segunda-feira, 11 de outubro de 2021

 Remédios  Caseiros 

O concelho de Celorico de Basto  era composto por 22 freguesias, muito atrasado em todas as infraestruturas básicas, esquecido pelas chefias do poder, quase que nem constava no mapa. Tal era o marasmo a que tinha sido votado.o povo sujeitava-se a tudo.

Quando surgiu o VINTE CINCO DE ABRiL, só um quinto do concelho,  tinha corrente elétricaquatro quintos, ainda viviam ás escurascusta-me descrever estas verdades, porque gosto da minha terra, mas estou a descrever as Memórias da freguesia do Rego, não posso deturpar a verdade. 

Mesmo que fira a nossa sensibilidade, nunca tenhámos medo de dizer a verdade.

A freguesia do Rego, Rural, 100% agricola, cercada pelos montes do Alijó, Lameira, Quintela e Lamas,composta por lavradores, caseiros-rendeiros, criados de servir, jornaleiros/as,  alguns artesãos e familias de indegentes. 

Era uma freguesia, carente de tudo que era básico para sobreviver... 

A casa do Povo, só foi fundada no ano de 1945, junto á Serração de Madeiras do Sr. Casimirinho da Venda. 

Tinha muito maus acessos. A gente impossibilitada, não tinha acesso aquele serviço.

A primeira casa do povo da freguesia do Rego, fundada no ano 1945.


O Povo para colmatar aquelas carencias, nomeadamente tratamentos da sua saude, recorria aos seus remédios caseiros, que eram transmitidos de gerações para gerações, de pais para filhos, o modo como eram preparados, as plantas escolhidas e os ingredientes adicionados, para cada doença ou curativos, e quantidade da dose, a dar a cada  doente. 

As Mulheres idosas conheciam muito bem todas as ervas e plantas, para fazerem os remédios caseiros, para tratar as doenças, excepto certas epidemias, tifo, temores malignos e outras moléstias. 

Vou citar alguns remédios usados naquela época.

A urina das pessoas, era transformada em remédio, era guardada em vasilhas e usada  pelos pobres e também nalgumas casas de lavoira, como tive ocasião de ver, quando fui criado de servir .

Aquele remédio tinha de estar sempre a mão; porque de repente era preciso.

Era um desinfetante e curativo, para  pontadas, qeimadelas e  escaldadelas...

A urina era usada muitas vezes, quando em serviços agricolas, o pessoal da lavoura, se feria com a foicinha ou outros utensilios, mijava na parte onde estava ferido, a urina funcionava como desinfetante e  estancava o sangue

Eu próprio fiz isso, quando  cegava a erva e a foicinha me golpeava os dedos da mão.

As nossas vizinhas, Rosinha do Catalão e a nora Albininha do Catalão, também usavam aquele remédio, vieram  algumas vezes, a  casa dos meus pais, curar a minha mãe, quando ela era atacada por pontadas nas costas e no peito e de momento, não tinha aquele remédio, pedia ajuda aquelas nossas vizinhasque o traziam e faziam o tratamento no sitio onde doia. Passado algum tempo, a minha mãe, sentia as melhoras, a dor passava.

Para diarreiras, o remédio, era uma planta muito conhecida; chamada erva da caganeira, que se produzia no meio das pedras das calçadas e caminhos soalheiros.Era muito eficaz para aquele tratamento. Ainda hoje, na aldeia é conhecida pelas pessoas idosas.

A Politária era usada como desinfetante nas partes pubicas, quando havia inflamação dos orgãos genitais, pénis e vulva, fervia-se a água com aquela planta lavavam-se aqueles orgãos várias vezes e tudo voltava ao normal. Aquela planta produzia-se nas paredes antigas e ainda hoje se encontra em qualquer local nas paredes antigas.

A planta politária

A Serúdia é uma planta que também se desenvolve nas paredes antigas, com umas folhas largas e recortadas, dá uma flor amarela e encontra-se em qualquer lugar na aldeia ou na cidade, onde ainda existam paredes antigas. 

Naquela época fazia o lugar do betadine de hoje. O povo usava aquela planta, sempre que estivesse ao seu alcance, quando dava algum golpe, picadela, etc., cortava um raminho, e espremia o caule, sobre o golpe ou picadela... e o caule deitava um liquido amarelo escuro. No sitio da cortadela ficava uma mancha igual há que fica quando hoje usamos o betadine. 

