia e mais tarde a casa em pedra que servia de dormidas.

Casou com a Senhora Gravelina, que morava no lugar de Pedroso. A nora seguiu os passos da sogra Florinda, foi uma excelente aprendiz e veio a ser o braço direito do marido na condução dos negócios da mercearia, que nessa altura era adega, mercearia, talho e drogaria.

Fundou a funerária de “José Alcídio Alves Monteiro”. A célebre égua castanha era o meio de transporte de todo o material para armar os velórios e vestir os “anjinhos” nas procissões.

Os caixões eram transportados por homens e por vezes por mulheres tanto para os lugares da freguesia como para outras freguesias, onde o Monteiro fizesse os funerais. O meu pai chegou a levar caixões a várias freguesias e também a ir buscar mercearia à Lixa, para a Venda do Zé d’além. Vinha carregado, caminhando por carreiros e caminhos até Vilaboa.

O Sr. Monteiro era um homem popular e muito conhecido na Vila e concelhos vizinhos.

Foi um grande amigo dos meus pais. Salvou o meu pai de se enforcar num carvalho em frente à casa de Júlio Alves da Mota, no lugar da Lameira, no dia em que o filho João Baptista Alves da Mota se ordenasse padre e celebrasse a sua primeira missa, por causa do Sr. Júlio Catalão se recusar a fazer a escritura da nossa casa para o nome dos meus pais.

O nosso casebre tinha paredes de meia acção com a cozinha da casa do Catalão, que era pertença do Sr. Manuel Alves da Mota e sua esposa Rosinha do Catalão.


A casa dos meus pais é  a parte que está recuada,  a outra parte, mais á frente, também coberta de colmo é a cozinha da casa do catalão.

Porém, nunca a nossa casa foi pertença da casa do Catalão, no entanto veio parar às mãos do filho, Júlio Alves da Mota, por um erro grave dos meus pais.

Aquele casebre pertencia à casa do Pereira, e foi comprada aos pais do Sr. António Pereira, Srs. Francisco Alves Pereira da Mota e esposa Claudina Lopes de Carvalho, pelos meus bisavós José Teixeira e Joaquina de Sousa, pelo preço e quantia de vinte mil reis, como consta do registo por Titulo Oneroso nº. 13, respeitante a Importância da Contribuição, Imposto de Viação e Selo, no total de um mil reis e 697 reais, paga em Celorico de Basto em 15 de Julho de 1878, como consta na Escritura celebrada pelo Padre da freguesia do Rêgo, Albino José Lopes de Carvalho

Foram testemunhas daquele acto, os lavradores, João Lopes de Carvalho Basto, Joaquim Lopes Cerqueira, ambos do lugar de Vila Boa e João Lopes Marinho do lugar da Costinha, todos da freguesia do Rêgo.

A dita casa veio a ser herdada pelos meus avós maternos, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves Magalhães e mais tarde vendida aos meus pais em 02 de Fevereiro de1932

pelo preço de setecentos e sessenta escudos.

Acontece, que o meu pai tinha ficado isento do serviço militar e como tal, tinha que pagar a taxa militar até aos quarenta e cinco anos, mas nunca pagou. Passou a relaxo e se registasse a casa em seu nome, o estado ficava-lhe com ela.

A minha mãe, grávida de oito meses do segundo filho (Ambrósio), endividados para pagar a casa e despesas do processo de Escritura, não arriscaram em fazer a escritura da casa para o seu nome.

Como trabalhavam os dois na casa do Catalão, a minha mãe, criada da casa, e o meu pai, criado do filho Júlio, que era negociante de milho (o meu pai andava de casa em casa a medir o milho que o patrão comprava), pediram conselho ao patrão Júlio.

O patrão Júlio Alves da Mota, ainda moço solteiro, mas já com calo da vida como bom negociante que era, aconselhou os meus pais a fazerem a compra e pagarem todas as despesas, mas os vendedores meus avós, Avelino Alves Teixeira e Emília Alves de Magalhães fazerem a escritura em nome de Júlio Alves da Mota, e quando o meu pai fizesse 46 anos, o patrão Júlio passava a dita casa para o nome dos meus pais







Os meus pais aceitaram. Desde o dia do casamento que habitavam a casa. Andavam os dois a servir, mas à noite vinham lá dormir. Nasceu lá a 1ª filha Maria e passados 30 dias da celebração da escritura de compra, para o nome de Júlio Alves da Mota (01 de Março de 1932) nasceu o filho Ambrósio, Autor do presente blogue.