E aquela ferida não durava muito tempo  a sarar. 

Também usavam as folhas para fazer os curativos.

A serúdia, planta medicional, nascida no meio das pedras da parede antiga.



Sabugueiro, já com a baga em maturação.

As folhas, flores e bagas,  do Sabugueiro, eram muito utilizadas na cura e curativos, de várias doenças. As flores depois de secas, eram usadas no tratamento de gripes, feridas crónicas, constipações, inflamações das vias respiratórias,  feridas, treumatismo, etc.
 
               Sabugueiro em plena floração

As folhas eram usadas, em chá,  para fazer gargarejos na garganta inflamada, fortalecer a  pele, os tendões, vasos sanguineos, rins, etc..



                                                                        Sabugueiro com maturação completa.

As bagas eram pisadas e colocadas em compressas de infusão e usadas nas feridas,  queimaduras e outras doenças. O povo usava muito aquelas bagas, como cura e tratamento em muitas doenças, mas tinha muito cuidado, no uso,na cura e tratamentos, porque é uma planta tóxica.

As bagas de côr Vermelha são venenosasporque o sabugueiro que as produz, é uma qualdade diferente, por isso não usavam, as flores, folhas e bagas, daquele sabugueiro.

Baga de sabugueiro venenosa


A salsa além de ser um bom condimento culinário, também era muito usada, como medicamento, no tratamento dos rins e outros orgãos. Eu ainda hoje, uso a salsa misturada com sumo de limão, para limpar os meus rins e  os meus rins continuam saudaveis.



                                                Ramo de Salsa 


Também, eram usadas para chás, várias ervas e folhas de árvores, como a erva cidreira, a hortelâ, mantrastes, malvas, urtigas, limonete, raizes de morango bravo e ervas de São Roberto. Folhas de Laranjeira, Limoeiro, Oliveira, Loureiro, Musgo de carvalho cerquinho, Linhaça, pevides de calondros e a flor, rosmaninho, etc..

Das ervas e flores mencionados faziam chás,infusões e cataplasmas, combinando flores com plantas, para cada tratamento adequado a cada doença, eu por acaso sei parte das plantas e ervas a que se destinava a certas curas, mas para encurtar, abstenho-me de as narrar. 

De qualquer forma, os leitores do blog "Memórias do Rego", já ficam com uma ideia dos remédios usados naquela época pelo povo da minha aldeia.

Além, daqueles medicamentos caseiros, quando as doenças se agravavam e não se pervia para breve a sua cura, o povo recorria a certas crendices, "bruxas", curandeiros que faziam certas rezas e ainda recorriam a certas pessoas idosas para talhar certas maleitas, como o bicho, a papeira, etc... 

Ambrosio Lopes Vaz


 UM PREGUICEIRO COM HISTÓRIA

histórias reais


Este velho perguiçeiro, que é pertença dos herdeiros do Senhor Casimirinho da Venda,  Sr. Albano Alves de Araujo e Sra. Júlia Alves de Araujo, e que muito gentilmente me facultaram esta foto e outras, a quem fiquei muito grato.

Se este velho movel falasse muitas historias tinha para contar,porque passou por várias gerações, já vinha dos avós, dos herdeiros mencionados... 

Foi naquele preguiçeiro que esteve depositada, a minha Bisavó paterna, Rosa Pires,  mãe da minha avó paterna, Josefa Pires.

A minha bisavó, Rosa Pires, foi encontrada morta, no monte do lugar da Lameira, e foi transportada ás costas, pelas pessoas que a encontraram, até  casa de familiares do Sr. Casemirinho da Venda, que moravam no lugar de Pedroso. 

 Foi depositada  naquele preguiçeiro, onde lhe foi prestado o velório e daquele perguiçeiro , depois de ser realizada a cerimonia de corpo presente, saiu para a  igreja paroquial de São Bartolomeu do Rego, onde recebeu as cerimónias funebres e foi sepultada no adro da igreja. 

Naquela época ainda não havia cemitério na freguesia do Rego e  o actual  ainda demorou dezenas de anos, para ser construido. 


Uma triste memória da freguesia do Rego

Tristes acontecimentos, deixaram os habitantes da freguesia do Rego, em pânico e envergonhados, por ocorrências praticadas por dois moradores, também residentes na freguesia do Rego.