Entretanto, os anos foram passando. O patrão Júlio casou com a Senhora Emília Alves e deste casamento nasceram vários filhos, um chamado João Baptista Alves da Mota.

Quando o meu pai fez 46 anos, ano de 1954, pediu ao antigo patrão Júlio Alves da Mota para fazer o favor de passar a casa para o nome dos meus pais. O Sr. Júlio disse-lhe que ia pensar no assunto e depois dizia alguma coisa.

O tempo foi passando. O Júlio Catalão foi protelando e nunca mais se resolvia fazer a escritura da casa para o nome dos meus pais. Os meus pais iam ficando cada vez mais desesperados. Viam a casa que compraram com tanto suor e lágrimas, onde criaram os dez filhos, onde sempre viveram, ser-lhe retirada pelo seu antigo patrão.

Com efeito, ao fim de 18 meses de adiamento, o Sr. Júlio Alves da Mota, disse ao meu pai, que não fazia a escritura. Que o irmão António Alves da Mota, tinha interesse na casa, até porque tinha paredes de meia acção com a casa dos meus pais..

Foram 7 anos muito penosos para os meus pais e seus filhos. O meu pai desnorteou. Andava de cabeça perdida. Dizia “Como é possível trazer um filho a estudar para padre e ficar-me com a casa? No dia que o filho disser missa nova, enforco-me num carvalho em frente à casa do Júlio Catalão na Lameira!”. Tentei tirar-lhe aquela cisma da cabeça. Não consegui. Bem lhe falava que pôr termo à vida era contra a Lei de Deus. Ele não ouvia.

A minha mãe passava os dias a chorar. Escrevia-me a pedir ajuda. Avisava-me que se ia dar uma grande  desgraça. O nosso pai ia-se matar.

A minha mãe pediu ao Sr. Monteiro, (Zédalem) para falar com o Júlio Catalão e pedir-lhe para fazer a escritura e evitar aquela desgraça no dia da Missa Nova do Padre Baptista.

O Júlio Catalão acedeu ao pedido do Sr. Zé d’além, mas com a condição de mudar as confrontações a favor do irmão António Alves da Mota e a escritura foi celebrada nessas condições em 20 de Novembro de 1961.

João Baptista Alves da Mota foi ordenado padre no ano seguinte, 1962.

Acompanhei o Padre João Baptista Alves da Mota, desde criança.

Nos últimos dois meses de vida do avô dele, Manuel Alves da Mota, eu fui incumbido de, durante o dia, permanecer junto dele no seu leito, a fim de enxotar com um ramo de bucheiros as moscas que lhe pousavam na cara e de lhe molhar os lábios com um pano molhado a fim de lhe aliviar o sofrimento, porque durante o dia a esposa, Sr.ª Rosinha ia cultivar, tornar as águas, etc. para os campos dos castanheiros, que reservou aquando das partilhas com os três filhos, Emília Alves da Mota, Júlio Alves da Mota e António Alves da Mota.

Quando o avô morreu, o padre João Baptista veio para junto da avó, para lhe fazer companhia e ficar mais perto da escola, onde entrou passado um ano. Eu andava na segunda classe, quando ele entrou para a escola, e ensinei-lhe as primeiras letras.

Muitas das vezes, ele dividia comigo um pedaço de broa que a avó lhe dava e até a merenda.

Migrei para o Porto, mas não perdi de vista aquele meu conterrâneo na sua missão de padre e fiquei espantado com o carácter e acção deste homem como pároco, porque seguiu o evangelho de Jesus Cristo de perto e esteve sempre do lado dos pobres, tomando partido por estes, o que o levou a ter as suas missas vigiadas pela PIDE.

Se não tivesse surgido o 25 de Abril, não sei se o padre João Baptista Alves da Mota não teria entrado nas masmorras das prisões fascistas.

O Padre João Baptista é um Sacerdote totalmente diferente da esmagadora maioria dos seus colegas. Prestigia a sua Igreja.

Não tinha intenção de narrar aquele triste episódio que atingiu a nossa família, mas como narrei a venda do Zé d’além, aquele doloroso incidente, também está directamente ligado aquele grande homem, José Alcídio Alves Monteiro, a quem presto a minha homenagem, porque foi fundamental para resolver aquela situação tão delicada.

Ambrósio Lopes Vaz

  Caros amigos, amigas e seguidores do blog “Memórias da freguesia do Rego- Celorico de Basto”, comunico a todos que as “Memórias da fregues...