O povo da Freguesia do Rego foi sempre um povo muito trabalhador e honrado e naquela época 99,9%, eram cumpridores da Lei de Deus. 

 Mas, em todas as ações praticadas pelo ser humano, há excepções.

A freguesia do Rego. também não fugiu ao exclusivo das excepções, porque elas aconteceram.

Com efeito, dois moradores da freguesia do Rego cometeram crimes horrendos. Um morava no Calvário, lugar da Costinha, chamava-se “Mata Vacas”.


    Casa onde morava o “Mata Vacas”, e a esposa, foi vendida em leilão, pelo Tribunal da Comarca de Celorico de Basto.

Aquele salteador “mata vacas”, assaltava de noite e também, em pleno dia, as casas abastadas e roubava todos os objetos de oiro que encontrava e o próprio ouro que as mulheres, na altura do assalto usassem e agredia selvaticamente as pessoas que encontrava pela frente, com facadas e tiros, deixando-as, ás portas da morte, a ponto de algumas entregar mesmo a sua alma ao Criador.  

Os seus criminosos assaltos, normalmente eram feitos fora da freguesia.

O “Mata Vacas” era casado e tinha um filhinho de tenra idade, eram seus padrinhos o Sr. Bernardino da Tomada e sua esposa, moravam também no lugar da Costinha.

O “mata vacas “foi preso e condenado a pena máxima, de 25 anos de prisão, pelos crimes que cometeu.


                                                      Com a devida vénia do Autor
                                                                                                                                                                                                    
Na altura da sua prisão despediu-se do filhinho e da sua mulher.

A sua esposa, com a vergonha e o desgosto da prisão do marido e da sua miserável situação, ao fim de vários meses faleceu.

O filho daquele casal, foi entregue aos seus padrinhos de batismo, como determinavam as leis naquela época, Bernardino da Tomada e esposa, moradores no dito lugar da Costinha.

Aquela criança, entregue aos seus padrinhos de batismo, também passado um ano morreu. Com o falecimento daquele menino, findou a raiz daquela familia.

Os padrinhos daquele falecido menino, não tinham filhos, do seu matrimónio. No entanto, o Sr. Bernardino da Tomada, tinha um filho chamado José Avelino (foi meu companheiro de escola), das relações que teve em solteiro, com a Felismina, filha dos Tendeiros, moradores no lugar de Vila Boa e que o Sr. Bernardino nunca assumiu a paternidade, porque a lei naquela altura, não obrigava naquela situação, o pai a perfilhar o filho. 

As crianças naquela situação, passavam ao estado de filho de pai incógnito.

 Havia casos, que os filhos nasciam e viviam com os seus pais legítimos,com aquelas negras leis,em vigor no tempo da Ditadura ,eram considerados filhos de pais incógnitos, mesmo a viver com os seus  pais. Não tinham direito ao nome dos seus pais.

Os pais estavam proibidos de assumir a paternidade daqueles seus filhos.

Não fiquem admirados, porque naquela época a lei assim o determinava, 

  Os pais daqueles filhos odiavam aquela inqualificável lei.


          Antiga cadeia civil do Porto, onde estiveram presos os criminosos citados 

O outro individuo que também envergonhou e causou pânico, aos habitantes da freguesia do Rego e a outras freguesias, foi o Manuel Gonçalves, conhecido pelo “Moutas”, residente no lugar de Lobão, que cometeu crimes similares ao criminoso “Mata Vacas”.

Cito apenas, o crime tenebroso, que aquele Manuel Moutas cometeu.

Cerca das quinze horas da tarde, assaltou uma casa, nos Tremesinhos, no lugar de Soutelo, freguesia de Ribas e roubou todo o ouro que estava naquela casa e o oiro que avó e neta, usavam, na altura daquele assalto.

Depois de cometer aquele roubo, assassinou a avó e a neta a facada. Como a neta era muito jovem, com cerca de quinze anos, resistiu mais tempo as facadas e continuava a gritar, como a jovem não morreu logo, o assassino com medo de ser descoberto, pelos gritos da jovem, antes de abandonar a casa, tirou-lhe a língua para fora da boca e cortou-lha, para que ela não o pudesse denunciar. Foi um crime horrível.

Naquela época, nas aldeias, não havia rádios, nem jornais e a censura controlava toda a comunicação que existia. As notícias daqueles horrendos crimes, eram transmitidas de forma distorcida, para esconder do povo a realidade daqueles macabros acontecimentos.

Mas, aquelas tristes noticias, chegavam ao conhecimento das populações, de várias zonas do concelho, com a descrição tal e qual como o crime tinha ocorrido.

Aquelas dolorosas noticias eram transmitidas as populações, através de folhetos feitos em versos, descrevendo tal e qual o crime, como se tinha passado, cantados por ceguinhos, acompanhados de instrumentos de cordas. 

Aqueles panfletos que denunciavam aqueles crimes, eram vendidos as pessoas, á saída da missa, no adro das igrejas e pelo povo de várias localidades por donde passavam e nas feiras, onde normalmente se juntavam várias aglomerações de pessoas.

Aquele processo de transmitir as populações aqueles crimes macabros, pelos ceguinhos, não era usual só nas aldeias, também era usado pelos mesmos processos, nos centros urbanos, como eu tive ocasião de assistir a vários casos, na cidade do Porto e no concelho de Matosinhos, onde foi moço de lavoura.

O "Moutas" foi condenado a pena máxima, 25 anos.Foi encarcerado na cadeia de Celorico de Basto, de onde, ao fim dum ano, conseguiu serrar as grades de ferro, da cela onde estava preso e fugiu.Foi preso novamente, mas daquela vez, levado para uma prisão mais segura, onde se manteve até ao fim do cumprimento da pena a que foi condenado, 

Sempre houveram roubos e mortes, por dicussões de vária natureza, mas os crimes dos assaltos atrás citados, ultrapassaram  a quadrilha do celebre  ZÉ DO TELHADO, que (eventualmente também assaltou casas na freguesia do Rego) proibia a quadrilha que chefiava; de matar ou violar as pessoas que iam assaltar. 

Só o podiam fazer em sua legitima defesa.Não foi por acaso, que o celebre Zé do Telhado, puniu severamente o seu cunhado, conhecido na quadrilha, por Zé Pequeno.  , por ter cometido cimes de agreção e violação. O Zé do Telhado, roubava aos ricos, para dar aos pobres..,Foi degradado para Africa, onde acabou os seus dias... 

Ambrósio Lopes Vaz.

domingo, 10 de outubro de 2021


 


 

A velhinha Escola do Rego

Esta casa, era pertença da casa de lavoura da família dos Nunes, ficava junto a casa do carpinteiro, Sr, Narciso Alves Ferreira e foi cedida a junta de Freguesia do Rego, para ser adaptada á escola primária, Suponho ser a primeira escola da freguesia do Rego.

A casa era composta, pela residência da professora, por uma sala de aulas, com duas portas e uma janela e uma retrete para todos os alunos, situada junto á horta, onde os excrementos caiam a céu aberto directamente na horta.

A freguesia do Rego, nunca teve sede própria, para prestar os seus serviços ao público. Os serviços prestados ás populações, eram feitos na casa do Presidente da junta de freguesia,

A velhinha escola do Rego, era o ponto de encontro, quando fosse preciso reunir o povo da freguesia. Só houve sede para a junta da freguesia, muito depois do 25 de Abril.

A antiga escola do Rego foi demolida e anexada a casa do sr. Narciso Alves Ferreira e ali foi construído um novo edifício, para onde foi transferida a casa do povo do Rego “Posto Médico” e instalada a primeira Sede da junta da freguesia do Rego.


      Uma bela construção da junta da freguesia do Rego

Naquela velhinha Escola do Rego, deu lições, a Senhora Professora, Maria Leopoldina de Matos Nobre, desde o ano de 1913 até ao ano de 1945.

  Foi uma excelente Mestra, dava aulas em conjunto, á 1ª, 2ª, 3ª e 4ª classe, sexo masculino e feminino

  Para os filhos dos indigentes, foi segunda mãe.

  Repartia as suas refeições com os alunos e alunas, que ela sabia, que iam para lição cheios de fome. Matou-me muitas vezes a fome e também vi a Senhora Professora, dar comida á aluna Hermínia Rija e outros.

 

       Professora
Algumas ferramentas usadas pela Sra.Professora. Por acaso também usava uma grande vara de marmeleiro, da qual eu fui várias vezes "mimado", mas devido ao meu comportamento, os castigos que levei foram bem merecidos.

Usava um truque para nos dar comida e os outros alunos não se aperceberem. Combinava com a sua criada Laurinda, a maneira de repartir a sua comida com os alunos que passavam fome. Quando saía da casa e ia para a sala dar as aulas, levava consigo um cestinho na mão onde levava o correio e o despertador.

Quando queria dar comida a alunos que passavam fome, “esquecia-se do despertador”, chamava esse aluno á secretária e mandava esse aluno buscar o despertador, porque ela já tinha combinado com a criada Laurinda, para ter a comida pronta, para aquele aluno, que ia buscar o despertador. Aquela acção praticada pela professora Maria Leopoldina de Matos Nobre, perdurou para toda a vida, na memoria das crianças a quem matou a fome. 

 

Com a devida vénia do Autor.

 

Com poucas condições, para acomodar naquela pequena sala, as quatro classes e dar aulas ao mesmo tempo, ás quatro classes, (6 dias por semana). Não era fácil.

A primeira classe sentava-se em volta das carteiras, nuns pequenos banquinhos, feitos de madeira e era ali que recebíamos as lições.

As carteiras eram ocupadas pela quarta classe, terceira classe e segunda classe e normalmente misturava os alunos mais dotados, da terceira classe com a quarta classe.

Aproveitava todo o tempo, para instruir aqueles futuros homens e mulheres. Pela sua mão, passaram alunos, que continuaram os estudos secundários e se licenciaram, como o Ilustre Arquiteto Paisagista, Engenheiro Ilídio Alves de Araújo e vários alunos que se ordenaram Sacerdotes. (que falarei deles quando falar do Abade, José Gomes Júnior) e muitos outros, Homens e Mulheres, que prestigiaram a freguesia do Rego, nomeadamente os emigrantes, com as novas construções de vivendas e moradias.

Durante os meses de Inverno, a freguesia do Rego, devido á sua localização, era a freguesia mais gelada. Na nossa escola, arreguiçavamos de frio. A senhora professora, ia bem agasalhada, mas para se aquecer durante as horas que dava a lição,  mandava a criada Laurinda, preparar várias brasas, de lenha de carvalho, para durar mais tempo, e meter as brasas numa braseira de cobre, que tinha uma asa de cada lado, mandava dois alunos buscar a braseira, que colocavam num estrado de madeira, que estava debaixo da sua secretária. Aquela braseira, dava para aquecer a Senhora Professora e os alunos.

 Aquela grande Mestra, deixava os alunos aquecer o corpo naquela braseira, quando estavam cheios de frio ou tinham as mãos geladas.   


Com a devida vénia do Autor.

 

A Professora D. Maria Leopoldina de Matos Nobre, além da sua nobre profissão de Professora, também fazia serviço, para a Conservatória do Registo Civil de Celorico de Basto, registava todos os nascimentos e óbitos, dos habitantes da freguesia do Rego, entregava no ato dos registos, as respectivas cédulas e outros documentos, devidamente selados, e assinados pelo seu próprio punho.


 

Naquela época existia na freguesia do Rego, Posto de Registo Civil do Rego, que funcionava na velhinha escola do Rego, como se pode ver nos documentos publicados.



el.

Evitando aos residentes na freguesia Rego, a deslocação á Conservatória do Registo Civil de Celorico de Basto para fazer aqueles registos. Não havia transportes. Tinham de ir a pé, caminhando muitas léguas, por montes e carreiros.

Também. era responsável, por todo o correio enviado aos residentes na freguesia do Rego.

Recebia o correio e fazia as diligências necessárias,para o correio ser entregue aos seus destinatários.

Naquela época, os Correios, utilizavam os comboios para fazer a distribuição do correio para todo o pais.

Todos os distritos que tivessem vias férreas, tinham um comboio que atrelava um vagão- correio e por cada concelho que passava, na estação onde parava, estava á espera um furgão dos correios, devidamente identificado, a quem eram entregues todos os sacos do correio destinado aquele concelho e dali seguiam para o correio geral daquele concelho, que procedia a distribuição para as freguesias correspondentes.

                                          

          Com a devida vénia do Autor.            

                          
Para esse efeito, a companhia de Caminhos de Ferro, mandou construir Vagões-Correio, que eram umas perfeitas” repartições” publicas dos Correios.


Com a devida vénia do Autor


O vagão correio era todo tapado. Tinha de cada lado, várias janelas, duas portas e uma caixa para meter o correio,quando o comboio estava parado.

A primeira porta era a entrada do gabinete do Chefe, a outra era a entrada dos funcionários que trabalhavam naquela “repartição”

 


                                                                      Postais dos correios

 

Esta caixa do correio, era usada, no carro de tração animal no Seculo XIX


 Postais dos correios

Recetáculo do Correio Geral, feito em pedra


 
Saco do Correio, lacrado expedido de Lisboa para a Évora.



                                                 Saco do Correio lacrado, expedido da Baia para Lisboa

                                    

            Vagão-Correio, que circulou na via férria, durante muitos anos, transportando correio.

Com a devida vénia do Autor


Postais dos correios

    Caixa do Correio Divisora, do Seculo XIX

Vou descrever o percurso que o correio, cartas revistas, jornais, avisos, livrosetc... percorria até chegar ás mãos daquela saudosa Professora, Maria Leopoldina de Matos Nobre.

 



O comboio onde atrelava o vagão—correio, partia da cidade do Porto, da estação Avenida de França (Boavista) ás 8h45 e quando foi concluída a estação da Trindade, começou a partir daquela estação, com destino no mesmo percurso, Trindade-- Fafe.


Com a devida vénia do Autor


Todo o correio destinado aos concelhos de Fafe, Celorico de Basto, Mondim de Basto, Cabeceiras de Bastos, Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, transportado pelos caminhos de ferro, terminava na estação de Fafe. Do correio geral de Fafe, ia um furgão dos correios, recolher todos os sacos do correio destinado aqueles concelhos.

 Naquele posto de correio geral de Fafe, todo o correio registado, destinado á área abrangente do correio geral de Fafe, ficava depositado naquele posto, e seguia no saco do correio normal, aviso de recepção, avisar os destinatários do seu levantamento, naquele respectivo posto dos correios de Fafe. O que acontecia aos residentes na freguesia do Rego.

A partir daquele citado posto do correio, os sacos destinados aos concelhos mencionados, eram transportados pelas camionetas de carreira, chamadas “Mondinência” e Viação Automotora, de António Magalhães.

Mas, o saco do correio destinado á freguesia do Rego, era entregue a horas certas, no lugar da Lameira, ao Senhor Alfredo, conhecido pelo Senhor Alfredo do correio, que todos os dias uteis, de manhã, ás 8h30, entregava no lugar da Lameira, ao motorista daquelas carreiras, o saco do correio expedido, aquele saco levava dentro, o correio normal, dos habitantes da freguesia do Rego. Ás três horas da tarde, no lugar da Lameira, os chauffeurs daquelas carreiras, entregava ao Sr. Alfredo o mesmo saco, com o correio normal destinado á freguesia do Rego.

O Senhor Alfredo, entregava aquele saco do correio, na velhinha escola da freguesia do Rego á Senhora professora Maria Leopoldina Matos Nobre, que era responsável, por todo o correio, destinado á freguesia do Rego e por fazer chegar todo aquele correio aos seus destinatários.

Aquela Escola, também era considerada Posto de Correio. A Senhora Professora tinha a chave, abria o saco, tirava toda a correspondência e metia no saco o correio que ia ser expedido, fechava o saco á chave. Ficava pronto, para o Sr. Alfredo, de manhã entregar aquelas carreiras, para voltar á procedência, posto do Correio Geral de Fafe, que depois de ser tratado, era encaminhado para a estação de caminhos de ferro de Fafe.

O correio era transportado nuns grandes sacos de burel e na abertura tinham cravada uma fechadura quadrada, cravada na boca do saco, num dos lados da fechadura, estava cravada uma correia de cabedal, com vários furos, dava a volta na boca do saco, a fechadura abria a meio, dentro tinha uns pernos onde a correia encaixava, depois do saco estar fechado, fixavam novamente a fechadura e com uma chave exclusiva dos correios fechavam a fechadura.

O correio registado, tinha outro tratamento, era metido noutros sacos destinados a estações do correio geral de cada concelho, onde era levantado pelo próprio ou seu representante.

Com a devida vénia do Autor

 

Os sacos do Correio, prontos para entrar no vagão-correio e seguir o seu destino

 

Os sacos do correio destinados ás freguesias, tinham escrito em letras destacadas, o nome da estação dos correios de onde saia e o nome da freguesia a que se destinava.

No caso do saco destinado á freguesia do Rego, estava escrito FAFE-REGO. No endereço dos destinatários da freguesia do Rego, tinha que se escrever “Correio Fafe Lameira” Caso não escrevesse aquelas frases o correio era devolvido.

Como acima citei, todo o correio normal, destinado a freguesia do Rego.saía do posto do correio geral de Fafe, no respectivo saco Fafe-Rego, mas nas camionetas,  ia só até á Lameira.

Ainda hoje a freguesia do Rego, tem o código postal de Fafe, 4820-840 e a freguesia pertence a Celorico de Basto, código postal de 4891.

Como atrás mencionei, a Senhora Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre, deu aulas, até se aposentar, na escola da freguesia do Rego, desde o ano de 1913 até ao ano de 1945.

Quando se aposentou, levou com ela, a sua criada Laurinda, que cuidou da senhora Professora, Maria Leopoldina de Matos Nobre até á sua morte.Foi viver para a sua casa que herdou dos seus pais, onde nasceu e morreu, no estado civil de solteira, na sua terra Natal, na rua da Nogueira nº22, freguesia Souto Maior, concelho de Sobrosa. Mas continuou ligada a familias amigas da freguesia do Rego,a quem escrevia regularmente para matar saudades. 

Depois da morte dos pais, acabou a raiz da família.

 Como não tinha herdeiros, deixou a herança á sua amiga Arminda Martins.


                       Casa da Sra. Professora

                                                                   
                                                       Porta principal, nº22, da entrada da casa da Sra. Professora

 

                                                      




  Jazigo da Saudosa Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre



Cemitério da freguesia de Souto Maior 


A Senhora Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre, filha de Luiz António de Matos Nobre e Margarida Monteiro de Matos, filha única, oriunda de uma família burguesa, foi sepultada no seu jazigo, herdado de seus pais, no cemitério de Souto Maior, freguesia de Sobrosa. 










    










                                      

 

 

 





                    Jazigo onde está sepultada, a saudosa Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre

 

A Senhora Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre, deu aulas na antiga Escola da freguesia do Rego, durante 32 anos, vivia numa pequena Casa, anexa á escola, nas traseiras, tinha uma varanda de madeira em toda a extensão e por baixo tinha cave, com duas cortes, uma era galinheiro, a outra capoeiras de coelhos.

As traseiras da casa confrontavam com o caminho publico e a frangalhada muitas vezes andava á solta, vinham para a horta e para os campos da penouta, quando tresmalhavam e a criada Laurinda não dava conta do recado, a Senhora Professora, mandava os alunos dar uma ajuda, e lá conseguíamos levar toda aquela bicharada para dentro do galinheiro.

Aquela grande Mulher, com um M dos grandes, durante a sua nobre e espinhosa missão, deu aulas a quatro classes ao mesmo tempo e além do ensino, prestou outros importantes Serviços, aos habitantes da freguesia do Rego.

Pela sua dedicação á causa publica e bem comum, merecia que os Autarcas da freguesia do Rego, dessem o seu nome. a uma rua, quando as quelhas, canelhas e caminhos, da freguesia do Rego se transformassem em ruas. Cheguei a falar nesse assunto, ao Senhor Presidente, da Junta de Freguesia do Rego, José Carvalho.

Construíram as ruas, deram-lhe nome, mas o nome da Senhora Professora, Maria Leopoldina de Matos Nobre, não consta em nenhuma rua ou outro sítio.

Os Autarcas atuais, se assim o entenderem, podem prestar essa justiça, a senhora Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre, que é bem merecida.


Finalizo. com a publicação dos meus diplomas, do ensino primário e os livros onde estudei a 3ª classe em criança e 4ª classe de adulto, 


Diploma, da 3ª classe, da frequência na Antiga Escola do Rego, entrei aos 8 anos e sai aos 11 anos. fiz exame da 3ª classe no dia um de Julho de 1943.


                Diploma da minha quarta classe, da frequência, na escola de adultos, na Empresa Fabril do Norte ( fabrica dos carrinhos). Fiz exame da 4º classe de adultos, em 20 de março de 1959. 









Manuel Teixeira Vaz

Agradeço ao meu irmão, Manuel Teixeira Vaz, a preciosa recolha de dados, e ao Sr. Albano Alves de Araújo e D. Júlia Alves de Araújo, o fornecimento de elementos e informações muito uteis, referentes á Senhora Professora Maria Leopoldina de Matos Nobre.

 

 


Ambrósio Lopes Vaz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 






 




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